Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

O Velho Tobias sempre foi um homem estranho
Por: António Centeio

Estranho é este homem, o Tobias, de hábitos e outras coisas. Levanta-se pela madrugada com o salpicar do Sol para antes de se sentar ao computador ir à cozinha buscar o cinzeiro como o resto dos cigarros que ficaram da noite, que ainda é noite, passando de seguida pela sala para se servir da sua primeira, ou última aguardente velha do dia ou da noite. Começa então a escrever no monitor prosas vindas dos confins da sua mente, ou sei lá donde, como que fosse a sua primeira necessidade básica do dia.
Ainda remeloso, já o monitor fumega por todo o lado por causa do fumo dos cigarros, fazendo com que as paredes da divisão estejam todas amarelas, como o seu velho bigode ainda está mais amarelo que tudo que o rodeia.
Não permite a ninguém (só lhe resta uma prima afastada e a velha Silvina, antiga ama e actual criada. A poucas pessoas, faculta a entrada, excepto escritores, que deixa enxergar alguns escritos ou deles quer saber opiniões) que entre na sua divisão sem a sua permissão ou presença, salvo a pessoa deste escriba, em que Tobias confia plenamente, já que ajuda quando pode e atura os seus desabafos ou pedidos sobre o que há-de ou não escrever.
Não o satisfaço apenas nas horas que inicia o seu trabalho como no que bebe e fuma, mesmo sendo obrigado a inalar o fumo daquela coisa mal cheirosa. Sendo resmungão como resmungões são aqueles que precisam de solidão para escrever compreende-me para ao mesmo tempo dar-me razão e, fazer-me a vontade.
Pelas prateleiras e espalhado pelo chão, milhares de livros, todos desarrumados ou ainda por catalogar, que me compete a mim, na qualidade de confidente aprendiz da arte de prosar. Aqui, pequenos apontamentos com anotações, livros abertos esperando por alguém que os leia; acolá, blocos com frases obtidas algures e enxertos do arco-da-velha.
Deita-se quando deveria almoçar, levanta-se quando deveria estar a jantar; alimenta-se de frutos secos, para raramente, sair dos aposentos e ir a alguma restaurante das proximidades. O madrugador incita-me a que, com ele, ande ou o aconselhe a visitar ou frequentar locais solitários para que a inspiração não o abandone.
Foi numa destas visitas que encontramos o “Solar dos Girões”. Depois, de termos percorrido “seca-e-meca e olivais de Santarém” para sabermos quem eram os donos, a fim de obtermos a devida autorização para o visitar, conseguimos num ápice de tempo a respectiva autorização. Ficou deslumbrado com o que viu – eu também. O “Solar dos Girões” situa-se na localidade de “Carril” terra centrada no coração do Ribatejo em plena região vinícola. Tem mais ou menos sete hectares que aglomera: habitação jardins, quintais, pátios e uma pequena área rural onde existe uma mina de água, uma fonte, um tanque de rega e ainda uma zona rústica constituída por uma área de prados e por uma mata de sobreiros, alguns de grande porte. Existem ainda magnólias, árvores já centenárias. Em volta do edifício, propriamente dito, longos canteiros de hortenses embelezam a habitação, fazendo com que nas manhãs quentes, quando se abra a janela, se inale o aroma que das roxas flores vem. Entre a parte traseira do edifício e o quintal, um forte carvalho
Passados poucos meses, com artes e manhas – de um bom negociante, coisa que eu desconhecia em Tobias, conseguiu dar a volta ao proprietário e comprar o mesmo.
Adora estar até às tantas sentado na secretária, escrevendo à luz do candeeiro aquilo que a inspiração lhe dita. Noutras alturas, senta-se no seu velho cadeirão olhando para as sombras do velho carvalho.
Tobias, como quase todos os escritores, tem destes devaneios, porque: mais do que os vulgos, sentem numa forma muito especial, que os percursos que fazem na vida têm um caminho final. Não é por acaso que está bem escarrapachada na sua secretária, em itálico, a sua frase preferida: «Após a morte, todos nos encontraremos no caminho das estrelas».

Sábado, 30 de Maio de 2009

O Jardim do André
Por: António Centeio

Um corpo de homem mas com uma cabeça de criança. Adora sentar-se na relva do jardim conversando com as crianças como se uma criança fosse. Esquece-se que tem vinte anos enquanto os outros andam pelos dez. Mandrião mas bonacheirão. Quando me sento no banco do jardim vendo as crianças pulando e gritando para ao mesmo tempo inventarem brincadeiras esquisitas, muitas vezes sem querer ouço as suas conversas.
De todos, um se destaca. Aquele que quer ser criança mas já é homem. Observo-o sem se aperceber. Nada de especial tem mas impressiona-me a sua fisionomia. As suas imensas gargalhadas fazem mais barulho do que trovões no Inverno, as suas conversas são adulteradas com dizeres sem nexo. Diálogos que acabam por afastar quem lhe tem respeito, não pelo que diz, mas pelo seu corpo.
Intriga-me a sua maneira de ser. Penso que dissimula, sem querer ou sem saber, qualquer coisa. Uma pureza que me emociona. Ri com os olhos para num milésimo de segundo mostrar amargura e rancor, noutro tanto tempo, correm-lhe pela cara, grossas lágrimas. Tantas que as crianças andam sempre a perguntar-lhe «porque choras?» Não sabe responder nem explicar. A sua vida deve ser feita de contrariedades ou de algo estranho, porque de tão crescido ser, é um enigma.
Porque os seus pequenos amigos já o abandonaram por causa das suas conversas não fazerem sentido ou por não acreditarem nele, fica sozinho no terreno, que até há bem pouco tempo estava cheio de petizes. Senta-se na relva com os joelhos dobrados e com a cabeça no meio das pernas olhando para a verdura que debaixo dele está. Esgravata as pequenas folhas, como se nelas estivesse a ler alguma página de um livro qualquer. Deixa a sensação que na terra está escondido um qualquer cofre que por mais que procure não o consegue encontrar. Talvez pensando naquilo que nem ele próprio sabe explicar. Bem dentro de si, o enredo do pensamento e as personagens devem fazer parte da sua mente vazia. Por mais que queira não encontra o caminho ou o sentido. Então, levanta-se e de seguida caminha pelo chão que lhe amacia os pés, metendo as mãos no bolso. Caminha, dando pontapés na relva como sendo esta culpada das suas agonias. Cabisbaixo e aos safanões vai dando sinais se o mal está nele ou do que faz parte dele.
São nestes momentos que concluo que algo não deixa ver o mundo que lhe pertence ou que não o deixa compreender aquilo que ele próprio não sabe. Nunca o vi acompanhado de verdadeiros adultos como nunca percebi o sentido da sua vida. Sempre o vi sozinho com a sua cara rechonchuda como o vejo diariamente enquanto espera por quem lhe faça companhia. Tenho a sensação que procura qualquer coisa na vida mas nunca conseguirá encontrar. Às vezes até parece que anda perdido no meio da floresta onde nem os pássaros lhe querem fazer companhia. Quando se encosta às redes que protege o espaço desportivo, olha para o cimo das mesmas. Com as suas enormes mãos faz gestos de querer subir uma imaginável árvore que o levará ao seu refúgio.
Desperta quando vê as crianças que vem brincar, perguntando a si próprio se aceitarão, a sua presença porque outras não têm para brincar. Logo formado os grupos do costume, André, mais não é do que um rapaz com corpo de homem mas com cabeça de criança. Faz tudo para agradar mas pouco lhe ligam – não inspira confiança a quem julga ser como ele.
Nos fins das tardes, quando o jardim começa a ficar despovoado, desvia-se para a rua íngreme, paralela ao espaço infantil, para começar a subi-la. Sem pressa e sem qualquer preocupação, enquanto sobe o caminho, faz na delonga o arrastar dos seus sapatos que mais parece querer arrancar as pedras da calçada. Várias vezes segui o seu percurso para ver onde morava ou para vê-lo entrar para na sua casa. Depois formaria o meu pensamento dos porquês das suas razões e atitudes. Mas desisti, porque no fim do cimo da rua, entra no arvoredo, seguindo um caminho que no meio deste passa, de tão cerrado ser, perco-o de vista, ficando eu, sem qualquer sinal do lugar onde se recolhe ou de quem o acolhe. Esfuma-se esguiamente pelo meio dos imensos troncos - a não ser que saiba que lhe sigo os passos.
Nunca vi ninguém procurando-o ou chamando por ele. Depreendo que será tratado por alguém, porque o seu aspecto demonstra que não deve ser criado apenas com pão e água como a sua roupa não é de maltrapilho.
Quando regresso, penso como será a vida dele e se a razão das suas atitudes não será pelo pouco desamparo que lhe dão. Algures, alguém deve cuidar dele.

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

O RAPTO NO CENTRO COMERCIAL

Por: António Centeio

Nasceu e cresceu numa avenida cheia de árvores que faziam grandes sombras e davam aconchego aos passarinhos no Verão. Tão grande era a avenida que praticamente atravessava toda a cidade.
No centro da avenida, estava implantado o maior centro comercial da zona. Quase todas as grandes marcas estavam ali representadas levando por sua vez a um corrupio constante de pessoas que adoravam visitar e frequentar as centenas de lojas existentes.
Morava num andar, cujo prédio fazia frente para o centro comercial. Da janela do seu quarto podia ver a todo o momento a grande azafama de quem entrava e saía do mais moderno centro comercial como a confusão do trânsito que tanto aumentava como diminuía; bastava ser fim-de-semana ou um daqueles meses que as pessoas ganham o vencimento em duplicado para logo os carros fazerem longas filas, quer entrando quer saindo do enorme parque de estacionamento subterrâneo que o edifício tinha.
Adorava levar horas na janela vendo as pessoas. Algumas carregadas de embrulhos enfeitados nas mãos, outras com embrulinhos que davam logo a perceber, para quem via, que eram prendas especiais. Às vezes até punha-se a imaginar que: pelo vestir, pelo andar ou tipo de embrulho, o que iria dentro deles como das possibilidades de cada um e as suas profissões.
Sua mãe por um lado aborrecia-se com o tempo perdido vendo a filha a ver a vida dos outros, mas por outro lado, ficava satisfeita e descansada por não ir para a rua brincar com as crianças vizinhas, como algumas faziam. A sua preocupação era quando ia para o liceu situado ao fundo da avenida, porque a filha tinha que atravessar algumas ruas que embocavam na longa artéria.
Uma filha estudiosa, que quando cresceu, ao contrário de outras, que só queriam: discotecas e andar a passear com rapazes de outras redondezas, como dizia para as vizinhas, era uma moça exemplar. A sua pombinha, como lhe chamava, só frequentava o enorme complexo comercial, que mais poderia querer dela?
Todos os seus momentos livres eram ali passados. Sabia mais do que ninguém, quando mudavam as empregadas das lojas, quantas empregadas tinha cada loja, sabia quando começava e acabava os saldos, sabia quando mudavam as montras e quando eram apresentadas as novas colecções de roupas ou algum novo lançamento de perfumes – a loja que mais adorava era a que tinha uma montra ostentando as melhores jóias do mundo.
Foi num destes momentos de lazer que um dia soube que a escritora Sveva Casati Modignani era um dos nomes mais populares da ficção italiana, cujas livros se tornavam todos em bestselleres, como foi num destes momentos em que assistia ao lançamento de um livro, ouvir do seu vizinho de cadeira, esclarecimentos sobre um poeta chamado Pablo Neruda. Tanto gostou de o ouvir que a alma do mundo os juntou para ficar traçado todo o futuro naquele momento. Coisas do jogo do destino.
Pouco mais velho do que ela, ficou a saber na conversa consequente que era director de uma grande marca de automóveis em Portugal.
Uma amizade profunda foi criada como os encontros se tornaram contínuos, ao ponto de, passado pouco tempo, o mesmo ter que atravessar a avenida para ir conhecer os pais dela, que ao saberem quem era, logo ficaram todos babados, para quem iria futuramente fazer parte da família.
Do casamento, nasceu uma linda menina a que chamaram de Cidália, porque alguém lhes disse que «Cidália, era nome de fantasia». Afinal, qualquer fantasia tem valor, seja falsa ou verdadeira. O que importa é o amor que enche a vida inteira.
Da casa em que sempre viveu, de tão espaçosa ser, seus pais reconstruíram o seu interior, conseguindo fazer duas casas independentes.
Os hábitos adquiridos, o tempo livre que tinha, a possibilidade de poder comprar as roupas que sempre gostou, já que seu marido tinha condições económicas para tal, faziam-na uma visitante constante do espaço. Passava tardes inteiras com a sua pimpolha no carrinho de bebé, pouco se preocupando com quem se cruzava ou lhe seguia o percurso, excepto quando via alguém conhecido, que com a educação que tinha recebido, cumprimentava sempre.
Seu marido era um consumidor ávido de livros e não perdia qualquer lançamento de obras famosas, para além de nos fins-de-semana ser também um frequentador do emblemático espaço comercial que de tudo tinha para além do conforto e qualidade de pessoas que utilizavam o Centro Comercial.
Já conheciam todos os cantos à casa e sabiam a localização de cada loja mas não sabiam era que no dia que iam todos juntos verem o escritor que estava presente para o lançamento de uma história de paixão e intriga, os seus passos estavam a ser seguidos por alguém.
Habituada a ter sempre o que queria e gostava, quando ia a caminho do evento, viu numa montra um casaco para a estação fria que a encantou. Convidou-o para ir com ela só um minutinho ver o mesmo e saber o preço para quando regressassem, comprasse o mesmo, ou receber o dito como mais uma prenda de quem tudo lhe dava.
Como era só um minutinho, deixou o carrinho à porta do estabelecimento e quem nele dormia como um anjo para apreciarem o que tanto lhe tinha chamado a atenção.
Sem saberem explicar como, o carrinho e a sua querida bebé, tinha desaparecido num ápice que nem o Vento conseguia ser tão rápido.
Gritos profundos e loucos, lágrimas de raiva e culpa, alvoroços de o mundo ter acabado sem avisar, palavras sem nexo e uma confusão maior que a babilónia, alertaram tudo e todos, que numa rapidez nunca vista, centenas de pessoas se puseram a correr por tudo que era zona comercial e não só.
Valeu-lhes a segurança interna e a tecnologia usada que filma tudo e todos, para em centésimas de segundo os écrans algures escondidos mostrarem que alguém no parque subterrâneo tentava meter à força no interior de um automóvel algo de muito estranho. Bloqueada a saída, a mãe que não podia ser mãe devolveu a quem era mãe, aquilo que lhe pertencia.
Hoje, grandes espaços comerciais ou confusões, nem vê-los, porque, um dia alguém desejou, cobiçou e tentou roubar aquilo que mais querido há neste mundo: uma filha.
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Sábado, 25 de Abril de 2009

As estrelas não estavam em harmonia

Por: António Centeio
Acácio nasceu num dia azarento de Março. Sua mãe, criada de servir assim se chamava em tempo a profissão, também nasceu no mesmo dia de calendário mas apenas com diferença de anos. Talvez no almanaque as estrelas não estivessem em harmonia.
De acordo, estava a vida cinzenta dos dois. A mãe, apenas esteve casada seis meses para até hoje nada saber de quem seu marido foi e pai de seu filho é. Nunca mais arranjou, nem quis, homem algum. Bastou-lhe quem de sua barriga saiu, como a este fazer um homem.
Ainda hoje, não sabe as razões porque o marido abandonou a casa, mesmo conhecedor de sua gravidez, Genoveva facilmente entendeu que o futuro ia ser composto de dias muitos escuros e que as dificuldades não iriam ser poucas. Uma mulher, sem recursos, sem uma profissão e, para azar seu, distante da família, nunca mais nada do planeado e projectado a dois, alguma vez se tornaria realidade.
Uma mulher de vintena e picos anos com o sabor amargo no corpo, que a vida levada, a ensinou que fazia parte de um mundo espinhoso. A futura, talvez um mar de amargura com algumas lágrimas vinagradas.
Não estava longe da verdade. Começou a servir aqui e ali tentando recolher alguns benefícios para que as dificuldades fossem superadas. Sem saber, começou a perceber que a vida é como uma moeda, tens duas faces. Quem a devia ajudar e estar a seu lado, exigia-lhe o que não podia dar por causa do seu frágil corpo e do estado em que se encontrava. Foi explorada até mais não poder, para poucos meses depois todos lhe voltarem a cara, pela simples razão de ter tido um filho bem pequeno.
Um filho que quando nasceu, sua mãe nem um cêntimo tinha no bolso, não fosse uma sua vizinha ter ajudado e pago o transporte para o hospital, talvez tivesse ido, no momento do nascimento, desta para melhor.
Valeu-lhe na infância do rebento, algumas almas caridosas que a ajudavam por via da Santa Casa da Misericórdia, tirando desta aquilo que era preciso para a recente mãe. Foram anos difíceis, passados numa amargura, num ódio silencioso e numa raiva interior que Genoveva mordia os lábios para se controlar e não deitar para fora tudo o que sentia bem dentro de si.
As pessoas que adoravam e gostavam do seu serviço foram as primeiras a lhe voltar as costas. Nada queriam com uma mãe solteira; as outras, diziam-se gente mas eram umas despiedosas. Em vez de ajudar quem estava a cair, ainda carregavam mais para que ficasse bem no fosso.
Acácio cresceu os anos mais difíceis de sua vida neste mundo de desprezo e abandono. Quando se apercebeu do que o rodeava, tornou-se numa criança calada e obediente com um enorme asco dentro de si, sem dar a conhecer aos adultos o que sentia. A natureza encarregou-se de lhe ensinar que nem todos são iguais, mesmo que não lhe desse a inteligência necessária para gostar dos livros.
Na escola, algumas crianças bem cedo souberam que o seu colega era o filho da Genoveva e do infortúnio. Fizeram dele mascote da turma. Tudo lhe davam e nada queriam que lhe faltasse. Destes, meia dúzia, levavam-no para suas casas, para do que tinham, com ele repartir como ainda do seu ambiente familiar fazer parte. Alguns, poucos, quando iam de férias com seus pais, faziam questão de levar quem nada tinha, para além de lhes fazer companhia.
Foram estas atitudes e amizades que contribuíram para Acácio não enveredasse por caminhos obscuros. Até à juventude, para onde fosse o grupo de amigos, o desfavorecido acompanhava-os sem gastar o quer que fosse. Até o levaram para o clube da terra para jogar futebol. Assim, sempre passeava e conhecia um pouco mais daquilo que o rodeava. O treinador tinha uma afeição especial por ele. Homem com alguma experiência, ensinou-lhe que a vida é como um jogo, ora se perde ora se ganha. Fez com que aprendesse, que por maior que seja a queda «a grandeza do homem é conseguir elevar-se e nunca se rebaixar a seus iguais».
Um dos seus grandes amigos da escola, fez com que fosse tirar um curso de formação. Hoje, é responsável pela logística de uma grande cadeia de hotéis. Nos seus tempos de lazer quando vêm à terra que o viu nascer, a primeira coisa que faz, antes de ir visitar a mãe, que continua a vida que tinha, é visitar quem nunca o abandonou. Os amigos e seus pais merecem uma especial atenção. Se é quem é, a estes pode agradecer.
Quem o conheceu e sabia da sua situação gosta de ver o Acácio, mesmo que alguns, lhe voltassem as costas quando mais precisava. Não lhes guarda rancor mas também não esquece quem o achincalhou e desprezou. Apenas não olha de frente para aqueles que num passado recente se faziam de santos homens para explorar ou usar o corpo da mãe.
Hoje sabe, que destes, alguns, apenas queriam ajudar a mãe, se esta lhe emprestasse o corpo a troco de prazer e dinheiro para que as dificuldades não fossem como foram.
Não os odeia, mas quando os vê e se lembra dos maus tempos, sente no fundo do seu coração o sabor das gotas amargas de raiva que o acompanharão para o resto da vida – é mais forte do que ele, mesmo compreendendo que é sempre preciso saber quando acaba uma etapa da vida. Nos momentos de cansaço, chama pela Genoveva, para que no seu colo descanse. Nunca culpa a mãe daquilo que não teve. Se culpado houver, pelo que passou, simplesmente é a vida ingrata que nos prega rasteiras quando menos esperamos. Sua mãe continua, segundo Acácio, a ser a melhor mulher do mundo.

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Manel, o velho pastor


Por: António Centeio




Uma longa estrada de terra que acaba numa contornada curva embocando depois em dois caminhos tortuosos que seguem: um para o mouchão dos franceses, outro para o malagueiro dos choupos. Demarca-os duas altas e espessas árvores.
Do lado esquerdo, antes dos desvios, pequenos cerros de terra, espessos de erva rastejante, intervalados por duas raquitas amostras de velhos troncos que teimam em manter-se de pé. Um pequeno charco recolhe águas da chuva servindo de bebedouro ao gado.
Do lado oposto, junto ao caminho, uma velha e extensa cerca de madeira com dois metros de altura. Ao comprido, velhas tábuas de madeira espaçadas umas das outras, cerca de vinte centímetros no sentido horizontal, que em tempos muita sombra fizeram e pregadas em barrotes na vertical separados uns dos outros a uma distância de um metro. Vedam a herdade para quem passe ao lado saiba que existem extremas. No seu interior, velhas árvores vivem da humidade da terra. Depois, terreno a perder de vista, cheio de verdura, vendo-se ao longe grandes salgueiros que escondem o rio Tejo.
Da estrada até ao rio, a meio, uma pequena casa de madeira toda ferrada a tábuas, mas só de uma divisão. Nos dias de Inverno, apenas se vê o fumo a sair da sua chaminé. Quatro janelas de madeira, quando abertas, servem de entrada para a claridade do dia. A da noite é a chama de um velho candeeiro a petróleo que ilumina quem nela vive. Uma velha porta segura por duas dobradiças feitas de um metal qualquer, chiam quando a abrem ou fecham, excepto quando, fica aberta ou quando o vento a faz abanar.
Nesta planície viveu durante muito tempo o Manel, pastor, que passou anos inteiros na pastagem guardando as suas manadas de gado.
Quando o Sol nascia, Manel começava o dia abrindo a salgadeira onde estava guardado bocados de carne da última matança do porco. No meio de uma das várias camadas de sal, tirava o gordo toucinho já amarelecido para de seguida cortar uma fina fatia. De cima da mesa, abria a pequena lata redonda e lá de dentro cortava o quarto de pão do dia. Depois, voltava-se para o que estava a aparecer no céu. Sentava-se no seu torcido mas pequeno banco de madeira, que com pouco mais de vinte centímetros, estava acima do chão.
Pequenos fragmentos de toucinho e de pão eram cortados com o seu inseparável canivete de bolso. Era o seu pequeno-almoço.
O gado despertava aos poucos para pachorramente vir cercando a casa, de quem, dali a pouco o levaria para a pastagem. Anos e anos de costumeira. Tantos, que conheciam os hábitos uns dos outros. Muitas vezes Manel perguntava a si próprio se era ele que conhecia os hábitos dos animais se estes os dele. Pouco depois seguiam para a pastagem. Enquanto o gado pastava, o pastor levava o seu tempo debaixo dos velhos salgueiros sentado no banco que o acompanhava sempre. Nos dias quentes apetecia-lhe passar para o outro lado do rio ou neste tomar banho. Como não sabia nadar, das duas uma, ou teria que o fazer num dia que houvesse pouca corrente ou tinha que fazer como alguém disse: «Para me forçar a atravessar o rio, tenho que atirar as botas para o lado de lá. Assim tenho que as ir buscar». Nunca o atravessou.
Entre as duas tábuas que serviam de sustento ao banco metia o seu pequeno saco feito de restos de panos usados, onde estava o almoço feito no dia anterior, a merenda, a cabaça com três quartos de vinho tinto, duas pequenas pontas de corno que serviam de galheteiro, para de seguida ir à procura de bocados de lenha. Quando encontrava alguma mais verde ou macia, trazia-a. Começava o seu trabalho favorito. Fazia conchas de madeira, garfos, colheres de sopa, charruas, forquilhas, carroças puxadas por cavalos, charretes engalanadas e as mais variadas miniaturas de ferramentas agrícolas. Adorava fazer estruturas de relógios que mais pareciam as antigas capelinhas que só lhes faltava o maquinismo para poder funcionar.
Foram estas coisas que ao longo dos anos fizeram com que o Manel se tornasse num dos melhores artífices da charneca ribatejana. Dos confins do mundo procuravam-no para poderem admirar as suas obras. Por algumas, era-lhe oferecido elevadas quantias que para um modesto pastor mais não eram do que uma fortuna. Recusava sempre, porque pouco lhe interessava desperdiçar a vida em busca da fama ou na abundância do dinheiro. Valorizava mais que na sua vida deixasse obra feita para poder ser recordada na memória do tempo.
O seu lema era: aumentar o património para quando na velhice andasse com a «tralha às costas podê-la mostrar aos outros». Afirmava com convicção que as «peças de artesanato não devem ser vendidas mas sim expostas para que não se perca a tradição».
Encontrei-o um dia destes numa feira de antiguidades expondo parte dos seus objectos, onde alguns, nos dias que correm já são relíquias valiosas. Nos seus noventa e oito anos de idade, jorra saúde e alegria.
Disse-me: «quero durar mais dez para fazer uma exposição geral dos bonecos que arranjei ao longo dos anos. Não quero que acabe a tradição dos homens do campo». Apenas se emocionou quando se lembrou da apanha do figo, quando era moço. Já não conduz as suas manadas de gado, mas tem saudades do tempo em que se sentava à sombra dos salgueiros cortando bocados de madeira para «fazer as suas coisas».
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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

A minha amiga Sandra

Quando acordou já era dia e um lindo sol coloria tudo ao seu redor. Para Sandra, o problema era com atravessar a floresta. O silêncio da floresta intrigava-a como os perigos que existiam no seu interior. Mas sabia que uma pessoa sábia tenta resolver os problemas antes que eles surjam. Descobriu que a noite é apenas uma parte do dia. Foi então que iniciou o percurso que tinha que fazer. Acreditava que algo a acompanhava nos seus passos. Nunca se esquecia de todas as armas que o homem foi capaz de inventar, a mais terrível – e a mais poderosa – era a palavra. Quem era e o que fazia sabia, muito bem. Mas há coisas inevitáveis que temos que aceitá-las como são ou então descobrir o segredo em como contorná-las para que não se avolumem mais. Tinha uma enorme Fé. Ensinaram-lhe desde pequenina que precisamos de confiança e, a confiança chama-se Fé. A fé é um mergulho numa noite escura. Acabou por atravessar a pequena floresta que a separava do chamado mundo civilizado.
Desde pequenina a minha «aluna» demonstrou sempre que, história ou filosofia seria o destino da sua licenciatura (como adorava as estrelas e o seu encanto). Acabou por escolher a última. Dizia sempre que nos mistérios do azul recebia as mensagens daquilo que acabou por seguir. Sandra era um encanto. Rompia pelos pensamentos uma áurea de inteligência para no brilho dos olhos resplandecer algo de misterioso. Toda ela era uma argúcia da natureza (só eu, a sabia compreender). Bem cedo descobri que nesta aluna que a sua capacidade em acreditar nos sinais era algo fora do comum. Previa para ela um grande futuro – nunca me enganei. Sinto-me feliz pelo tempo que despendi com Sandra.
O nosso encontro acabou por ser sublime porque o encontro de duas almas gémeas é maravilhoso. Sandra, sabia – mais do que ninguém, compreender os sinais. Nos encontros que costumávamos ter no silêncio da cabana com os nossos mensageiros acabavam sempre na aproximação de dois corpos espirituais. A essência da beleza e da Alma do Mundo não nos deixava ir mais além. Era o segredo de duas pessoas que buscavam a sabedoria no meios dos sinais e das estrelas.
Muitas vezes com a sua cabeça apoiada nas minhas pernas lamentava que a sua maior mágoa interior era saber que neste mundo materialista as pessoas nem sempre entendem a nossa linguagem.
Como gostava de Sandra!
Nestes momentos éramos duas pessoas numa só. O outro mundo, só compreendia palavras como ambição, riqueza e sucesso.
Mal sabia que o futuro lhe reservava uma grande surpresa. Nas tardes chuvosas e de trovoadas assustadoras eu costumava ouvir o seu pequenino coração chorar. Chorava, porque nas profundezas do seu ser era sensível. Sentia-se insignificante para acabar com o sofrimento dos mais carenciados. A dor dos outros entrava nas suas entranhas. Como compreendia o seu grande coração.
Sentia-se uma privilegiada por estar comigo e me ter encontrado. Adorava-me e considerava-me um mestre. As suas primeiras palavras foram que “o amor é uma ponte que permite passar do mundo visível para o invisível”. Disse-me que estas palavras mais não eram do que uma homenagem a um grande escritor brasileiro que com a sua pena e sabedoria lhe tinha tocado no fundo do “ coração”.
Respondi-lhe que é preciso termos confiança na capacidade que cada pessoa tem para se ensinar a si mesma.
Sandra encontrou o seu caminho. De tanto amar Yorhge – como sabia e podia – só podia receber confiança e segurança. A vida é feita de sonhos e ilusões. Passado pouco tempo casaram-se. Yorhge era um homem experiente e um pouco mais velho do que ela. Mas soube recompensar Sandra com paixão e amor.
A vida prega partidas. Yorhge era um homem ambicioso. Correu riscos e seguiu certos caminhos que lhe dariam no futuro tanta amargura.
O sonho diluía-se. Sentia que o amor caminhava para o abismo. A ganância de querer sempre mais e mais acabou com aquilo que sonhara. Ainda bem que não tivera filhos.
O seu futuro estava ameaçado.
Nos meus ombros, as suas lágrimas corriam, sentindo eu, que a amargura estava a entrar nas profundezas da sua alma. A minha alma sentia a dor da minha aluna. Estava a sofrer em mim aquilo que Sandra sentia. Éramos como duas almas gémeas, a dor de um, era a de outro
“Ajude-me a suportar aquilo que me consome” clamava! Como chorávamos os dois.
Eu semeei os meus sonhos no chão que agora pisas; pisa suavemente, porque estás a pisar os meus sonhos, disse-lhe.
Viajamos os dois para onde pudéssemos cheirar a maresia no mar e o gosto do sal na boca. Foi então que os seus olhos brilhantes sentiram um momento intenso. Atraída por outros olhos viu que as palavras de Francesco Alberoni correspondiam à verdade. Vacilou um momento mas o homem que estava na minha retaguarda era o amor da sua vida.
Vinda de Samora Correia encontrei-a em Lisboa nas proximidades de um grande centro comercial. Contou-me que tinha três filhos e viajava pelo mundo. “O mundo é como as estrelas, sempre em mutação” dizia-me ela. Afinal tinha aprendido alguma coisa comigo.
Acreditava na presença daquilo que sempre acreditou. A todo o momento pensava em mim. Recordava com nostalgia as noites que passávamos na sua casa.
Naquelas noites frias junto da lareira onde me pedia docemente “senta-te no sofá, porque só nele, com a companhia do calor das brasas, podes sentir o som das melodias que as cordas do meu violino tanto sensibilizam o teu coração. Para ti mestre, que tanto adoro, dedico-te as memórias do tempo”.
Como ela sabia executar “Lara’s Theme”. Tinha o “ dom” de me sensibilizar. Sabia o sentir do meu coração e aproveitava todas as oportunidades da vida para que estas demorassem muito tempo a voltar. Por tudo que lhe ensinei e pelo que fiz por ela, com os olhos fixos em mim, as suas lágrimas corriam pela sua face, cuja pele já demonstrava que o passar dos anos deixam as suas marcas. Mas a sua beleza feminina interior continuava sendo a mesma.
Mestre, como me chamava Sandra, dou-lhe como presente, ser o mestre de Petrus – seu filho predilecto, pela sua gratidão e pelo facto de existir como ter vindo ao meu encontro e ter esperado tanto tempo por ele.
Leve-me consigo – disse ela. Ensine-me a caminhar pelo seu mundo. Viajámos os dois no tempo, no espaço. Sandra viu campos floridos e cidades que flutuavam em nuvens de luz. No campo de trigo, ela compreendeu que os símbolos sagrados estão num dos Pólos da Terra. Precisamos de encontrar o nosso caminho mas sem nunca termos medo de o atravessar.

Sandra, Minha amiga!...

Lembrar-me-ei de ti a vida inteira, e tu lembrar-te-ás de mim, como das coisas que teremos sempre porque não podemos possui-las.
É preciso ajudar a construir, é preciso ensinar as pessoas a ensinarem-se a si mesmas. É pena que não seja da tua idade. Teríamos sido um grande casal. Não me esqueças nunca!

Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

As saudades de Mariana



Por: António Centeio

A vida prega-nos partidas. A nossa mente faz-nos lembrar coisas passadas e decorridas ao longo do nosso percurso da vida.
Quando era menino aprendi que apenas queria como amigo o amor. Assim fui e vou vivendo mesmo sabendo que tudo não passa de uma ilusão. Previ sempre as necessidades antes de se manifestarem. Nasci assim que hei-de fazer?
Olho para as pessoas e sei logo quem são e o que querem. Certas vezes até pensam que vivi com elas numa qualquer vida passada. Começamos a falar e rapidamente concluo que a nossa linguagem é igual para pouco tempo depois saber que somos do mesmo mundo porque as nossas palavras e pensamentos são comuns. Tenho a capacidade de ficar logo amigo de quem ainda mal me conhece. Mas as partidas da vida são uma armadilha. Cria-se entre nós um elo que jamais nos separará.
Foi num casual encontro que nos conhecemos. Olhamos um para o outro e os nossos olhos falaram por nós. Quando lhe falei pela primeira vez disse-me que se chamava Mariana para logo de seguida acrescentar que a «origem do nome» provinha de «uma palavra hebraica» com junção de duas palavras. Acreditei nela. Curioso como sou, fui descobrir que correspondia à verdade. Não bem como se prenuncia e escreve mas parecido porque o hebraico é algo difícil de interpretar. Adiantou-me também que o nome era «uma homenagem à sua avó, nascida a criada no meio do Atlântico». Uma avó que lhe deixou «lembranças de uma boa companheira e amiga de infância».
Mariana fala pelos cotovelos. Ainda hoje julga que todas as pessoas conspiram contra ela. Quando casada, todos eram seus amigos mas com dois casamentos falhados no seu curriculum os casais não querem a sua companhia. Dizem – as mulheres – que «é meio caminho para roubar a pessoa amada».
A sua formação superior fez com que bem cedo soubesse dar valor o que é criar um filho e dar-lhe um curso sem a presença do pai ou do seu substituto. Poeta que é, sabe dar valor às palavras e o que delas se pode obter. Sente nestas a subtileza mas que nem todas as pessoas compreendem.
Quis o destino separar-nos por alguns anos. Quando nos reencontramos foi como o nascer de um filho. Fizemos logo uma promessa junto da estátua do “Navegador”. Entre nós dois «nada poderá haver fisicamente, mas apenas confidências, segredos, amizade e uma grande cumplicidade. Nada mais do que isto» para depois logo acrescentarmos «nunca se deve ceder às nossas fraquezas ou outros desejos».
Mariana é uma mulher linda e sensual. A sua vincada personalidade seduz qualquer mortal. A sua maneira de olhar para quem olha para os seus olhos verdes é a sua arma de serpentear os pensamentos incertos na mente dos homens. Seus cabelos compridos e sedosos são a sua maior riqueza.
O Céu estava carregado de nuvens escuras. O horizonte fazia com que as nossas almas ficassem melancólicas. Sentíamos uma força interior que remexia nos nossos corpos. Falamos do nosso passado e da filha que teve, fruto de alguém que fez parte da sua vida mas que não foi nem é a sua vida. «O melhor que fazemos é não voltar a cruzar os olhos com o dos nossos amores perdidos. Especialmente com aqueles que nunca o foram e não passaram de um belo sonho que um dia acalentámos no fundo do nosso ser». As lágrimas correram-lhe pela face. «Se hoje fosse viva seria uma linda mulher!». Senti nas suas palavras a dor que sente quando se lembra da sua “filhota”. Sei a mágoa que tem nas suas profundezas pela perda. Era o elo que a ligava à vida.
Depois do testemunho prestado junto do símbolo a nossa conversa parecia interminável para ao mesmo tempo sentirmos uma atracção sem explicação. De tal maneira que passadas algumas horas, os nossos corpos envolveram-se na transparência da areia enrolando-se um no noutro para acabarmos descendo até à água do Oceano encobertos pela força do amor com o testemunho do nascer do Sol.
Quando o Sol nasce e estamos junto do mar tudo é infinito. Só nesta altura compreendemos os mistérios da grandeza que a natureza nos esconde. São estes encontros sublimes na junção de dois corpos que fazem com que a vida tenha outro significado.
Claro que aquilo que prometemos um ao outro acabou por ser impossível mas o contrário faz com que a vida não faça sentido. O mundo é composto de fragmentos místicos devendo nós apanhá-los para que possamos compreender o seu significado. «Houve em tempos um fazedor de marionetas. A sua casa era um museu de obras-primas. Todas feitas com paixão e amor. Os anos passaram e a sua casa estava cheia destes pequenos bonecos.
Só, certo dia adoeceu. Não tinha ninguém que o ajudasse. Quando a escuridão entrou nas suas paredes cheias de recordações foram as marionetas que o encaminharam para a longa viagem porque só ele lhes soube dar o tal amor e vida. Só ele compreendia e sabia que as árvores também têm vida. Eram a Alma do mundo» dizia-me muitas vezes Mariana para que pudesse compreender a razão das coisas e os seus sentidos. «O mundo é composto de fragmentos místicos devendo nós apanharmos estes para que possamos compreender os seus significados».
No bater das ondas e na espuma vinda das suas profundezas falávamos muito sobre o mistério da vida e da ingratidão das pessoas. Mariana com a formação que tinha e um quoficiente de inteligência acima da média sentia-se ressentida com certas atitudes do ser humano. Fazia com que eu compreendesse o âmago das raízes para melhor puder compreender a razão das coisas. Só eu a sabia compreender. Estava-me grata por isso.
Um dia viria a saber que a gratidão também tem o seu preço. Os seus problemas passaram a fazer parte da minha vida recebendo em troca os meus. A amizade aprofundou-se ao ponto de já não haver segredos entre ambos.
Nas longas caminhadas que fazíamos pela grande avenida deleitando a essência do mar ou nos dias quentes em que à noite passeávamos pelo grande jardim frontal ao “Centro Cultural” com a companhia de “Alex” o poder do mar e o brilho da bola do Céu aconchegava o nosso interior.
Outras vezes escondíamo-nos do mundo juntinhos ao mar. Logo que as estrela apareciam ficávamos ouvindo o rebentar das ondas para ver ao mesmo tempo o mar roubar a areia que horas antes tinha sido calcorreada por estranhos. Enrolada a mim dizia-me junto do ouvido: «quando uma coisa nos magôa em pequeninos ficamos muito sensíveis às atitudes e criticas dos outros. Sofro muito! Não me desampares porque só tu me sabes compreender». Sentia a sua fragilidade. Era como fosse um bibelô. Encolhia-se nos meus braços para que protegesse.
Quantas noites não adormecemos na praia para acordarmos quando o Sol começava a radiar tudo ao nosso redor com o cantar das gaivotas que voavam para onde estava o seu alimento. Erguíamos os nossos corpos para de seguida só pararmos numa padaria junto do mercado onde a frescura do pão satisfazia a nossa saciedade.
Hoje temos medo que tudo acabe de repente porque o relógio pode parar. Sentimos mais do que nunca que caminhamos juntos para a meta final. Temos a certeza que os nossos corpos jamais terão a força de nossa juventude levando com que saibamos aproveitar todos os momentos que a vida nos oferece para quando os nossos corpos se separarem, as nossas almas se possam enlaçar como as rosas que lhe ofereço quando sei estar triste e as saudades do passado a atormentam.

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Sábado, 1 de Novembro de 2008

A Rua dos Ferreiros


Por: António Centeio

A Rua dos Ferreiros situa-se num pequeno lugarejo assente no sopé de uma das serras beirenses. Comprida mas sinuosa a seu meio tem a igreja da santa padroeira como junto desta tem o conhecido “Ponto de Encontro”.
Chamada de Rua dos Ferreiros porque, segundo as pessoas mais antigas foi a única artéria da localidade a ter meia dúzia de oficinas de ferreiros já que na mesma se localizavam imensas casas agrícolas possuidoras de imensas carroças.
Do lado Sul, um imenso e bem tratado jardim rodeado de um longo muro com cerca de um metro de altura acrescentado em cinquenta centímetros por um gradeamento todo enlaçado por barras de ferro trabalhadas com duas letras “JC” que mais não significavam de que “Jardim do Carril”. Um trabalho de mestre que impressiona os mais curiosos pela perfeição dos encaixes das duas letras. No seu interior, imensas acácias que dão sombra aos bancos feitos de delgados barrotes e pintados de vermelho.
Ao centro, um coreto que nas tardes de Verão dá poiso à velha filarmónica da terra tocando melodias da época. Do lado direito, o muro têm um emaranhado de arames que segura o roseiral obrigando o jardineiro a andar sempre atento porque os rapazes gostam de roubar algumas rosas para oferecer às raparigas. As rosas são as flores preferidas do velho homem que apoiado de uma muleta descasca naqueles que consegue atingir mesmo que de rasto leve a perna que manca. Nas suas flores é que ninguém pode mexer.
A Norte, um parque de diversão para a criançada. Constituída por dois baloiços, um escorrega, meias dúzia de cavalinhos que rodam com a força dos petizes, seguros a uma artimanha central que serve de equilíbrio e um vaivém que sobe ou desce conforme a habilidade de quem o utiliza.
Entre o parque e o coreto, uma pequeno lago tendo no meio um pequeno repuxo cercado por pedras cheias de lodo que tapa os buracos do xisto. Dentro de água, alguns peixes avermelhados que são o encanto dos miúdos. Sempre que estes mandam alguma coisa para a água vêm logo de seguida para se juntarem em V procurando aquilo que precisam para se alimentar.
No interior de jardim, em forma de triângulos, costeia as acácias, canteiros com as mais variadas qualidades de flores. Locais, onde nas noites quentes os namorados gostam de se esconder porque os poucos candeeiros existentes teimam fazer a noite mais escura do que é.
Rodeia, a única rua de alcatrão, compridos passeios todos de calçada a portuguesa trabalhados com o brasão carrilense. Tanto do lado esquerdo como do direito, um longo casario com casas baixas quase todas caiadas com cal branca, tendo a meio da parede dois ou mais pendurais que servem para segurar pequenos vasos com flores. Nelas moram trabalhadores modestos mas orgulhosos do seu património.
Todas têm, um pequeno quintal onde predomina, batatais, plantações de feijão – verde, alfaces, tomateiros e outros produtos. Rara a casa que a um dos cantos do quintal não tenha uma pocilga ou um galinheiro.
Alguns, poucos, têm a casa frontal com a rua pronta a habitar mas não a usam porque no quintal existe um pequeno barracão onde dormem e fazem a vida diária. Como “casa de banho” um pequeno buraco cavado no fundo do quintal vedado com velhas tábuas onde fazem as necessidades e a que chamam de “retrete do fundo”.
Se a pequena fossa, chamada também de séptica estiver cheia tapam-na com terra para ao lado fazerem outra. A da frente é apenas utilizada nos dias de festa ou quando haja visitas. Querem assim mostrar que possuem a casa em melhor estado que os vizinhos. Uma das poucas vaidades permitidas a quem conseguiu com algum sacrifício o que a maioria deseja.
A meio da Rua dos Ferreiros destacam-se algumas mansões que mais não são do que as casas dos senhores. Demarcam-se pela sua grandeza como pelos seus jardins frontais fazendo com que cada senhor tenha o seu jardineiro privado para que os espaços envolventes sejam maior e mais apresentável. Os aromas vindo das imensas flores fazem com quem junto delas passe tenha que parar para inalar os perfumes. Uma destas mansões é a dos Vianas.
Obrigatória, é a passagem na Rua dos Ferreiros da “Procissão das Velas”. O único último dia do sexto mês é aquele em que as frontarias das casas, seja do mais singelo dono ou do mais ilustre senhor, devem estar engalanadas com as melhores colchas e candelabros com velas acesas.
No meio da rua, pétalas de rosa, rosmaninho e alecrim servem de tapete à passagem do “andor”. Os olhos dos fiéis voltam-se para as colchas de seda que os senhores têm pendurado nas janelas e varandas dos seus aposentos.
É o momento em que a grandeza e a pobreza ou a vaidade e a simplicidade estão lado a lado. Todos querem mostrar o seu melhor. Ainda bem que a imagem assente e exposta no “andor” não liga a estas contradições caso contrário ainda descia de onde está para começar à paulada a quem não segue os princípios daquilo que aprendem na casa de culto que frequentam.
Foi nesta artéria que Amélia num dia de procissão conheceu Fulgêncio. Um homem que a encantou para pouco tempo depois se tornar seu esposo prometendo-lhe de frente à imagem do andor mas no interior da igreja que a faria feliz para «o resto da vida».
Prometeu-lhe sim mas não lhe deu. Ofereceu-lhe foi valentes cargas de porrada. Raro o mês que não arranjava maneira para a ir visitar ao hospital de tanto negrão ter no seu frágil corpo.
Estiveram casados durante cinco anos para se separarem de comum acordo após ele a ter ludibriado com boas conversas para além de muitas estaladas. O tempo suficiente para que o homem conseguisse registar em nome de uma outra «pessoa de bem e de confiança» todos os valores móveis e imóveis pertença da esposa. Não bastasse, até as poucas poupanças desapareceram acabando a infeliz a levar um ralhete da juíza por não ter «dinheiro para pagar as custas» quando «ele é que tratou de tudo».
Hoje, Amélia vagueia nas horas mais quentes do dia pelas ruas da localidade pedindo a este ou àquele que lhe dê algum «porque ainda não tomou o mata-bicho». Aos de igual ao marido, ou piores, aluga o corpo a troco de notas de baixo valor. As noites são encharcadas em grogues pagos pela escumalha que se aproveita da sua fraqueza.
Tempos passaram quando a sua beleza era admirada por aqueles que viam nela a imagem da «santa do andor» tal era a sua boniteza.

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Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Quando a Lua cresce



Por: António Centeio

Não era de uma inteligência por ai além mas minimamente esperto para compreender a razão como outras pessoas conseguiam enxergar com rapidez aquilo que ele não entendia no momento. Mas bem cedo descobriu que se realizasse aquilo que a natureza lhe deu mais tarde ou mais cedo concretizaria o que sempre sonhou.
Sabia encontrar uma perfeição diferente em cada homem que conhecia na busca incessante e em especial nas suas qualidade. Sabia decifrar as mensagens que se escondem nas palavras mesmo que aparentemente possa parecer não existirem. Das poucas pessoas que compreendiam de uma maneira sublime o que as entrelinhas sabem esconder dos menos atentos. Sempre soube que à medida que a lua cresce e aumenta a luz as coisas vão-se modificando para nunca mais nada ser igual. Muitas vezes a vida reserva-nos surpresas extraordinárias. Pensamos ir por um lado e ela, com movimentos imperceptíveis, leva-nos para outro
Às vezes pela sua forma de expressão ou atitudes identificava-se perante os outros demonstrando bem cedo o que queria e o que era preciso para atingir os seus sonhos. Sabia como a sociedade é injusta e hipócrita. «As pessoas são julgadas não pelo que são mas pelo que parecem». Sabia também que as águas voltarão ao seu leito.
Quando concorreu à desocupação de um emprego adequado ao seu perfil no seu horizonte estava uma longa pirâmide mas com um pouco de força de vontade e persistência chegaria ao topo.
Depois de admitido foi vendo como funcionava todo o sistema. Facilmente concluiu afinal não era tão difícil como imaginava. Iniciado o percurso mais depressa do que tinha julgado quando deu por isso já se encontrava na cidade do Mondego onde a nostalgia na hora da despedida tem outro encanto. Não foi fácil. Sempre soube que nada é impossível mas que o difícil leva um pouco mais de tempo. Aos poucos, mesmo depois de habituado às noites de Coimbra conseguiu aquilo que sempre sonhara.
Nunca lhe tinha passado pela cabeça que algo de importante o esperava. As suas aptidões, os conhecimentos adquiridos e as elevadas notas obtidas não passariam despercebidas àqueles que na retaguarda vão vendo os mais ou menos habilidosos para quando tudo acabar sejam os primeiros a serem chamados. Consegui também descobrir que ainda podia ir mais longe porquanto ao desenvolver por motivos de estudo a inteligência e o uso de toda a energia vinda do seu interior acabou por lhes juntar a inteligência – julgada por ele apenas existente nos outros.
Sabido que estas duas vertentes são os sustentáculos necessários para chegarmos onde quisermos hoje é um grande investidor financeiro.
Porque a sorte nunca deixa de proteger os audazes, a vida sorriu-lhe com uma companheira que fez com que tudo se duplicasse na firmeza inequívoca. Talvez aquela «bênção» para quem se esforça acabe mais tarde ou mais cedo de ajudar os merecedores.
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Ajudar os outros


Por: António Centeio
Se as pessoas não são capazes de ter força suficiente para aguentar a passagem da tempestade como poderão valorizar as mudanças interiores que tantas vezes são necessárias para o que desejam tenha outro significado? Foi isto que sempre faltou a Mariana fazendo com que a sua vida como os seus sonhos por pouco não se concretizassem.
A vida bem cedo lhe abriu as portas a toda a espécie de contrariedades que só acontecem a quem não sabe que a vida -como as ondas do mar – tanto sobe como desce.
Passou a ter como companhia os dissabores do infortúnio para exclamar constantemente que a “
vida nada de bom
” lhe tem dado. O caminho da sua desalinhada e pobre personalidade como do ambiente em que foi criada contribuiu para que quase tudo viesse ter com ela.
Quando já se encontrava à muito no «fundo da vala» foi quando viu o brilho de uma estrela que no Céu iluminava quem mais parecia um farrapo que um ser humano. Sentiu no seu interior que «lá de cima» qualquer coisa lhe iria acontecer – para o bem ou para o mal.
Para quem teve como companheira habitual a aspereza da vida é difícil acreditar nos sinais que muitas vezes se escondem por detrás de uma estrela. A sua voz interior disse-lhe «
o que sentiste foi algo que nem todos podem ver ou aceitar como uma verdade».
Foi quando se lembrou que tinha sido uma estrela que encaminhou os reis magos no caminho para Belém.
A sua alma sorriu enquanto seu corpo se arrepiava. Pela primeira vez na sua vida – cheia de mazelas – sentiu como teve a noção que tinha ouvido algo que até à data julgava não ser possível a não ser que
«fosse mais uma partida do destino».
Se até sentiu um arrepio porque não acreditar? Lembrou-se: «antes da tempestade o Vento costuma avisar as pessoas para se recolherem».
Cinquenta anos. Como companhia o contrário daquilo que sempre sonhou. Ter uma aranha ou um ratazão como companhia para ela era coisas mais que suficientes para voltar as costas de vergonha a quem de igual julgava ser.
Nas manhãs frias em que até o Sol parecia nada querer com ela ou de tão pouco lhe fazer companhia sentava-se em cima da verdura que lhe servia de lençol olhando para o vale que na sua frente convivia de espanto com a natureza. Esta combinação era o contraste do que sentia – dentro nas suas profundezas de ser humano que era – mexendo na sua dor e recordando-lhe as agruras da vida que eram as suas melhores companhias. Quando a bola de fogo descia a sua alma falava-lhe para lhe dizer que estava triste e que devia plantar frutos na terra para que conseguisse mudar as coisas.
Muitas vezes quando olhava para a estrada que ficava tão distante mas ao mesmo tempo tão perto costumava ver as pessoas vestidas de negro ou de cinzento acompanhando o carro que no seu interior levava algo rodeado de flores.
Nestes momentos olhava singelamente para o horizonte e pensava: «
às vezes o mundo troca as voltas às pessoas ou ….. as pessoas não sabem trocar as voltas ao mundo
».
Até os passarinhos olhavam para ela e viam os seus olhos turvos e a fronte enrugada com marcas profundas de sofrimento pensando ao mesmo tempo que a continuar assim, um dia a sua alma iria depenar no desconhecido para depois ficarem sem a companhia de quem já sabia e conhecia o significado dos seus chilreares.
Às vezes temos as coisas na nossa frente e não as vemos. São nestes momentos de descuido que a vida nos passa ao lado. Se as vermos então encontraremos o nosso caminho que nos levará à busca da razão de viver. É este o sublime momento de sabermos suportar a passagem da tempestade.
Mariana sabia que o «brilho» lhe queria dizer qualquer coisa. «
Que quererá o brilho dizer, que tormento me espera depois de viver constantemente no meio da turbulência?»
perguntava a si própria.
“Oh mortalidade porque não me buscas? Chamo-te para junto de mim e nunca ouves as minhas palavras. Deixa-me ir para junto de ti. Lembra-te de mim!” eram
as palavras que costumava gritar quando a raiva explodia dentro do seu ser.
Despedaçada interiormente pelo que era, sabia que o seu futuro continuava ameaçado. Foi quando no silêncio do vale e no barulho do silêncio ouviu
uma voz dizendo-lhe «Inicia agora o teu percurso porque a noite é apenas uma parte do dia e acredita na tua fé porque estiveste mergulhada tempo demais na escuridão. Ergue a tua cabeça e não desprezes a tua personalidade. Sê tu mesmo! Nunca mais deixes de ouvir a tua voz interior e conhece os sinais que a vida te vai dar para nunca mais dizeres que nunca os vistes».
Com o que ouviu e com a confiança que ganhou em si própria mergulhou na noite escura atravessando a floresta que a separava da estrada.
Mariana soube construir ao longo do tempo um
mundo muito especial
para aqueles a quem a vida nunca tinha sorrido. «O mundo está sempre em mutação» dizia.
Soube construir estruturas para que aos mais desfavorecidos nada falte como soube ensinar as pessoas a ajudarem-se a si mesmas. Mandou plantar campos floridos e campos de trigo para que nas noites de luar possa ver na obra que fez e na companhia dos que mais precisam «
os sinais que costumam estar no brilho das estrelas».
Para ti Mariana que hoje és uma grande mulher e que estás ao lado dos mais desfavorecidos escrevi estas palavras. Dei-te o privilégio de as leres antes de serem publicadas. Teus olhos não ficaram turvos como quando os passarinhos olhavam para ti mas senti a tua alma sorrir. Mais não são do que um singelo resumo da tua vida passada.
O teu presente ao “
mundo dou a conhecer”. Quanto ao futuro como tu gostas de dizer «logo se verá
».
Mais tarde ou mais cedo havemo-nos de encontrar no «
caminho das estrelas
». Todos os dias te vejo porque estás na minha memória.
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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Contradições




Por: António Centeio

Alta, seca, bem proporcionada de carnação pálida, olhos negros penetrantes e vivos, boca bem desenhada e voluntariosa, nariz direito, cara não descarnada mas com um quê de ossudo, não é bela mas fascinante. Orgulhosa da sua descendência tem enraizado no seu interior os cultos e rituais que estão escondidos pelo segredo hermético das suas crenças. De sua avó herdou a inflexível tenacidade e uma personalidade límpida. Admiro nela a sua honestidade e uma inabalável coragem como a virtude. Gosta de desfraldar os seus troféus oriundos dos conhecimentos filosóficos. Contraditória como é, sabe que na lógica das palavras e dos livros encontra a sabedoria para quem se lhe oponha. Muitas vezes quase tem sempre razão usando a oratória como escudo protector. A eloquência é a sua maior capacidade para surpreender quem a escuta. Defensora das coisas ocultas apenas se sente bem com quem saiba partilhar das suas crenças. Adora a filosofia de onde obtém a fé necessária para acreditar em certas coisas como aprecia todos os gestos sentimentais
«Trazemos dentro de nós todo o universo. Se penetrarmos dentro de nós próprios talvez possamos entender o mistério da vida. Afinal todos temos uma espécie de inteligência adormecida. Se a despertarmos então o leito da vida dar-nos-á aquilo que procuramos. Tudo tem o seu próprio valor. Quando usamos apenas a nossa razão, podemos compreender todas as normas imutáveis, porque a razão humana é justamente algo eterno e animoso».
Está dado o «mote» para iniciarmos mais um debate. São assim os nossos encontros já que as mais belas experiências prometem os domínios do mistério.
Da amizade e intimidade que fomos criando ao longo do tempo fiquei a saber que o seu passado está recheado de segredos os quais fizeram com que o seu percurso tenha sido bem difícil mas nunca lhe tirando a sua grandeza de ser humano que é.
Seu pai foi um homem activo e empreendedor. Amigo de paródias e de mulheres fáceis foi gastando o deixado por herança de família. Uma boa casa voltada para o mar, terrenos a mais não ver. Uma fábrica de cortiça era a fonte de rendimento de toda a família, mas os encargos vindos desta eram superiores às receitas. Sua mãe sabia que mais tarde ou mais cedo algo iria surgir para o suporte da clã se fragilizar. Era impossível sustentar com os poucos rendimentos outras mulheres para além da própria e filha.
Quanto tudo acabou consumido pela doença e da vida dupla consagrada às horas perdidas, mais não lhe restou vender o pouco que sobrou para educar a sua filha. A mãe com a experiência da vida que tinha suplicou-lhe que tirasse um curso superior para que um dia nunca precisasse de ninguém e que pudesse ter a sua independência. O ensino recebido valeu-lhe para aquilo que é hoje.
A marca do passado como do ambiente em que viveu teve o embate esperado na sua alma fazendo com que nunca tivesse qualquer amparo mas sim sempre a sua independência. Com a companhia de uma solidão temporária, tempo foi coisa que nunca lhe faltou para acumular os conhecimentos obtidos que tão úteis lhe tem sido no presente, para na sua casa com os seus amigos deleitar-se com a essência dos mistérios do oculto e a magia secular. Embora projecte uma impressão exterior de frivolidade não é tão frívola como parece. É uma pensadora e muito inteligente nunca precisando de correr atrás da fama mas nunca se desviando dela. Nunca esqueceu nenhuma das lições que a vida lhe ensinou nem as lições que a história ensinou à humanidade.
Foi a sua luta e independência que fez com que hoje nunca desista daquilo que quer. É persistente como um caranguejo: se sacrifica uma pinça cresce-lhe outra nova, de modo a poder agarrar novamente com a mesma tenacidade a vida.

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Sábado, 30 de Agosto de 2008

Lassa princesa cigana de Panjane


Por: António Centeio

Lassa minha amiga cigana, tem um coração do «tamanho do mundo». É capaz de comprar quatro pares de sapatos para apenas usar um e dar os restantes a quem mais deles precisar. Os seus olhos «achinesados» e os seus longos e sedosos cabelos fazem dela uma linda mulher. Sabe como ninguém que o jasmim é a única substancia que faz do perfume uma das «maravilhas do mundo». Às vezes quando conversamos vejo as suas lágrimas a enrolarem-se no brilho dos seus olhos. Uma mulher cheia de contrastes.
Como princesa que é e cigana que se orgulha de ser contou-me que na «fé dos ciganos ainda continua a existir a lenda das lendas: «no passado tinham um rei, que guiava sabiamente o povo numa cidade maravilhosa da Índia chamada Sind. Ali o povo era muito feliz, até que hordas de muçulmanos expulsaram os ciganos, destruindo a sua cidade. Desde então foram obrigados a vaguear de uma nação para outra».
Gosta de caminhar sob as estrelas porque «se pode ler nelas o futuro e as estrelas possuem o filtro do amor para contarem coisas estranhas sobre os ciganos. Os ciganos sabem explicar as coisas nas quais crêem de uma forma muito singular».
A mistura de sangue que lhe corre nas veias: árabe, africano, cigano, indiano, europeu, fazem com que seja um «cocktail» completo. Mulher – criança, rebelde de espírito, doce de alma e imprevisível como uma animal selvagem..., assim é Lassa. Enigmática, um tanto misteriosa e até com uma certa dose de loucazinha, não deixa de ser gostosa.
Esta cigana adorava que o mundo fosse um navio para gostar de estar em cima do mastro para desfrutar de toda a visão do mar, da terra e do céu. Apegada demais à natureza gosta de sentir os seus pés pisarem terra firme, gosta de sentir as ondas batendo no seu corpo, adora respirar o ar puro das planícies, montanhas e vales, adora ainda mais estar longe da cidade e sentir de corpo e alma toda a beleza única e maravilhosa do campo e do mato.
Lassa, princesa cigana de Panjane – como lhe chamavam – nasceu próximo das longas matas onde a felicidade apertava os corações e onde diziam ter passado reis e rainhas. Uma terra que por muitos anos, no tempo dos descobridores europeus e dos primeiros comerciantes árabes, foi conhecida como a “Terra das Almas Perdidas” pelo zumbido arrepiante que a brisa vinda do rio faz, em sintonia com a poeira vermelha que se levantava.
A segunda de três irmãs, estudou sempre em colégios de freiras e sempre se lembra de andar pelas ruas e campos à vontade, a maior parte das vezes descalça, que era como gostava de andar, porque a harmonia singular que tudo tem com a natureza com o espírito, com a alma, com o próprio céu tão aberto e esplêndido lhe deu a sensação de que tudo é uma sintonia que emana das águas mornas e calmas do rio e da brisa leve e árida que sopra.
Panjane é uma cidade linda e calma onde todos se conhecem e onde com as irmãs, saía com uma espingarda de pressão de ar para andarem horas no «mato» à caça de pássaros que depois traziam para casa, não isentando que muitas vezes seus pais não tivessem que sair aflitos procurando-as com medo que lhes tivesse acontecido alguma coisa.
Numa vasta planície, próxima de um rio onde vivem juntos crocodilos e hipopótamos, foi o seu berço e o lugar onde nasceu para no quintal da sua casa passar os seus primeiros anos de infância.
É um lugar único onde erguem-se enormes serras e entre elas se estende um vale estreito onde o riozinho sereno corre, sempre manso. E por detrás destas serras, o sol nasce todos os dias para, mais tarde, dar a lugar a uma lua sempre tão vistosa e brilhante. Sobre o vale, meio solitário, os musgos verdes e as dunas de areia vermelha parecem sempre ter estado ali, tão forte é o seu domínio sobre o cenário completo
Sua mãe, mulher única e maravilhosa, ninguém é igual a ela: doce, forte, corajosa, decidida, com um coração enorme e uma alma que se poderia igualar a de uma santa; seu pai: foi um dos homens mais admiráveis que conheceu. Rebelde, aventureiro, frontal e bastante liberal mas ao mesmo tempo amoroso, justo e muito carinhoso.
Tudo o que hoje é deve ao que aprendeu com este homem que mais do que um pai foi um amigo, companheiro e professor da vida, que lhe deixou bem vincada descendência de cigana e europeia.
Da vida faz o lema “mais vale a lágrima da derrota do que vergonha de não ter lutado”. É uma mulher corajosa, porque só a água quente que salpica África lhe dá fulgor para continuar a lutar pelo que acredita para que todos juntos possam viver essa sintonia viciosa da junção da vida com a natureza.
Lassa é uma mulher que nasceu e cresceu com a liberdade dentro dela e talvez por isso seja como um passarinho sem gaiola que voa a qualquer momento.
Quer morrer na sua África que a viu nascer mesmo sabendo que a vida pode acabar de um momento para o outro como a tempestade que não avisa quando vem, mas não quer morrer enquanto viverem os seus sonhos.
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verde

Sábado, 23 de Agosto de 2008

O Equinócio


Por: António Centeio

O mar sempre me seduziu mas a sua grandeza e o seu poder infinito atemoriza-me. Sentado na areia olho o horizonte para ver o encontro do mar com o céu. Às vezes apetece-me dominá-lo, mas depois: penso que posso ser dominado por ele. Neste momento descubro a minha pequenez perante a grandeza da natureza.
Em Setembro os dias são mais pequenos e o sol está mais alto. Pouco me importa. Só o nono mês dá a magia de assistir ao Equinócio. O deslumbramento de poder ver a elevação das ondas são momentos sublimes e inesquecíveis. Com o vento a soprar do mar até as gaivotas com os seus gritos parecem assustar-se com a força do vento e do bater das ondas.
Sentado numa pequena rocha olho para o mar. Sem querer sonho com o encantamento do oceano. O bater das ondas e a espuma que branqueia todo o areal diminui-me como ser humano. Só esta época de marés – vivas dá os momentos de ilusão que preciso para poder viver. Sinto a minha alma ser trespassada por uma brisa marítima que de tanto a água bater nos rochedos se transforma em nuvens acabando por me enrolar na imensidão da sua orla.
Então nas suas profundezas tento descobrir onde se junta o mar e o céu. Embrenhado que estou vejo que o dia acabou. Em vez de continuar a ver o céu, a lua vem ao meu encontro. Como é maravilhoso o crepúsculo num dia de equinócio. A leveza da força do vento faz-me ouvir o interlúdio do bater das conchas perdidas para de seguida me trazer a maciez das algas marinhas vindas das brumas do mar. O adeus do Sol e o encanto da Lua desperta-me a alma deixando-me triste para recordar que um dia tudo terá um fim.
Depois, na mutação da vida tudo voltará a nascer. No regresso ao cais com o brilho da Lua relembro-me que no dia seguinte algo de novo vai nascer. Lá longe, no horizonte, algo como a cor das chamas vai surgindo aos poucos para depois se transformar numa grande «bola» iluminando quem da faina regressa. As gaivotas alegram-se pelo reencontro dando os bons dias a quem lhes traz aquilo que a força do Equinócio lhes tirou momentaneamente. Pena ser por pouco tempo porque nesta noite até as estrelas sorriem.
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Sábado, 16 de Agosto de 2008

Fabiana encontrou o filho que desejava


Por: António Centeio

Fabiana sempre foi uma mulher determinada. Nunca deixou de acreditar que não morreria enquanto os seus sonhos vivessem como sempre soube que um dia quando estivesse próxima de ser mãe estaria preparada na hora do parto para receber o maior privilégio que a vida dá às mulheres mesmo que nesse sublime momento a vida e a morte estejam sempre juntas.
Nunca teve medo de enfrentar os desafios que a vida coloca na frente das pessoas sejam ou não uma prova e um desafio ao ser humano para mostrar se é ou não capaz de contornar os obstáculos.
Fabiana nunca teve medo de nada. Sempre teve uma coragem que até ela própria se admirava. Não tivesse sido criada nos confins do mundo e no cume de uma serra onde o frio seco entra nas entranhas que até quase gela o coração. Às vezes o Vento assustava-a para que não dormisse demais e estivesse sempre desperta.
A dor e a amargura fizeram-lhe sempre companhia, levando-a com que muitas vezes debaixo do banco em que se sentava as suas lágrimas corressem numa direcção que nem ela própria sabia onde terminava. As lágrimas são algo que ninguém pode roubar.
De tanto ir à cidade onde a aragem era sempre seca e fria ficou a saber que entre Norte e Sul havia em determinada altura das estações que a terra una que faz parte do seu mundo está cheia de contrastes. Prometeu a si mesma, logo que possível, mais dia menos dia desceria até encontrar um local onde pudesse completar os ciclos da vida.
Parou nas proximidades do Tejo já que as recomendações indicavam ser aqui o seu “porto seguro” como sentiu sinais de encontrar encontraria alguém que a ampararia enquanto não conhecesse a terra que iria pisar tantas vezes no futuro.
Mal entrou na localidade viu no alto o Castelo do burgo. Seria a primeira coisa que queria conhecer quando visitasse a cidade. Assim foi.
Quando o percorreu – talvez um sinal do destino – encontrou aquele que viria a ser a sua alma gémea, não sabendo ambos no “momento de encontro” que iriam trabalhar no mesmo local como ser colegas de profissão – ironias do desconhecido.
Da grande amizade nasceu um grande amor que durante alguns anos fez com que se conhecessem profundamente para depois de realizado o acto solene desejassem o maior sonho de Fabiana: ser MÃE.
Começou aqui um dos ciclos mais difíceis da sua vida. Por mais tentativas que fizesse não conseguia engravidar como nunca conseguiu descobrir as causas de tal infortúnio. «Esterilidade» alguém lhe disse. Desistiu, como também seu marido, que um dia lhe prometeu meia dúzia de filhos para todos juntos à mesa galhofarem e serem “todo um só”. A família estava acima de tudo.
No interior de sua casa, algures num dos muitos caminhos que levam outros caminhos às “Lapas” tudo era dor e amargura. Nas noites frias mas húmidas, sentados os dois depois de um dia de labuta o silêncio imperava. Até as suas gargantas se tornavam secas de tão pouco falarem para apenas ouvirem o uivar do Vento forte das noites geladas.
Levavam horas e horas os dois sentados em dois singelos bancos de madeira mexendo com uma atenaza as brasas da sua lareira que iluminavam a chaminé. Apenas falavam em pensamento ouvindo os estalidos da madeira que faiscava ao despregar-se as lascas ou abraçavam-se em silêncio para quando os corações chorassem as lágrimas caíssem nos seus ombros.
Tantas e tantas vezes que o gélido tempo não os deixava sair junto das chamas para que as suas refeições fossem apenas pobres fatias de pão banhadas com um fininho fio de azeite que uma pobre alma sua vizinha, mais apoquentada pela dor que a necessidade dos dois, lhes oferecia quando ia ao “lagar de azeite”. Para além do azeite que dava sussurrava aos ouvidos de quem precisava pelo que aprendeu com o passar dos anos «não
devemos morrer sem vivermos os nossos sonhos».
Não que vivessem miseravelmente mas aquela dor de não poder amar algo vindo das suas entranhas sufocava-a interiormente. A comida enrolava-se e fazia um nó na garganta. Só o azeite fazia escorregar o pão amargo de tão dorido ser como a dor que tinha dentro dela.
Quantas vezes não sentiam a cair nos seus dobrados joelhos, lágrimas dolorosa por estarem a pensar a mesma coisa sem dizerem um ao outro aquilo em que pensavam? Quantas vezes não olhavam para a longa e alta parede da chaminé pintada de branco com uma barra amarela para verem o berço que lá estava pendurado esperando que alguém no seu interior se deitasse?
Nas noites de luar, às vezes vinham, sem saber como, abeirarem-se da pequenina janela voltada para o pátio olhando para a laranjeira que lá estava. Até parecia que tinha sido plantada de propósito há muitos anos com troncos fortes e arqueados esperando por duas grossas e seguras cordas para servir de baloiço a alguém levezinho como uma arvela.
Por baixo da mesma um pequeno rebaixamento redondo fazia a terra escura com uma maciez que a tornava balofa. Se alguém caísse em cima dela não se magoasse mas talvez se sujasse.
Os dois só davam sinal de vida quando umas agoirentas corujas vindas das catacumbas das “Lapas” sobrevoavam o telhado a caminho do cemitério e num cantar medonho e arrepiante os fazia encolher quando ecoavam sons aziagos. A noite ficava adormecida nas profundezas do silêncio porque tal ave, diziam os mais antigos, simbolizava o mal, a desgraça ou o caminho que ligava à morte.
Bendita a manhã de uma terça-feira em que foi ao mercado semanal. Na sua frente caminhava uma pobre mãe que mais parecia uma galinha com a sua ninhada de pintainhos. Toda desfraldada com uns cabelos que desconheciam o pente, sete pequeninos filhos descalços magros e escanzelados seguiam o seu encalçe para ouvirem continuamente da sua protectora pragas amaldiçoadas mais parecendo que lhe tinham pedido para vir a este mundo.
«Enquanto eu tanto desejo uma criança esta pobre mãe tem-nos demais. Não há justiça neste mundo» pensava Fabiana para logo ouvir de seguida da fria mãe: «não haverá neste mundo ninguém que queira tomar conta de vocês?»
Para quem sempre acreditou que nunca morreria enquanto os seus sonhos vivessem, um sonho dos seus sonhos realizou-se. Foi tudo apenas uma questão de tempo para a adopção.
Hoje, uma das crianças é a razão da felicidade do casal que em tempos até pensava que a humidade que corria pela parede da chaminé por causa do calor do lume eram lágrimas de alguém que lá em cima chorava por ver tanta tristeza.
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Sábado, 9 de Agosto de 2008

Leilla, uma estrela no deserto


Por: António Centeio

Tinha uns olhos pretos como uma azeitona que assentes num branco límpido faziam lembrar o branco do casario nos montes nas planícies alentejanas. Apenas o seu olhar mostrava estar sempre numa agitação de tristeza. A sua pele com uma cor a puxar para o cálido do deserto e o seu cabelo escuro fazia com que fosse uma criança bonita.
Com uma doença esquisita desde a sua nascença, levava já nos seus dez anos muitos dias passados no parapeito da janela do seu segundo andar ora vendo quem passava ora vendo outras crianças brincando no recreio de uma escola frontal à sua casa que fazia extrema com a rua movimentada. Tão movimentada que: carros, bicicletas, animais e outros meios de transportes puxados pelo homem, a poeira do ar – por causa do movimento e das confusões – fazia da comprida artéria uma babilónia de coisas que tanto alegrava quem não podia nela circular ou brincar.
Depois a elevada temperatura, as vozes misturadas que mais pareciam uma orquestra desafinada, as buzinadelas estonteantes dos carros e a gritaria das crianças faziam deste lugar um sítio encantador alheando as crianças dos perigos que as cercavam.
Às vezes até o menino do golfinho por andar sempre com o desenho do mamífero estampado na camisola, passeava ao ombro o seu saguim dando estes guinchos delirantes. Costumava arreganhar os seus pequenos dentes, brancos como os icebergues, para assustar quem distraídamente circulava. O menino do golfinho tinha uma missão: passar de vez enquanto por baixo da janela de Leilla. Depois assobiava num som agudo, para quem estava em cima, ouvisse e visse que nos seus ombros ia aquilo, que numa troca de olhares, fazia macaquices de propósito para quem não podia brincar.
Eram estes curtos e mágicos momentos que os dois pequenos seres sabiam ser exclusivo de ambos. O dono do macaco nunca soube dos motivos da “criança não brincar com o seu bicho”. A única coisa que sabia era que a amiga do seu bicharoco tinha «
uns olhos lindos como as estrelas do deserto».
Por não poder andar e ser como as outras crianças ouvia e via coisas que os adultos não viam ou fingiam não ver. Pela altura e posição que tinha a seu favor estava todos os dias numa situação de privilegiada. Às vezes sua mãe, para não a contrariar, fazia-lhe quase todas as vontades. Uma delas era dar-lhe o almoço na boca mesmo que muitas vezes não soubesse o que estava a comer, tal era a sua curiosidade para ver as brincadeiras das outras crianças. Os seus olhos estavam sempre voltados para quem brincava.
De tão pequena ser sua boca nunca se abria para qualquer lamento. Sofria interiormente mas evitava que sua mãe se apercebesse. Já a tinha visto muitas vezes chorar e ouvir palavras confusas, ditas num turbilhão de frases sem nexo, mas compreendendo que a sua doce e protectora sofria por nada poder fazer.
A mãe olhava-a bem nos olhos e via que as suas azeitonas brilhavam num choro cujas lágrimas nunca escorriam pela face mas enrolavam-se naquilo que um dia a sombra da terra taparia para sempre.
O desgosto de ambas era morarem num bairro daqueles, onde as disputas da lei do mais forte eram as coisas mais normais deste mundo, fazendo com que muitas vezes a desordem se instalasse na zona e onde nem a policia mostrava vontade de ir, não pelos residentes mas pelos negócios escuros que lá se faziam aos olhos do dia não havendo interferência de ninguém, excepto daqueles que viviam dos rendimentos dos produtos que vendiam. Um desassossego que importunava quem lá morava como amedrontava quem visse e falasse.
Muitas vezes as raimonas da bófia como lhes chamavam os traficantes do bairro, visitavam as ruelas mais escuras mas sempre vigiadas por quem encostado às velhas e sujas paredes fingia nada ver ou perceber para servirem de pombo-correio a quem percebia dos sinais que se perdiam nas noites.
Todos sabiam no mundo em que viviam mas todos tinham feita a promessa «nada saber para os estranhos» de modo a que o silêncio por não ser comprado era ameaçado. «Um inferno este bairro. Se tivesse dinheiro comprava uma casa numa zona sossegada e civilizada nos subúrbios da cidade» dizia muitas vezes a mãe solteira para o seu rebento quando via confusões e a retirava da janela.
Até ao dia em que esta lhe pediu para lhe fazer um pudim de leite-creme. A mãe que não queria que nada faltasse a Leilla porque sabia que a sua vida seria curta, o seu maior desejo era fazer com que se sentisse feliz. Num instante, correu para a mercearia mais próxima para comprar o que tanto iria adoçar a boca da coisa mais querida que tinha neste mundo.
A força do mal estava atrás da porta e quando nada indicava rebentou uma confusão de fugitivos e fardados para num abrir e fechar de olhos, os tiros e balas cruzarem-se por percursos desconhecidos para quem já conhecia as sinuosas ruas e esconderijos dos malfeitores.
Uma bala maldita perdeu-se no alvo a atingir para fazer um ricochete embatendo de seguida na testa da pequena criança que nada dizia aos outros mas que tudo via.
A mãe quando chegou a casa com o leite satisfeita de mais um capricho ir dar a quem tudo merecia, encontrou no soalho gasto, de tanto pisado estar, sua filha banhada de sangue.
Branca e transpirando como uma desalmada, apenas viu o pequeno corpo de Leilla com os olhos muito abertos olhando para o Céu. Ficou-lhe para sempre a imagem dos pequenos braços abertos alongados no chão dando a impressão que esperava a mãe para lhe dar o último abraço. Abraço este que não recebeu mas que deu a quem tanto amava.
Então num relance, levantou-se e olhou para onde a filha sempre olhava
mas ninguém viu como nada ouviu.
Ainda hoje, está por saber como o Sol deixou de entrar em casa ou se alguma tempestade do deserto lhe entrou pela casa adentro levando-lhe quem tudo era para ela.
Com uma profunda fé, mas ao mesmo tempo sentindo uma revolta interior abalada por desconhecer os desígnios divinos prometeu a si própria que a partir do momento que deixou de ver e ter a sua pequenina todos os dias estará à janela olhando para onde olhava Leilla com a esperança de um dia poder ver no meio de quem brinca alguma estrela ou alguma sombra que a leve a julgar que aquilo que era seu voltou.
Se nada disto acontecer então que a sombra escura a leve para junto de quem já não tem. Nas noites de solidão, lembra-se do calor que dava a quem tanto precisava para se aconchegar no peluche cheio de borboto de tanto mimado ter sido.

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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

A vendedora de peixe




Por: António Centeio

Vende peixe numa banca do Mercado Municipal. Gosta que a tratem por vendedora de peixe ou peixeira. Desde que não os considerem depreciativos pouco lhe importa. Afinal está na banca para vender o que a sustenta como sua família. Orgulha-se da profissão como do que faz. Se lhe comprarem todos os dias o peixe que recebe então é a mulher mais feliz. Sente-se uma vendedora realizada quando lhe agradecem a atenção como se sente satisfeita quando recebe elogios pela forma como amanha o peixe a pedido de quem o compra.
Antes de ir à sua banca, costumo dar uma volta pelo interior do mercado. Adoro a azáfama dos mercados e os diálogos das vendedoras que tentam vender os seus produtos. De tantos dizerem o melhor do que vendem, às vezes só lhes falta meter o selo de garantia para sabermos a sua origem ou sermos seduzidos pela qualidade da terra em que são plantadas as verduras. Diga-se em abono da verdade que algumas «comem-nos os olhos» de tão bom aspecto terem. Gosto de olhar e de mexer na verdura para meter conversa com quem tem as mãos gretadas pelo amanho da terra. São para mim a melhor garantia do que estão vendendo, vem de onde dizem vir.
O suficiente para já ser conhecido no mercado pela minha presença. Uma das vendedoras, que mais não é do que uma senhora dobrada pelo passar dos anos que delega na filha o somar dos números, convidou-me um dia destes a visitar o «seu terreno» bem perto da cidade para ficar a saber as voltas que as coisas dão até chegarem onde estão.
Fiz-lhe a vontade. Quando menos esperava apareci-lhe no momento da apanha das couves e do seu arranjo como das alterações que seguidamente sofrem no seu pequeno tanque. Serve para as lavar e conservar; para seguidamente ficarem muito bem arrumadinhas em cima da sua velha camioneta que na madrugada seguinte seguirá com destino ao mercado da cidade.
Vi também a apanha das cenouras e das sacudidelas que sofrem para terem boa apresentação para quem as comprar.
Aquele cheiro da terra fez-me lembrar tempos passados em que nas noites de Verão ia passear devagarinho no meu automóvel com os vidros todos abertos nos terrenos agrícolas de pessoas conhecidas com uma única missão: sentir o cheiro da terra. Senti este cheiro no cair da terra que as cenouras traziam.
Gosto de ver toda a zona dos queijos e da quantidade de queijos que aqui se vendem como gosto daquele cheirinho do pão quando vindo das padarias e da maneira que as vendedoras o tem arrumado. De tantos estarem atentas no que estão a fazer nem dão pelas pessoas que circulam várias vezes pelas redondezas das suas bancas. Estão lá para «vender e não para ver quem passa» foi a resposta que uma padeira me deu quando lhe pedi para explicar-me qual o nome do tipo de pão que tinha à venda mas que nunca tinha visto. Apenas me pediu que aguardasse até que «não tivesse fregueses para atender». Explicou-me toda a mistura de que era composto como da sua feitura.
Quando já vi o que tinha que ver ou ouvi o que tinha que ouvir, então sorrateiramente encosto-mo por escassos minutos para ver, sem ninguém aperceber-se dos movimentos da vendedora do peixe
Uma cara triste, talvez marcas de uma esquecida amargura do passado ou de alguma recusa da vida; porque não, de alguma partida da vida? Vale-lhe o sorriso que os seus olhos espalham pela face fazendo-a parecer a melhor mulher do mundo como que tenhamos que simpatizar com ela logo à primeira vista.
Gosto de lhe comprar o peixe para toda a semana. Nunca me entendi com a qualidade do peixe nem com os seus nomes. É ela que me diz – este aqui é corvina e aquele acolá é peixe-espada. Se levar o primeiro pode fazer os mais variados cozinhados; se levar o outro arranjo-o de forma que depois de frito «é de comer e chorar por mais».
Sabe que sou um ignorante na cozinha. Afinal há anos que lhe compro o peixe e sempre confiei nela como nos seus conselhos e recomendações. De tal forma, se hoje sei alguma coisa sobre «cozinha» a ela posso-lhe agradecer.
Sei também, porque me disse que os seus «antepassados eram pessoas que viveram sempre junto do mar». Daqui, continuar a desempenhar de outra forma aquilo que lhe ensinaram e que fez sempre parte da sua vida. Disse-me ainda que nos seus tempos livres, costuma ir «passear à Nazaré» porque nesta linda terra «estão as suas raízes». Costuma sentar-se em cima das rochas que servem de base a um sítio que chamam o «Sítio da Nazaré». Então olha para o horizonte durante horas para ver se consegue ver quem se perdeu na apanha daquilo que vende e se alguma sereia do mar lhe conta as histórias de quem nas noites de tempestade se perdeu e nunca mais voltou.
Disse-me também, porque perguntei-lhe, que a cara que tem mais não «são do que marcas das dores que o vento do mar deixou como das saudades das coisas passadas e da perda das pessoas que lhe eram queridas». Compreendi perfeitamente o que queria dizer. Só não me soube explicar porque sorri com os olhos.
Ainda existem pessoas que sabem contornar os obstáculos da vida mesmo que os seus olhos chorem quando se lembram de tempos vividos mas que nunca deixam correr pela face qualquer lágrima. São pessoas feitas de granito. Nunca dobram às agruras do tempo como preferem: morrer de pé quando a vida teima que morram de joelhos.
Por estas e outras razões, continuo todos os sábados a ir ao Mercado Municipal, não pelo seu sorriso como da sua cara triste mas pela simpatia que irradia e pelo sorriso encantador que espalha nos olhos de quem lhe compra peixe.
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Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Meu velho amigo e camarada Parente




Por: António Centeio

Estava ausente quando soube da notícia do falecimento do meu velho amigo e camarada Parente. Ao receber a informação da fatalidade a minha alma transfigurou-se de tal forma que as lágrimas se derramaram pela face como tivesse sido molhada por uma torrente de água. De imediato regressei para que não faltasse ao seu funeral. Assim aconteceu.
Ainda criança quando via a minha pessoa chamava-me logo para saber onde andava e o que estava fazendo. De seguida dava-me conselhos de toda a espécie para que quando um dia “fosse um homem, soubesse honrar quem me deu vida” porque “estes mereciam tal coisa”. Marcou-me profundamente. De tal forma que o considerava como o “meu melhor protector e o melhor professor das coisas da vida,” quer pela sua experiência como ainda pela maneira de falar e sabedoria. Eu era a criança que ele adorava. Encarava-me como seu “favorito” talvez pela amizade que o unia a meu falecido pai como a estima que a minha família lhe merecia.
Sobre a sua pessoa, lembro-me de ouvir as mais variadas e pitorescas histórias que fazia como o imaginasse numa espécie de centurião romano ou um musculoso homem de outro planeta em virtude de seu enorme corpo e cara de respeito que apresentava para com todas as crianças. Algumas não passavam de lendas mas outras eram verdadeiras. Que eu saiba nunca casou e muito menos viveu com mulher alguma mas sabia -porque me disse – que visitava de tempos a tempos a “casa das meninas” onde satisfazia as suas necessidades. As histórias originárias destes encontros ensombraram durante algum tempo a minha imaginação sobre os prazeres da luxúria como me espevitava o caminho para a curiosidade de saber se na verdade a coisa era tão boa como Parente dizia. O tempo se encarregou de ensinar que na verdade ele era um “mestre na arte”.
Originário de famílias de posse, bem cedo se separou de quem o estimava, dispensando ao mesmo tempo a fortuna que os “seus lhe tinham destinado”. Sempre quis viver do que ganhava e levar a vida que gostava. A sua liberdade por preço algum trocou, ao ponto de feito homem, os familiares se envergonharem da sua situação precária e das pobres condições em que vivia. O que lhe interessava era a sua felicidade. Pura e simplesmente marimbava-se para o que diziam e pensavam dele. Sempre satisfeito com a vida ensinava aos mais pequenos – tipo de gente que adorava «nunca devemos deixar de ser aquilo que somos mesmo contrariando a vontade ou os desejos dos outros”. As crianças quando o viam na rua era como vissem o deus dos deuses. A gritaria entoava pela rua e toda a gente ficava a saber que Parente estava rodeado dos mais pequenos. Era a sua alegria e felicidade. Os seus enormes dentes mostravam a grandeza da sua alma. Um homem pronto a fazer e a dar o seu melhor pelos outros sem nada querer em troca.
Quando me fiz homem e iniciei o percurso da vida Parente seguia-me de perto. Se por alguma razão a ausência do seu predilecto se prolongava ia recolher as informações necessárias para saber do ponto da situação: se não lhe agradasse o que ouviu, desbravava caminhos e encruzilhadas para me ver ou aconselhar daquilo que considerava o “melhor para mim”. A experiência da vida ensinou-me que os seus conselhos eram os melhores e os mais certos.
Do meu velho amigo e camarada Parente nunca me esquecerei daquilo que sempre ouvi dizer como algumas vezes cheguei a testemunhar:
Decorria a década de cinquenta do século passado. A sala do cinema compunha-se de várias filas de cadeiras. Distribuídas por classes, davam-lhe os nomes de: “Geral (que chamavam também de piolho) Plateia, Balcão e Camarotes”. No primeiro andar, tipo meia-lua, o “Primeiro e Segundo Balcão”; nos cornos da lua, encaixava-se uma meia dúzia de camarotes, a puxar para o finório com a ajuda de carteiras bem recheadas. Era o espaço dos senhores janotas e das madames vistosas. O “camarote” mais distinto estava reservado “perpétuamente” ao fiel cliente, conhecido por Parente.
A alcunha, vinha por esta figura, considerar nas outras, um laço familiar como que, sendo todos descendente da mesma espécie. De pouco valia argumentar. A origem da família, para o Parente estava escarrapachada no Livro do Mundo a que chamava de Divino. Se em causa fosse posta a sua teoria, enviava os contraditores para a casa do pároco, que mais do que ninguém lhe servia de testemunha.
Um homem aí na casa dos cinquenta. Bem encorporado, possuidor de uma voz rouca que até fazia estremecer quando levantava o timbre. Solteiro, residente numa casa térrea, de uma só divisão, onde numa das paredes tinha pendurado uma velho relógio de capelinha, que para a rapaziada com menos de uma dezena de anos «era um rato amigo do dono que dava corda ao marcador de horas». Com profissão desconhecida mas sempre com uma carteira apetrechada de trocos. Os suficientes para gastar a seu belo prazer e dar a quem só ele entendesse necessitar.
Homem estranho, gozado pela canalha mas temido pelos grandalhões ou seus iguais, de alma, porque fisicamente estavam a léguas de distância na força e tamanho.
Agarrava em duas sacas de cimento de cada lado do corpo – pesando cada uma cinquenta quilos – seguras pelos braços que ao subir a escada em vez de ser ele a cair com tal peso, eram os degraus que se partiam. Homem estranho como esquiva era a sua maneira de viver.
Mal abria as portas do “Cine” Parente tinha que ser o primeiro a entrar. Ia directamente para o seu “camarote”. Sentava-se, cruzava a perna, para de seguida começar a ler o jornal, com os seus óculos de sol – lentes bem escuras – que o acompanhava quer fosse de dia quer noite, Inverno ou Verão.
A sala ia enchendo, vendo-se aos poucos, as cadeiras – conforme os bilhetes iam sendo rasgados pelo porteiro – a dar forma no interior da casa de espectáculos como a garantir aos pagantes que a sessão ia ser boa; o contrário era sinal de má escolha. Na hora anunciada desligavam-se as luzes para logo rodar a fita da sétima arte.
Parente pouco ligava à rotina como ao desenrolar do filme para continuar a ler o tablóide, vindo de não se sabe donde.
De algures, ouvia-se uma voz «Oh Parente está a ler às escuras!». Ria-se para dobrar o jornal, metendo-o de seguida no bolso de casaco. No intervalo, era o seguimento do que não foi acabado.
Mais uma vez a voz estranha clamava « Parenteee!....., o jornal está ao contrário! Está a ler as notícias de pernas para o ar!» E, estava mesmo, porque o Parente não sabia ler. Apenas gostava de exibir a sua ignorância – para os outros – de homem simples com sonhos de grandeza como os seus cultos vizinhos de camarotes situados a bandas do seu – os debaixo, eram da classe média.
Era boa pessoa. Continuamente sorridente mas inseparável da sua gasta folha de periódico como dos seus velhos “Óculos de Sol” comprados por tuta-e-meia em qualquer banda que nem ele próprio sabia. «Comprei-os a um contrabandista que por aqui passou, depois de finda a Grande Guerra». Verdade ou mentira, nunca se apurou.
«Aí está ela!»
Era a Sara Montiel a artista preferida de Parente e a personagem principal do filme. A “Plateia” batia palmas ao Parente salvo quando os do baixio apanhavam na cabeça as cangalhadas e cascas de amendoins que a classe finória mandava para o vazio.
Era logo um banzé na choldra. Neste momento o corpanzil do Parente erguia-se em plena escuridão para admoestar a populaça «calem-se suas cavalgaduras que quero ouvir a Sarita». Calavam-se mesmo.
Velho e amigo camarada Parente como a sua ordem era respeitada, mesmo que lá no fundo, todos gozassem com as saídas inesperadas do Parente.
Uma figura castiça que memorizou histórias do arco-da-velha nas gerações seguintes; história adulteradas que inferiorizam Bocage.
Belo dia de Carnaval, subiu com a sua pasteleira, até meio, a íngreme rua. O restante foi a pé, segurando o transporte pela mão, levando em cima do guiador do velocípede, um par de cornos, comprados na manhã do dia, no talho do Felismino.
Chegado ao cimo, monta-se em cima do selim, seguro pelo quadro de aço alemão e assente em duas rodas com locomoção humana, para descer com toda a sua força muscular, muito própria de quem a tinha, ganhando uma velocidade tonta. Às tantas perdeu o equilíbrio para se estampar de rejeitada em cima do passeio empedrado. Como caiu como ficou. O corpo todo estendido assustou o mulherio que gritou logo por socorro. Tinha havido um acidente grave: a vítima não era nem mais nem menos do que o Parente.
«Ai que o Parente morreu! Chamem uma ambulância»
Estavam os maqueiros colocando o folião na maca, quando o morto se levanta, gritando «Alto e pára o baile, que o artista nunca morre no filme!»
Aquilo é que foi uma gargalhada. Só o Parente para fazer uma cena destas. Durante semanas, logo conhecida a coisa da canalha, foi o tema mais falado na escola.
Parente foi durante anos o ídolo da criançada. Bastava ser visto por um, logo outros se juntavam em grupo como bando de pardais.
Quando um dia correu a noticia que Parente «foi desta para melhor» – ainda por cima no dia dos finados – toda a gente das redondezas fez questão de acompanhar o corpo à ultima morada. A figura mais típica da terra, quando dentro do caixão, foi cercada por pessoas, que ele próprio se fosse vivo, nunca tinha visto de lado algum.
Quem gostava de andar em cima da terra passou a estar debaixo dela. Muitas lágrimas se derramaram naquele dia de infelicidade e muitos lenços foram lançados para cima do baú rectangular de côr castanha.
Aí, meu velho amigo e camarada Parente todos te recordam e todos nós falamos de ti, como no nosso meio estivesses.
Recentemente, no Carril depois de passadas algumas dezenas de anos, após a sua morte, colocaram seu nome e alcunha numa rua para que seja lembrado enquanto a memória dos vivos recordar o Parente. Vale mais tarde do que nunca.
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Terça-feira, 17 de Junho de 2008

O Afonso das Gaivotas


Por: António Centeio
Levou grande parte da sua vida no mundo do vinho. Paródias em cima de paródias. De tal forma, que já não podia passar sem andar com nódoas na roupa de tanto beber. Tornou-se um desleixado, como a sua família, passou a ter vergonha dos seus actos e das situações que criava. Quantas vezes a mãe do seu filho não o tinha que ir buscar à praia e deitá-lo dentro de um carro de mão, trazendo-o para casa, de maneira que as pessoas não o vissem deitado na areia curtindo os efeitos do que tinha bebido horas antes. Os seus amigos em vez de não o desinquietar ainda sentiam satisfação de encaminha-lo para o meio da lama para depois dele se rirem ou dele, fazerem um farrapo. As vergonhas foram tantas, que sem dar por isso, quem seu sangue tinha nas veias, começar a abandoná-lo porque não lhe conseguia dar-lhe a volta e já não estava disposto a passar por tantas vergonhas. Quando no estado normal despertava, então um complexo de culpa, junto de vergonha, levava-o a reflectir, durante pouco tempo, para de seguida sentir as lágrimas pelos remorsos da reles vida que levava. Passados estes momentos de solidez, seguia logo para as pequenas tabernas para começar o que já era habitual.
Só começou a despertar quando lhe disseram, em estado sóbrio, que seu filho sentia vergonha de quem seu pai era. Nunca se tinha apercebido que, quando trocava o passo, o filho mudava de passeio ou fingia não o conhecer, porque a idade que já tinha não lhe permitia ser enxovalhado pelas pessoas, como estas, só o viam como «o filho do desgraçado de quem nem pai sabe ser». Perdeu tudo e todos. A família que mais o protegia deixou-o só e abandonado porque não conseguia fazer dele o homem que em tempo foi e que todos admiravam. Nunca descobriram a razão que o levou a entrar no mundo do vinho. Ao ver-se sozinho prometeu a si próprio que iria deixar a vida que andava levando para iniciar uma outra nova. Assim fez e assim cumpriu.
Hoje leva os dias alheios a tudo que o rodeia, excepto as suas companheiras silenciosas. Pela manhãzinha quando se levanta da sua amorfa cama, situada numa pequena casa de rés-do-chão, que é húmida por estar numa ruela, onde o Sol nunca entra e de tão estreita ser, passa pela pequena padaria onde ainda se fazem vianhinhas, comprando – com as esmolas que lhe dão – meia dúzia.
O velho padeiro de tanto o conhecer, coloca-as no seu velho e usado saquinho de flanela dando-lhe ao mesmo tempo restos de pão que sobra do dia anterior para quem de si está junto. Depois segue o percurso até ao Picadeiro para atravessar o areal. Senta-se de seguida bem perto do mar para só se levantar ou mudar de sítio quando a maré começa a subir. Do saco tira a vianinha que acha ser a maior e mais macia para a mastigar lentamente. Do oferecido, desfaz o miolo em minúsculas bolinhas e vai espalhando-as em seu redor para as gaivotas que lhe fazem companhia – já o conhecem por estar sempre na mesma posição e no mesmo sitio. Criou hábitos nas aves, como os hábitos que sustentou durante anos, ao ponto de ambos saberem o que podem contar uns dos outros. De tal forma, quando menos esperava uma das companheiras voadoras, julgando que tinha direitos sobre quem lhe dava de comer, um dia subiu-lhe para o seu ombro para começar a bicar-lhe a sua cabeça com o seu cumprido bico, coisa que o assustou.
Sem saber porquê, se não era a mesma era uma outra, nos dias seguintes repetia-se a proeza. Começou a enxotá-las porque as bicadas faziam-lhe doer-lhe a parte que protegia o seu fraco cérebro. Mais as enxotava mais elas o apoquentavam. Os dias começaram a tornar-se incómodos e sofríveis para não dizer de angústia. Teve que mudar de poiso porque já tinha medo de quem tanta companhia lhe tinha feito. Assentou arraiais, algures debaixo de um rochedo, que de esquina, destrinça a extrema das praias com nomes diferentes mas que são só uma. Deixou de ser um homem para ser uma criança. Mal vê uma gaivota voando lá no alto olhando para baixo em busca de outros alimentos ou de algum peixe à toa do oceano ou enquanto espera pela chegada dos barcos que regressam da faina, assusta-se para se mirrar de tão assustado estar. Julga, de quem tem medo, seja alguma conhecida que na outra banda lhe bicava a cabeça mas que agora lhe vem pedir contas daquilo que deixou de dar. Só regressa ao lar quando o Sol começa a mudar para o outro lado da terra. Detesta as gaivotas e encolhe-se quando ouve os seus cantares. Nos sonhos, vê as gaivotas dentro de casa sobrevoando e consumindo o pouco que resta do seu corpo, deixando-o esburacado e sem forças para resistir a quem tanto deu de comer.
Salta da cama, feito um doido, para se sentar na mesma. Dobra as pernas, para no meio dos joelhos meter a sua cabeça vazia; então cai em si. Noites turbulentas que o levam a vadiar nas madrugadas silenciosas, mas assustadoras. Vale-lhe como protecção, os homens do mar que já o conhecem desde o tempo que viam o Afonso das Gaivotas falando para as gaivotas, ou as gaivotas falando para ele.
Recolhem-no numa das velhas barracas que serve de arrumação para os apetrechos da pesca, fazendo-lhes ao mesmo tempo companhia, não como homem, mas como alguém que ainda é gente, merecendo mais compaixão do que atenção. Resguardam-no, não pelo incómodo que possa dar mas por causa do seu medo das gaivotas. Dele não se riem mas da sua desgraça tem pena – apenas está para ali. Levou anos demais da sua vida a meter a cabeça debaixo do chão, como a avestruz, quando devia olhar as coisas de frente. Um desgraçado, com amostra de gente, que se deixou dominar pela fraqueza da vida e do vinho.

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Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Quando o azar persegue quem menos merece


Por: António Centeio

Veio à luz do dia no seio de uma família modesta onde os bons princípios lhes foram incutidos desde pequenino para que soubesse respeitar os outros e estes o respeitassem. Ao mesmo tempo foi bafejado pelo azar quando nasceu, talvez pelos sinos repicarem no momento em que chorou pela primeira vez ou pela imensidão do espaço que esperava o crepúsculo. Galveias foi aos poucos embrutecendo, não pelo que aprendeu mas por força de quem o rodeava. Sempre pediu às pessoas que fosse acusado do que fizesse e nunca o contrário mas os adultos teimavam em impedir a normalidade do oráculo de quem não pediu a ninguém para nascer como nasceu.
A vida fez com que nascesse com o que tinha como Galveias sabe que até fim da sua vida deverá suportar com resignação o peso e incómodo de ser corcovado, vulgo marreco. Aos cinco anos era uma criança alegre de sorriso triste. Talvez já pressentisse o que lhe reservaria o futuro para, a meados da juventude, tivesse saudades do tempo passado.
Ainda criança perguntava à mãe «quando é que vou para a escola para andar com a malinha às costas como os outros meninos?». Respondia-lhe que «está quase meu filho. Falta pouco tempo!» Mas no fundo pensava: «o defeito que o petiz têm desde que nasceu, na escola, não servirá de chacota?» Não estava longe da verdade. O tempo veio mostrar que a sua profecia estava certa.
Valeu ao Galveias os conselhos de quem lhe deu a conhecer a luz do dia como o colocou na ingratidão do mundo. A ajudá-lo, a velha e sempre preocupada professora D. Filipa que o apoiava e estimulava, quando a ela, se queixava das partidas e maldades dos outros meninos. Foi esta mulher de ensino primário que lhe ensinou que a «calúnia é como o carvão, quando não queima, suja». Nunca se queimou mas andava sujo e ofendido pelo seu defeito, ao ponto de ter levado uma vintena e tais de anos a ouvir tudo o que os outros lhe queriam chamar. Por mais que Galveias criasse as suas defesas mais os moinhos deixavam de existir mas o vento continuava a ser o mesmo.
«Marreco para aqui marreco para acolá» todos o gozavam e enxovalhavam. Sempre pronto a ajudar quem lhe pedisse ajuda, mesmo algumas vezes o explorando, não regateava trabalho de espécie alguma a fim que pudesse ganhar alguns trocos para ajudar a mãe nas despesas da casa, já que seu pai entendia levar os dias à sombra quando o Sol o incomodava, mesmo sabendo que a desgraçada da mulher todas as madrugadas levantava-se com o desaparecer das estrelas, metendo a rodilha de trapos no cimo da cabeça para segurar a caixa que tinha o «peixe fresquinho» entregue pelos “Luzes” pouco antes de começar a pregar pelas ruas «olhem a sardinha e carapau acabadinho de chegar!»
A vida é como um circo: cheia de trapalhadas e palhaçadas. Às vezes é preciso lembrar às pessoas que a chuva também é composta de lágrimas misturadas com amargura.
Foi num dia de chuva que Galveias bebeu uns copitos e se pôs a dançar do adro da colectividade da terra. Todos se riam, das tontices do vinho que tinha ingerido ao longo do dia, depois de logo pela manhãzinha ter sabido que tinha «trabalho garantido por seis meses na apanha do melão lá para o lado das Lezírias».
Os seus velhos camaradas de escola riam-se a bandeiras desfraldadas. Um ou outro fizeram-lhe partidas, mas o mais afoito, por razões desconhecidas, aplicou-lhe meia dúzia de lambadas sem razão alguma, levando os restantes comparsas a incentivá-lo a outras coisas mais. O pobre Galveias nem força já tinha para se colocar em cima das suas frágeis pernas. Encolheu-se como um canguru e apenas pedia aos santos que a porrada parasse por ali. Parou uma ova!
Foi malhar no desgraçado até não poder mais. Como não bastasse, enquanto encolhido, com a cabeça no meio das pernas, o outro artista começou a chamar-lhe nomes feios como a mexer-lhe na parte íntima da rectaguarda. As pedras da calçada sorriam de tanto ouvir palmas e elogios para quem originava o triste espectáculo. De Galveias, apenas choro e gemidos.
Como que o diabo se tivesse soltado naquele momento, o escuro da noite tapou a vista a quem deveria ver e abriu a de quem já tinha os olhos todos negros de tanta pancada ter levado. Num ápice, segundo consta, só se ouviu um estalido e um grito de dor. Galveias tinha conseguido tirar do bolso um canivete para o espetar em cheio no coração de quem o agredia. Fez-se luz mas era tarde demais para todos.
Galveias era como um ramo de árvore. Não podia estar separado do tronco senão faltava-lhe a seiva que alimentava a sua alma. Cumprida a pena, nem uma migalha do seu passado encontrou quando regressou à aldeia que o viu nascer. Hoje, anda pelas ruas como uma folha nos dias de Vento. Até quando foi ao cemitério, a campa dos pais tinha um aspecto frio e desolador.


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Próximo do azul tudo é uma eternidade




Por: António Centeio

Eram nove e quinze quando cheguei à estação de comboios. Tirei o bilhete com destino à Gare do Oriente. Quando me encontrava no cais do embarque olhei para o céu. Estava carregado de nuvens escuras. O horizonte deixou-me triste. Deixava para trás toda uma vida cheia de recordações. A minha voz interior dizia-me que jamais sentiria a essência dos momentos sublimes até aqui vividos como a minha alma sentia um vazio no abandono das suas raízes.
Iniciada a viagem, os meus olhos choraram porque só eles souberam transmitir à mente a grandeza e perfeição de beleza da extensa planície ribatejana. Apenas o meu coração pulava de alegria. Sabia aquilo que o esperava – o momento do encontro. Tão poucos quilómetros de distância mas que se tornavam penosos. Como o mundo é pequeno!
À muito que tinha conhecido Ana. Falávamos várias vezes durante o dia dos nossos problemas. Aos poucos fomos ganhando uma profunda amizade. Conhecia a cidade como a «curva das canas» porque, quando da sua infância, passava pela mesma diáriamente a caminho da escola. Bem cedo foi viver para Lisboa. O que aprendeu, fez com que me ensinasse o significado «estamos em online» (era a palavra mágica para iniciarmos a nossa intimidade). Todos os momentos livres que tínhamos eram para estarmos em «on» – Queríamos mais, sempre mais. Ensinou-me a entrar no mundo do «mirc» como saber quem pode estar por detrás de um «nick» ou ouvir a sua voz no «icq».
Ana sabia mais do que ninguém de que “ tudo se relaciona com o mundo das ideias para podermos estabelecer dois planos. Um deles processado directamente com a actividade literária. O outro era a teoria e a ideia, porque entendia que a ciência dos princípios é a ciência dos que investigam as causas ou as razões últimas das coisas”. Eram estes princípios filosóficos que a levavam a ter pensamentos profundos para que se inquietasse quando raciocinava, levando-a assim a estar sempre desconfiada para com o seu «mestre» como me chamava.
Usávamos muito para ‘discussão’ o «Livro de Sofia». Um longo livro que acabou por nos dar a hipótese de fazermos análises profundas sempre que nos encontrávamos.
Ana, sabia que pela sua falta de confiança em mim (por ser mais velho do que ela na idade) e ao contrário do que julgava, aumentava entre nós dois uma misteriosa energia que nos unia. “Alturas há, que até estranhamos os nossos próprios instintos”. Até «Dudu» o seu gatinho de estimação nos avisava para “estarmos preparados para as surpresas da vida”.
“Devemos estar preparados para as surpresas da vida....”. Ana sabia que «cada um» deve buscar o seu tesouro e que o encontre. Os sinais farão o resto, porque “todos os dias são iguais e, as pessoas deixam de perceber as coisas boas que aparecem nas suas vidas porque não sabem perceber o sinal quando o Sol cruza o Céu” ou quando a sua «Outra Parte» lhe confia toda a “sua vida para que compreenda que nada tem a esconder” desejando apenas a “compensação da total entrega”. Coisas que, Ana, tinha dificuldade em enxergar.
Um dia viria a saber que a amizade que íamos cimentando quando teclávamos ou quando percorríamos a grande avenida, que secretamente o “brilho da bola do Céu” estava fazendo – sem que nós soubéssemos – fórmulas secretas para “que as nossas almas mais tarde ou mais cedo se aconchegassem”.
Das quatro estações, guardamos para a mais fria aquela que seria o início de uma vida. Só Ana sabia dizer aquelas palavras que entram dentro de nós e que nos dão arrepios – não fosse ela poeta.
Meu Deus, quanto é difícil iniciar uma nova vida deixando para trás toda uma outra que foi construída palmo a palmo?
Dizia-me sempre “ sê racional e nunca penses com o coração, porque este é traiçoeiro”. Nunca gostei de racionalismo. Segui sempre o meu coração e a minha intuição. Nunca me enganaram. Construímos aos poucos o «nosso mundo» num paraíso voltado para o mar. Nas manhãs domingueiras, sentávamo-nos os dois na varanda da nossa casa, horas e horas, vendo a força do mar. Sentíamos no Vento aquilo que só o mar sabe transmitir. Do seu interior «vinham» vozes estranhas que nos diziam para vivermos o nosso dia como fosse o último. Era um segredo entre nós três. A magia da Lua Cheia encantava as nossas almas ao ponto de nos embalar para o infinito. Na elevação, a força do vento e do amor faziam com que soubéssemos que próximo do azul tudo é uma eternidade.
Nasceu numa noite com a essência do Quarto Crescente para que jamais fosse esquecida. Até os passarinhos louvaram com o seu chilrear o nascimento do nosso fruto. Os grilos juntaram-se em coro para dar as boas vindas a quem tinha chegado.
Para que as flores que rodeavam a nossa casa não se sentissem tristes demos-lhe o nome de uma delas. Jamais estas deixaram de fazer parte da vida de nós. As margaridas tinham outra vida quando viam a imagem celestial que as acariciava diáriamente. A Alma do Mundo aceitou nos mistérios da vida a nossa entrega. À medida que as luas passavam Margarida, transformava-se numa pessoa com uma enorme compaixão. Os olhos dos nossos olhos brilhavam para a vida.
Naquele dia as gaivotas estavam agitadas. O mar estava aborrecido. As ondas batiam com raiva nas rochas. As nuvens faziam no céu símbolos que pareciam um chamamento para os nossos olhos. Não compreendíamos o que as mensagens nos queriam transmitir. Quando menos esperávamos, do céu ouvimos o bater de dois «trovões». Neste momento, Ana, sentiu uma dor profunda no seu coração. Voltando-se para mim com as lágrimas correndo pela sua face e uns olhos que reflectiam amargura apenas teve força para me dizer “ querido, tiraram-nos algo. Sinto uma enorme dor dentro de mim” para cair de seguida completamente pálida.
A Alma do Mundo tinha-nos levado o fruto do nosso amor. Só neste momento descobrimos o que queriam dizer as vozes interiores quando nos diziam para “ vivermos o nosso dia como fosse o último”.
Numa manhã fria, enquanto o vento abanava os ciprestes que iriam rodear a morada da Margarida, o vento fluiu para nos encaminhar para o silêncio das paredes frias que nos iriam acompanhar para o resto da nossa vida tirando a razão de viver a dois seres que se amavam para que um dia fossem recordados por alguém que foi feito com tanto amor.

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O regador de Zinco


Por: António Centeio


Amália, solteira, mas boa rapariga, é uma funcionária exemplar na área de saúde. Mora
num prédio de três andares, daqueles sem “frente” portanto, apenas “esquerdo e direito”. A sua habitação situa-se no “primeiro”.
Pouco frequenta a sua casa, levando-a com que esteja sempre num mimo, talvez por causa das imensas horas que perde no emprego; ou seja: leva três quartos do dia no trabalho e outro em casa, que em abono da verdade, mais não serve senão para dormitório. Mesmo assim, faz questão de a ter sempre limpa e arrumadinha não vá alguma coisa acontecer e depois quem a traga de volta encontre o seu poiso todo desarrumado.
A experiência dos imensos anos que já leva a tratar dos outros ensinou-lhe que quando menos as pessoas esperam a vida lhes prega algumas surpresas. Para não acontecer com ela o que acontece com os outros, tudo pronto para qualquer imprevisto.
Tem uma costela de mulher do norte mesmo tendo nascido no Alto Alentejo, que se saliente, para que não haja confusões «quanto mais para cima, mais trabalhadores são, dos que para baixo nasceram» acrescenta em modos de rodapé mas destacando que «os vizinhos, em conformidade com a geografia, não deixam de ser boas pessoas, apenas tem o seu feitio». Isto, claro, numa de gozo como humor gostam os mais acima de gozar com os sulistas.
No Hall do piso que segue ao rés-do-chão, tinha Amália um pequeno vaso com uma flor tão bonita como a dona. Quando chegava a primeira coisa que fazia era encher de água o seu pequeno regador de zinco – daqueles feitos pelos antigos latoeiros, que segundo a mesma lhe «foi oferecido quando criança para regar o seu pequeno jardim que estava no fundo do seu quintal» cujo espaço ninguém podia mexer – para depois o despejar no seu «encanto».
O destino se encarregou de a trazer para outras bandas e aquilo que foi jardim hoje mais não passa do que um bocado de terra, onde o pai planta de tempos a tempos um batatal, que nos dias que correm faz um jeitão, para além de mensalmente, parte das sobras seguir viagem até à cidade.
Uma miniatura de regador que à vista larga mais parece feita de barro escuro por tão usado ter sido, mostrando na sua execução que está para dar e durar pela forma que foi feita a sua estrutura.
Ainda hoje quando deambula pela sua cidade alentejana, nos seus poucos dias de folga, gosta de passar pela ainda existente oficina, lembrando ao mestre que «a sua obra está um mimo continuando a regar a única espécie florida da região».
A flor, deixava um cheiro na escadaria do prédio que a vizinhança até julgava que alguém pela madrugada espalhava desinfectante para «matar as moscas vindas algures dos contentores que se situam na proximidade do prédio» mesmo sendo despejados todos os dias levam meses sem ser lavados e ao mesmo tempo «haver um cheiro impregnado no ar que mais parece urina». A dúvida é que o aroma era «bem cheiroso» para ao mesmo tempo algo «não bate certo». Nos de cima «costuma cheirar bem mas no primeiro....».
Uma dia destes, pela tardinha quando saía de casa para ir fazer compras ao centro comercial, mal abriu a porta, deu de caras com o lulu do vizinho do segundo de perna aberta em cima do vaso da amada flor, aliviando talvez, aquilo que ao canídeo devia incomodar, encontrando no objecto de forma triangular o melhor sitio para despejar o que deveria ter feito no exterior do edifício ou em último recurso na casa de quem seu dono é.
Estava, para Amália, encontrado o cerne da questão e os contrastes atmosféricos como dos desabafos de quem vive no dito. Como resolver a questão é que a coisa se complicava dado a falta de provas mesmo que tivesse apanhado o malfeitor em flagrante delito.
A demora pela resolução não se fez esperar. Pouco dias passados, seu vizinho de cima chamou-lhe a atenção que «na sua entrada paira um cheiro nauseabundo que mais parece um mictório». Nem foi tarde nem foi cedo.
A resposta à provocação e acusação estava encontrada. Amália ia a abrir a boca para dizer o que sentia como pela humilhação que tinha recebido quando viu descer o filho de quem a imputava de «maus cheiros» quando na verdade era o seu cão que fazia as necessidades no vaso mais vistoso do prédio. Para sua sorte, não houve outros ouvidos pelas redondezas evitando assim testemunhos de uma cena de má vizinhança.
- Olhe lá vizinho, deve estar enganado ou a fazer confusão com quem tem em casa!
Quem ouvia o ralhete ficou embasbacado pela saída de quem pensava tudo aceitar sem nada dizer para se defender.
- A menina (menina, subentenda-se, já que é uma quarentona) sabe o que está a dizer? Veja lá o que diz e a forma como afirma porque me está a dizer coisas muito graves?
Amália, que até nem é gaga, disparou em todas as frentes que mais parecia um caçador nos dias aziagos que de tão danado não matar caça dispara em todas as direcções.
- Pois fique sabendo que este cheiro que lhe entra pelas narinas, como aos outros vizinhos, mais não é do que o mijo que o seu cão aí despeja todos os dias! Se tem duvidas, pergunte ao seu filho se não é verdade porque já apanhei aqui os dois; o seu filho e o cão seguro pela coleira, esperando o primeiro que o segundo despejasse a bexiga.
- Mais lhe digo: até nem sei se o seu filho também faz a mesma coisa?
Olha de soslaio para o garoto e arregalando os seus grandes olhos, pergunta-lhe:
- O que a vizinha está a dizer é mesmo verdade?
Confirmada a acusação e despachado um valente tabefe na cara do petiz, dando a impressão que merecia o peso da mão que lhe assentou em cheio num dos lados da face, deixando-lhe vincados os cinco dedos, voltou as costas de quem o tinha envergonhado, partindo de rabo alçado pelas escadas a fora sem dar qualquer satisfação como pedido de desculpa.
Amália, que tem formação diferente do vizinho do segundo concluiu facilmente que no futuro a cordialidade e boas maneiras seria algo que deixava de existir. Contra sua vontade, retirou o que enfeitava o seu pequeno espaço exterior levando o objecto barroso para a marquise – o princípio de uma relação cheia de azedume.
Ainda bem que a do primeiro raramente vê o vizinho de cima e quando este vê a de baixo nem entra nem sai e se a fita no passeio muda logo para o outro dando a impressão que a primeira é que é culpada da situação. No café do rés-do-chão, da Joaquina, a noticia correu como um relâmpago. Propagou-se de tal forma que o vizinho de cima de tão envergonhado estar nem à rua vem, passando os dias à janela a ver quem passa ou, quem lhe morde na casaca. Como a noticia se espalhou é que intriga Amália mas coisa que pouco lhe importa.

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O patriarca da familia




Por: António Centeio




Eram um casal de agricultores da classe média na região em que estavam inseridos. Proprietários de alguns hectares de terra. Obtinham na produção da mesma, receitas para que fosse considerada uma “casa tradicional” e rica para a época.
As carroças e os animais que possuíam eram a sua vaidade. As pessoas paravam na rua para ouvir o tilintar dos guizos dos cavalos. Os seus condutores enterneciam-se pelo que conduziam. Até os cavalos sentiam vaidade, levantando com brio a sua cabeça, mostrando assim, o brilho dos seus olhos e a sua beleza, de tão bem tratados que eram.
O casal sentia a falta de qualquer coisa para que a felicidade estivesse completa. Das entranhas dela, nunca saiu nada para que pudesse dizer “ carne da sua carne”. A vida continuaria geração após geração – A vida era um vazio e na solidão das noites sentiam que sem filhos, nada sentido.
Amélia era uma criança doce e educada. Tudo nela era ternura. Nos seus seis anos já mostrava sinais que, quando fosse adulta, seria uma mulher elegante e esbelta. Desde que era «gente» que participava acompanhada de seus pais nos serões na casa dos agricultores.
Aquilo que se esperava aconteceu. Pediram a sua perfilhação com a condição que a “pequena, passasse a viver naquela casa” como ali o seu futuro continuasse.
Tornou-se numa linda mulher com um futuro risonho. Um dia num encontro casual encontrou quem viria a ser pais de seus filhos. Um homem de primor. Elegantes que era, os bons fatos faziam parte da sua vestimenta como o perfume na sua higiene diária. Além da perfeição era um sedutor no uso da voz. Cantava com tal paixão que, quem o ouvia, deixava rolar nas suas faces as lágrimas da nostalgia do tempo. A sua entrega era de sentimento e encanto.
Desta felicidade nasceram dois filhos a que deram os nomes de Margarida e Moisés. Viam neles a continuação de um amor desejado como lhes prometeram aquilo que só os pais sabem assegurar. Mesmo com as diabruras da infantilidade, tudo lhes era perdoado. Os padrinhos deste jovem casal sentiram nos seus braços o calor de Margarida.
O patriarca da casa já não teve o prazer de ver e sentir Moisés porque tinha chegado o momento da sua partida para pouco tempo seguir a companheira. A dor da perda e a falta de quem tanto tinham amado abalou os alicerces daquilo que parecia tão sólido. O futuro iria sofrer as maiores mutações para estes quatro seres, quando ainda recentemente tudo mais não era do que o sonho de uma longa vida.
Numa tarde de Verão, quando a alegria transbordava com as diabruras de Moisés, o vento quente e sufocante chamou pelo pai das crianças, levando-o pela estrada à borda do Tejo até ao local predestinado ao chamamento do espírito.
Moisés não era tão inocente como o julgavam mesmo tendo apenas cinco anos. Compreendeu no olhar de aflição da sua vizinha que algo de grave tinha acontecido. Sentiu nas profundezas do seu intimo que tinha acabado de perder aquilo que mais amava na vida, o seu querido pai. Margarida que já tinha quinze anos suportou melhor a perda do pai mas para Moisés foi o momento mais cruel da sua vida. Ainda hoje, passadas algumas dezenas de anos, sente a falta daquilo que perdeu.
O “mundo” desabou para estes três seres acabando o destino por separar aquilo que outrora tão unido estava. Cada um teve que seguir os seus caminhos, especialmente Margarida, que estava tão perto de um novo futuro. A maior surpresa estava reservada para Amélia que ficou, nos seus braços, com o cargo de criar e educar sozinha o seu mais pequeno rebento.
- Meus Deus, como a vida prega partidas tão cruéis?
Tudo que herdou, desapareceu como a água que corre por debaixo de uma ponte. A sua beleza transformou-se em amargura. Da sua elegância, que em tempos era o seu orgulho apenas lhe restava as marcas do sofrimento.
Mas a sua grandeza contínua na memória dos vivos pela força que teve para contornar as dificuldades e saber suportar aquilo que a vida lhe deu sem nunca o desejar.


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O miudo que comeu o bilhete do comboio


Por: António Centeio


Desde que o marido faleceu, todos os dias vai à cidade dos mortos, aquela que tem ruas como a dos vivos. Seu filho, um pequenote aí para os seus quinze anos, faz-lhe companhia para ao mesmo tempo servir de confessionário. De tanto lá ir, certa vez viu uns homens podando os ramos das árvores. Os troncos choravam pela perda dos seus rebentos. Afiançou o pequenote que por aquelas «bandas só se houve choros e gemidos».
O marido ancião que foi era o mais respeitado no meio dos ciganos. Daqui, talvez, a viúva ser «tida em consideração» como poucas ciganas o são. Não vive opulenta em luxos mas no «suficiente como manda a praxe da etnia» em que foi criada.
Nas noites de luar em que todos se juntavam sentados nos “mochos” para ver o cair das estrelas ou a «carroça da sorte a andar na estrada da lua» o filhote ouvia, de quem já faleceu, que seu pai foi, as mais esquisitas lendas sobre a cidade de Coimbra. Coisa que nunca ninguém soube explicar a apetência pela cidade em que se sente nas manhãs frescas o orvalho vindo do Mondego. A falta de algo muito seu, tornou-o uma criança de sorriso triste como triste é o sorriso dos pequenos ciganos.
Afirmam os ciganos mais novos, aqueles que já sabem ler, que as fábulas então contadas por «quem já não está no rol dos vivos» vêm dos «tempos em que as mouras encantadas pernoitavam perto de Santa Clara». Verdade ou mentira é assim que a memória do passado faz o futuro.
O filho agarra-se à longa saia da mãe sempre que esta vai ao cemitério, talvez para que não se perca naquele emaranhado de ruas e ruelas que abafam quem foi gente em vida e que faz arrepios aos vivos que por lá circulam às horas mais estranhas do dia – alguns, escolhem para passeata os dias mais quentes da segunda estação do ano; aqueles dias em que o barulho do silêncio até assusta.
Depois da mãe ter feito as rezas que os antepassados ensinaram quando se está pisando a terra que calca quem deveria estar por cima dela, perguntava sempre a mesma cantilena: “quando me levas a Coimbra para ver a cidade que o pai tanto falava?”.
Tanta vez que o “cântaro foi à fonte” que a velha cigana abriu os cordões à bolsa para fazer a vontade ao cachopo que teimava em dar-lhe cabo da cabeça. Como a palavra é uma escritura, no dia apalavrado, a primeira coisa que fizeram foi comprar o respectivo bilhete que lhes permitiu seguir viagem para os lados da serra da Lousã
O miúdo nunca se tinha visto numa coisa assim e muito menos, andar de comboio. Todo ele estava eufórico. O suficiente para volta-não-volta um ou outro passageiro fosse acotovelado pelo estreante em viagens de comboios.
A viagem decorreu dentro da normalidade, salvo para a velha cigana. Tudo lhe indicava que se aproximava da cidade. Assim, fez «mal em tirar o bilhete para a viagem» porquanto o revisor não iria aparecer.
Ainda meditava no dinheiro gasto, como na ausência de quem nunca deveria andar por aquelas bandas – o cobrador – quando a porta separadora se abriu fazendo ao mesmo tempo um enorme estrondo.
O revisor, fraco de figura mas forte de voz, desempenhava a sua missão, como assim se obrigava, pedindo a cada passageiro que lhe mostrasse o que pouco antes tinha comprado. Quando chegou junto da cigana, pediu-lhe os bilhetes. Informou que faltava «apresentar o da criança».
Ouviu-lhe como resposta: «mostra o bilhete ao senhor cobrador!». A criança olhou para quem de direito. Ao abrir a boca para responder à mãe, esta adiantou-se-lhe, pregando para o homem encarregado dos vistos a seguinte frase: «Ai.... Senhor cobrador que o corno do miúdo comeu corno do bilhete do comboio!»
Foi uma risota para o revisor como para quem estava por perto. Com esta desculpa esfarrapada, todos ficaram a saber – o cobrador ainda mais – que a dita não tinha comprado o bilhete como sabiam que a parábola mais não era que uma desculpa esfarrapada. A viagem acabou na próxima estação. A cigana, mesmo assim, livrou-se de comprar o bilhete, acrescido dos emolumentos devidos e demais chatices.

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O livro da Vida


Por: António Centeio


O livro da vida será sempre um livro fechado. Nunca sabemos o que lá está escrito. Se pudéssemos saber não deixaríamos a vida pregar-nos partidas.
Quando menos esperamos, vai daí, mais um turbilhão. Uns para cima outros para baixo. O pior de todos é aquele que leva as pessoas para baixo e depois não se conseguem levantar. Os outros, mais tarde ou mais cedo levantar-se-ão para continuar o caminho. Alguns são bem tortuosos outros íngremes. Também há pessoas que os procuram; outros fogem deles a sete pés.
Existem pessoas que só se sentem bem quando estão metidos em sarilhos. Somos como somos. Devemos compreender e tolerar as decisões de cada um. Razão tinha o poeta quando disse que deveríamos «projectar a nossa vida apenas por dias. O tempo se encarregará do resto».
Abílio foi até aos trinta anos um homem exemplar. Bom marido, bom pai e um óptimo trabalhador. Era servente de pedreiro. Profissão que exige um enorme esforço físico para além de ter como companhia, o frio, a chuva e o calor. Quando vinha às sextas-feiras, depois de ganha a semana, o seu percurso tinha que sofrer um interregno no caminho das Fazendas. Os amigos faziam o mesmo. Ficava-lhe mal não se associar. Conversa daqui conversa dali, os petiscos eram sempre regados de copitos de tinto.
Quando chegava a casa, a mulher já sabia o que a esperava. Rádio aos altos gritos e toca a dançar em pleno quintal até as tantas da manhã. O filho, um petiz, quisesse ou não, tinha que assistir à festa que para não variar acabava sempre numa valente cena de pancada para quem não merecia e muitos menos para quem olhava e ouvia a linguagem usada. Nada podia fazer, senão também sobrava para ele.
Há pessoas que gostam de levar pancada, como viver na lamúria, em vez de procurarem melhores caminhos ou novas vidas.
A vizinhança dizia muitas vezes que «certas mulheres, quanto mais lhe batem mais gostam dos maridos». A Abelina era uma destas. Uma vez foi parar ao hospital com um braço partido. Como não tinha juízo poucos dias depois levou uma tal sova que as aduelas foram dentro. Nunca reclamava do que lhe acontecia.
A sua satisfação era quando o seu Abílio a levava a passear na motorizada até à Nazaré. Sentavam-se tardes inteiras a olhar para o mar. O filho só deixou de ir quando já não cabia no meio dos dois e os homens da brigada de trânsito teimaram em começar a passar umas multazinhas.
Perdoava-lhe e esquecia-se de tudo. O Abílio quando abria a boca o hálito cheirava mais mal que uma panela de feijocas estorradas. Anos e anos durou este calvário. Meteu na cabeça que devia ter uma amante e bem o fez.
Mais valia valentes cargas de porrada que o seu homem ter outra substituta para os tempos livres. Não bastava o que tinha que aturar quando o marido parava nas Fazendas quanto mais agora seguir caminho para junto da matrona. Se levava porrada começou a levar mais, não pelas bebedeiras que apanhava mas porque precisava de dinheiro e não o tinha.
O filho só exigia roupas de marca. Não estava para sofrer mais. Um dia lembrou-se de dizer que a sua «vida não era uma vida como a das outras pessoas». Agarrou nas malas e aí vai ela para junto de mãe, ali, para os lados de Rio Maior. Nunca o Abílio pensou ter uma surpresa destas.
Pena foi que o filho comesse pela tabela, sendo apanhado no meio da tempestade quando menos esperava. O pequeno sentiu o desabar de tudo. Porque lhe faltava o seu mundo foi desabafar para junto de quem nunca deveria ter ido. Hoje, vive de expedientes com os amigos para dormir debaixo dos vãos de escada que encontra pela cidade.
A prisão já lhe fez companhia algumas vezes. Como nunca conseguiu abrir o livro da sua vida, em vez de vir melhor quando saiu da prisão ainda veio pior. Sabe mais daquilo que nunca deveria saber.
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O homem do campo


Por: António Centeio

Os setenta anos de vida que já conta, praticamente foram todos passados no meio da terra. Desde que se lembra das coisas, toda a sua vida foi passada no amanho da terra. Foi da terra que obteve os rendimentos para sustentar a sua casa como os seus dois filhos. Já viu passar muitas vezes o despir e vestir de milhares de árvores. Teve anos em que a chuva ou a geada teimavam em lhe tirar os meios de sobrevivência mas nunca se amedrontou. Pouco se importou consigo próprio mas sim com quem dele dependia. Aprendeu bem cedo que a mãe natureza tanto tira como dá; funciona de uma forma que por mais que queiramos perceber nunca a entendemos. Teve anos maus que tinha de socorrer-se das magras economias para poder comprar as sementes e alimentação para o rancho da casa. Sempre assumiu os compromissos como nunca esmoreceu; sempre se levantou antes do cantar dos galos e sempre se deitou antes das galinhas dormirem. Tinha que dormir as horas que o corpo pedia caso contrário nunca conseguiria ter a tempo o proveito da terra que tinha sido apanhado no dia anterior para levá-lo para o mercado.
Um mercado diário na cidade onde todos os conheciam e onde todos confiavam naquilo que ele fazia produzir na terra. Nunca a sua boca reclamava do mau tempo ou da fraca produção que às vezes a terra teimava em não dar. Tinha aprendido bem cedo, porque lhe ensinaram, que a vida de agricultor é uma vida de escravo; bem cedo lhe disseram que «temos que poupar hoje para termos amanhã». Ensino e conselhos que guardou na sua memória para o tempo lhe demonstrar que era a melhor coisa que fazia levando-o então a nunca ter sido apanhado desprevenido. Agora dificuldades sempre as teve como qualquer pessoa. O que é preciso é ter capacidade e sabedoria para ultrapassar as partidas da vida. O maior receio que sempre teve, era quando, a água do rio teimava em subir as margens e destruía todas as plantações. Eram dias de aflição porque nunca sabia por quantos dias se manteria a cheia.
Não podia apanhar o que tinha plantado como não podia ir vender aquilo que lhe dava receitas. Nunca desanimava. Sempre soube que a vida de agricultor está sujeita aos caprichos da natureza.
Também aprendeu bem cedo que os homens do campo vivem do que a terra dá e que a pior coisa que podem fazer é ter que pedir dinheiro emprestado para o amanho da terra.
Aspecto de homem rude, olhar amargo, sempre cabisbaixo, pele toda enrugada, onde algumas rugas demonstram que os anos já lhe pesam. Tem os antebraços queimados pelo Sol. As suas mãos são escuras, de um encardido feito pelo amanho da terra cujas unhas estão pretas por a terra teimar em não sair delas. Algumas partidas, por causa dos dedos andarem sempre a mexer na terra escura. Quando as outras teimam em crescer usa logo o canivete para as cortar. Dos seus pés, um odor horrível. Não por falta de higiene, mas porque tanto no Inverno como no Verão usa botins de borracha que protegem a base do corpo do frio e da lama; que lhe faz companhia quando cava a terra que ele alimenta, mas cuja terra lhe serve de sustento; durante a época quente esconde-lhe os pés do pó da terra e das espetadelas de caules secos e bicudos ou da lama que teima em agarrar-se aos pés quando rega a terra que reclama por água quando está ressequida.
O domingo é o único dia que apenas avista a sua terra de longe, que lhe sente o cheiro, que ouve o seu chamamento mas que não lhe responde. É neste dia que de manhã vai ao templo falar com quem acredita e lhe deixa ver o nascer do Sol ou que lhe diz que em cada dia que vê o Pôr-do-Sol é mais um curto passo que dá para a morte. De tarde vai à taberna da esquina jogar algumas partidas de dominó para ao mesmo tempo saber do que aconteceu na região como ouvir as notícias da televisão. Do que ouve e vê fica a saber que outros homens com a sua profissão pedem subsídios e ajudas para a replantação daquilo que a natureza teima em não dar ou tirar. São nestes momentos que compreende – pelo que ouve – que, quem pede ajuda, mais parece doutores e engenheiros. «Parecem tudo menos homens do campo» costuma dizer para quem o quer ouvir – não deixa de ter uma certa razão – «agora já não existem agricultores ou homens do campo, existem sim: empresários, produtores disto e daquilo, proprietários de plantações ou de estufas».
Quando regressa a casa já com alguns copitos a mais que o leva a ver as coisas de outra maneira, faz todo o percurso a falar sozinho para as pedras da calçada. «Que raio de agricultores são estes que só pensam em pedir dinheiro emprestado por causas das intempéries? Que raio de homens do campo são estes que mais parecem homens da cidade. O seu aspecto mais parece mangas-de-alpaca que outra coisa!
Os tempos realmente mudaram. Até os homens já não são os mesmos» para depois continuar a dizer que «Desde que me lembro de ser gente, dos meus sete hectares de horta me sustento e sustento os meus, dei dois cursos superiores aos meus filhos, comprei um tractorzito para o amanho da terra porque o raio do cavalo já não podia com um gato pelo rabo, por tão velho ser e estes doutores em vez de se preocuparem com o amanho da terra só pensam em pedir subsídios para isto e para aquilo». Rijo como um carvalho, já começa a ter dúvidas da sua sanidade mental. Não sabe se é ele que tem razão ou se os outros são espertos demais.

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Na esquina do ansião


Por: António Centeio


A estrada nacional, não fosse ser tão longa, quase acabava numa subida. Próximo do seu fim, tem um entroncamento à direita que nos leva a uma pequena ruela rodeada por ambos os lados de velhas casas que bem demonstram que o tempo parou nas redondezas como os seus moradores são pessoas simples e que em tempos viveram dos rendimentos dos produtos dos seus bocados de terra alimentando quem dependia do que plantava. Poucos, só lá dormiam porque tinham profissões que os levavam para outras redondezas. Quase todos, no presente, vivem do pouco que recebem das suas exíguas reformas e do que ainda conseguem produzir na terra que os viu nascer. Tudo junto não é suficiente mas ajuda um pouco mais quem quase nada tem.
Na esquina da ruela, a casa está abaixo do nível do piso da rua. Para lá entrar temos que descer por um pequeno terreno rebaixado, protegido por um baixo muro que suporta o peso da artéria para ao mesmo tempo servir de quintal. A diferença de um verdadeiro quintal é que fica voltado para a rua onde todas as pessoas podem ver quem nele leva os dias sentado numa pequena cadeira que parece ter tantos anos como anos tem quem se senta nela.
Uma velha casa construída no início do século, quase a despedir-se da disposição em que está, não por ser velha ou por ter falta de conservação, mas pelo peso da idade que tem e da terra que a mantém de pé estar a desfazer-se em pó por causa do Vento que nos longos Invernos teima em reduzi-la. Espera, quem nela vive, que não fique a casa em grãos de areia, antes que ele ao pó regresse.
Já perdeu a conta aos dias de tanto se sentar no velho assento. Apenas o assusta e incomoda os dias em que a chuva e a geada teimam em fazer-lhe companhia. Nestes dias recolhe-se por detrás da porta com os olhos voltados para o fiel companheiro. Porque o tronco do seu corpo pesa nos seus membros, puxa a raquítica mesa de pinho, carunchosa pelo passar dos anos, para junto da porta e em cima da sua borda se acomodar. Como companhia, a sua velha bengala que ruidosamente marca o compasso do tempo.
Quem dela faz pêndulo, nem sabe o espaço que medeia entre as batidas, mas certinhas como um relógio. Serve-lhe também para quando quer indicar o caminho a quem lhe pergunta o que procura. Está habituado a ver parar automóveis na sua frente, para quem vai dentro, sentando no banco do lado direito lhe perguntar «onde é a casa da senhora que todos procuram e a todos ajuda?». Coisa que o dono da velha casa já está habituado mas que responde com boa vontade.
Sempre de cabeça baixa, apoiada na parte superior da bengala, que mais parece a última curva da subida de tão fechada ser ou de mirrada começar a ficar pelo uso e caricias que leva de quem nela pousa, olha profundamente para a alma de quem lhe pergunta aquilo que não sabe. Segundos absorvidos, como o tempo de uma eternidade, para de seguida dizer: «é aquela casa que está encostada à oliveira». Depois vê seguir quem já sabe o caminho para seguidamente, olhar tempos infinitos para o velho carvalho que na sua frente está – o seu fiel companheiro. Um carvalho carcomido pela doença e pela idade mas mais velho de quem está sentado. Os dois conhecem-se há muitas dezenas de anos
- mesmo que a velha árvore tenha assistido ao nascimento de quem para ela olha. Ambos, não se recordam, nem sabem, quem nasceu primeiro. Sempre se conhecerem e sempre se falaram. Levam horas a olhar um para o outro para se lembrarem das recordações da vida passada e da felicidade que esta lhes deu. Partilham o barulho do silêncio para saberem que as décadas passadas encaminha-os para as «velhas árvores que chegam ao fim com o cair das folhas nos finais do nono mês».
São nestes momentos de vazio que tristemente pensa nas pessoas que lhe pedem a luz do caminho que procuram para dizer a si próprio «são problemas que as pessoas tem mas que não sabem resolver como não encontram a solução que os leve a resolver aquilo que os apoquenta». Talvez, porque não olham para trás para depois saberem como seguir em frente. A vida é dura para alguns e penosa para outros. Desgalha-se como o Vento. A experiência da vida e o passar dos anos ensinaram-lhe que as pessoas procuram ajuda de quem sabe viver à custa dos outros ou aproveita-se das debilidades que a vida teima em dar a quem não as espera ou não as quer. No fundo, também sabe, que todos são iguais, como sabe que o que dá esperança às pessoas é, a sua enorme fé. Subam-se estradas ou desçam-se vales «quem busca que encontre o que procura» mesmo que passe entre um carvalho e um ancião que já sabe o que lhe vão perguntar, quando ele gostaria era que: lhe fizessem um pouco de companhia e dele ouvissem o que o tempo ensinou: «Os moinhos já não existem mas o Vento continua a ser o mesmo».
Disse-me, porque leu num livro chamado «Judeu Errante» que todos nós «conhecemos o nosso passado mas não o podemos modificar em nada, mas o futuro espera-nos na esquina». Também me disse, que as pessoas muitas vezes vivem dos sonhos que elas próprias criam mas que depois não são capazes de os alimentar porque são muitos os artifícios que os deuses usam para falar aos homens; para lhes comunicar os seus desígnios – só que estes muitas vezes não os sabem escutar.
Despediu-se de mim, ou despedi-me eu dele, já não me lembro, para me dizer que espera ansiosamente pela sombra escura, de maneira que o «leve de uma vez por todas» porque: depois de lhe perguntarem pelo caminho que procuram a «solidão apoquenta-o e as lembranças do que deveria ter feito mas que não fez, tiram-lhe o sono».

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Na terra da pisa da lã


Por: António Centeio


Algumas pessoas dizem que o que sucedeu «foi há mais de cem anos» outras dizem «tudo para mais de cinquenta». Uma coisa sabe-se: aconteceu.
Os tempos eram difíceis como difícil era arranjar trabalho. Era na agricultura que estava a sobrevivência dos mais necessitados e desfavorecidos. Talvez, como nos dias que correm, na altura, os pequenos proprietários que possuíam pequenas áreas de terrenos cultiváveis eram aqueles que precisavam sempre de mão-de-obra barata. Davam trabalho como podiam fazer uma maior selectividade a quem pagar menos mas que trabalhavam mais. Aqueles que não encontravam trabalho no campo tinham que viver da caridade do alheio como da ajuda do Estado, que lhes dava alimentação nas então chamadas «casa de sopa».
Na época do frio e da chuva, os terrenos agrícolas dispensavam a presença do homem, quer porque a poda já estava feita quer por a chuva ter enlameado a terra ou ainda porque as subidas da água do rio Tejo tinha ensopado tudo que era campo.
Nestas alturas, só conseguia ter trabalho os melhores trabalhadores. Eram os enxertadores de videiras os mais procurados para se deslocarem para várias zonas do país, onde a plantação da videira era o sustento de quem as possuía. Zonas que não eram banhadas pelas cheias do Tejo.
Vinham de carroça para as bandas da lezíria ribatejana procurar quem quisesse ir «podar videiras» que começavam a chorar por não terem quem as tratasse. Durante semanas inteiras, estes homens especialistas numa arte difícil separavam-se da mulher e dos filhos em troca de mais alguns rendimentos. Mesmo que poucos fossem, ajudaria com certeza quem deles dependia.
Partiam em grupo nas suas bicicletas, carregadas de mantimentos e alguma roupa. Levavam chouriços, toucinho e carne salgada de porco como ainda grossas postas de bacalhau para que em quanto, estivessem na «maltesaria» não tivessem que gastar o pouco que iam ganhar.
Sujeitavam-se a passar o pior como a alimentarem-se mal. Sentiam na pele o peso da chuva e do frio. De mãos gretadas pelo frio e vento seco, que lhes entrava pelas entranhas, fazendo com que: quanto estavam no meio das videiras, muitas vezes as lágrimas lhes corresse pela cara, de tanto frio suportarem. As suas orelhas ficavam cheias de enormes gretas já que o gelo quase as amputava. Sofriam em silêncio e mordiam os lábios revoltados contra a vida e a miséria que lhes fazia companhia.
Valia-lhes a garrafinha com aguardente que tinham sempre dentro do bolso. Era esta receita que lhes dava força e os aquecia para suportarem aquilo que o tempo teimava em dar a quem menos merecia.
A fama de tais enxertadores era conhecida. Todos os anos vinham de longe contratá-los. Eram os melhores dos melhores. Mas a abundância de uns ou a inveja de outros levam a que aconteçam coisas que mais não são do que «coisas do arco-da-velha». Pobre do homem quando é humilhado por um seu igual e mal da sociedade quando espezinha quem mais precisa.
Foi numa destas alturas que apareceu um «bem-falante» procurando vinte enxertadores para irem podar a vinha de «um importante senhor» ali para os lados de Arruda dos Vinhos. Promessas de uma boa jorna e de um melhor futuro, excepto o meio de transporte. Depois de tudo combinado e prometido verbalmente, como indicado o ponto de encontro, partiram de madrugada num determinado dia. De tanto pedalarem, chegaram ao local combinado por volta do pôr-do-sol. Bem longe do local que lhes iria servir de alojamento por alguns dias, alguém os esperava para lhes indicar o «barracão».
Seguiram o caminho indicado, depois de realmente verem que o «importante senhor» era mesmo «dono de terra a perder de vista». Quando chegaram junto da velha adega, viram que ninguém os esperava. Com o portão encostado, entraram dentro da mesma. Apenas havia dois velhos lagares cheios de palha para gado, mal cheirosa e cheia de bolor de há tanto tempo lá estar; ao fundo, duas enormes pipas de vinho, assentes em dois velhos barrotes que mais pareciam aduelas pelo peso que suportavam e do passar dos anos.
Esperaram quatro dias por ordens que nunca vieram, como nunca ninguém se aproximou deles para dar quaisquer tipo de instruções. O mais astuto e a quem mais respeitavam, disse-lhes que «isto cheira a esturro! Fomos enganados». Esperaram mais outros tantos dias.
Só o Vento frio e seco assoprava por cima das telhas de canudo que os protegia para não sentirem nos seus velhos cobertores a gélida temperatura que durante as noites teimava entrar. O que tinham levado estava a chegar ao fim. Decidiram de comum acordo, regressar ao ponto de partida. Sentiram-se usados e abusados. Não bastava serem uns desgraçados quanto mais agora serem gozados?
Pasmaram-se pelo regresso inesperado, os que não foram, como todos aqueles que tinham ouvido falar, de quem foi na busca de melhores condições. Não bastava o que tinha acontecido quanto mais agora serem «gozados pelos iguais de pobreza». A humilhação maior foi: quando começaram a ouvir vozes que diziam: «Olha, outro que foi para a terra da pisa da lã!». Nunca mais foram os mesmos como nunca mais acreditaram em quem tudo lhes oferecia. Aprenderam que muitas vezes «vale mais pescar o pouco peixe no rio que passa na frente da nossa casa que ir para junto do rio que não se conhece».

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Domingo, 1 de Junho de 2008

Memórias do Tempo




Por: António Centeio

Na pequena localidade situada entre a serra e o rio, onde nasceu Anastácio, predomina a paisagem viçosa, serena e repousante com uma luxuriante vegetação que comporta uma flora diversificada. Local privilegiado que deixa desfrutar na imensidão do horizonte uma beleza estonteante.
O seu Solar – conhecido por “Solar do Gião” situa-se na localidade de “Carril” terra centrada no coração do Ribatejo em plena região vinícola. Tem mais ou menos sete hectares que aglomera: casa de habitação, jardins, quintais, pátios e uma pequena área rural onde existe uma mina de água, uma fonte, um tanque de rega e constituída por outra de prados e por uma mata de sobreiros, alguns de grande porte. Existem ainda magnólias.
Em volta do edifício habitacional, propriamente dito, longos canteiros de hortenses que embelezam a habitação, fazendo com que nas manhãs quentes, quando se abre a janela, se inale o aroma que das roxas flores vêm. Bem de frente do quarto de Anastácio um enorme e velho Carvalho.
Plantado que foi pelos antepassados, os seus ramos alongam-se como mão de gigante. Nas noites invernosas em que o Vento teima mostrar que é a força do mundo assusta tudo e todos. Nos dias em que o Sol volta ao baixio, os raios rompem os espaços vazios das folhas. De longe, pequenas fitas imaginárias de neve atravessam os caminhos livres até se reflectirem no interior do quarto de Anastácio.
São estes momentos em que a alegria penetra na alma de quem dentro dele vive ou: quando criança levava-o a pensar que um dia quando fosse crescido seria como os homens que conhecia ou ouvia falar. O destino barrou-lhe o caminho, ou os sonhos.
Numa tarde de Verão partiu na sua moto em direcção ao Sudoeste alentejano para assistir ao seu primeiro “Concerto de música”. Até os raios da motoreta brilhavam como as silhuetas mágicas do Sol quando perfurava o velho carvalho. Sentado, apreciava a beleza da planície alentejana.
No silêncio da própria calma, tudo parecia uma miragem. De vez em quando lá via algumas vacas alternando com cavalos e cabritos. Deslumbramentos que faziam com que nada lhe ficasse indiferente.
Anastácio sempre se deixou seduzir pelos efeitos das paisagens. Nunca se esqueceu do dia em que o pai o levou a um dos «largos mais bonitos do mundo» segundo ele. Na Praça do Geraldo, perto do pôr-do-sol, viu os raios de luz poisarem fugazmente no chão.
A viagem decorreu com alguma normalidade e paragens. De tempos a tempos anotava mentalmente os quilómetros que faltavam. Já era madrugada quando viu um vulto no meio da estrada, cambaleando ora para um lado ora para o outro. Um vulto maldito que fez com que tivesse um grave acidente. Não se sabe se era uma pessoa se uma coisa de “outro mundo”.
Resta a Anastácio passar o resto da sua vida sentado numa cadeira de rodas – tal foi o acidente – olhando para o velho carvalho que o amedrontava quando criança, como toda a família pelo barulho que fazia quando o Vento o tentava derrubar. Agora os galhos do arbusto de tanto assustar, fazem com que as noites pareçam fantasmas, que não existem, mas que passaram a haver. Apenas os raios solares se atrevem a deslumbrar quem na sua meninice passou momentos únicos e inesquecíveis.
A velha árvore para mais amargurar quem não a viu nascer e muito menos ser plantada, teima em mandar para o cimo da terra as suas fortes raízes, rachando a terra que já nem peso têm.
Resta-lhe a memória, quando da infância, a parte do tronco madeireiro transformar-se em arco para formar a entrada do jardim numa cerca, ou a lembrança de: um mar salgado e alegre que se agitava contra os barcos, a que os nazarenos chamavam de “galeões” quando voltavam para terra carregados, cheios de peixe.
No futuro, os velhos ramos deixarão de se vergar sobre o peso das gotas da chuva, quando Anastácio meditava na grandeza da natureza.
A vida já lhe vai longe, ou tão perto, que vê permanentemente a linha que finaliza toda a corrida que fez – outra continuará ou terminará. Enquanto não chega ao fim, de tudo o que fez e teve, a vida continua a sorrir-lhe, talvez de uma forma ingrata e inesperada.
Aprendeu com as vicissitudes do infortúnio: - se necessário, há que olhar para as feridas aparentemente curadas e voltar a abri-las quando a dor já nem força tem para fazer doer.


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Manuelito teve a infelicidade de falecer num país distante


Por: António Centeio


A diversidade da vida nem sempre é justa para os seres humanos já que recusa algumas vezes amparar os mais desfavorecidos. Não bastasse, ainda costuma fechar as portas quando deveriam estar abertas para quem a vida nem sempre sorri ou não avisa com antecedência das partidas que vai pregar.
Foi assim que aconteceu com Manuelito. Quando criança guardava tudo e mais alguma coisa para que quando fosse grande se chamasse “guardador de sonhos”. Dizia a quem o quisesse ouvir de que não morreria enquanto vivessem os seus sonhos. Talvez aqui a razão da sua inquietação e ser fugídio como a areia do Vento. Nunca parava quieto e queria ir sempre mais longe. Até o professor o admirava. Não por ser um aluno brilhante mas pela simples razão de saber falar o difícil de forma fácil.
Aprendeu bem cedo que a vida retoma o seu curso mas que, se soubermos, podemos alterá-lo. Se para o bem ou mal eis a dúvida de quem o tenta fazer – muitas vezes deveríamos «deixar a água seguir o seu percurso».
Era quase um homem quando descobriu que «todas as estradas que encontramos na nossa vida são caminhos. Nenhum é o nosso destino». Foi este destino que lhe deu a infelicidade de falecer num país distante. O destino é meada de muitos nós. Razão tinha o poeta «Quando chegamos à encruzilhada o que fizermos irá afectar toda a nossa vida».
Partiu bem cedo para a ilha longínqua em busca de melhores condições porque não as encontrava nas suas bandas. Queria dar aos filhos aquilo que nunca teve. Pouco tempo teve para amealhar um melhor sustento e conforto de quem por cá deixou.
Ao atravessar uma avenida, enquanto metia a carteira no bolso de traz, depois de uma olhadela na fotografia do filho mais novo, num ápice descuidado, um carro ceifou-lhe a vida. Para que o seu corpo pudesse regressar à terra que o viu nascer, alguns milhares de euros foram precisos, caso contrário seria cremado para lá do “sol de Espanha”.
Para quem fez da vida um luta permanente e que para ultrapassar os obstáculos era capaz de os contornar, nunca conseguiu prever – enquanto vivo, as mudanças e as partidas que a vida prega a quem menos espera.
Foi num dia frio que o corpo de Manuelito regressou para ser sepultado na cidade.
No mesmo dia milhares de pessoas souberam que a transladação do corpo daquele infeliz só foi possível regressar, porque a dor profunda e a teimosia dos seus familiares, com a contribuição anónima de um povo sensível que está sempre pronto a apoiar quem mais precisa nos momentos de infelicidade, conseguiram angariar meios e obter a força necessária para inverter aquilo que Manuelito nunca imaginou um dia poder acontecer.
A frivolidade burocrática e o abandono que os mais desprotegidos encontram por parte de quem a gere acaba por nos envolver a todos e a revoltar-nos contra o sistema que mais não é do que: frio, sem qualquer sentimento, para lacerar a nossa sensibilidade ao ponto de em determinados momentos se transformar em raiva porque quem dirige não sente a ferida bem aberta de quem sofre, desculpando-se na distância ou normas, das quais, todos sabemos que: para uns funciona de uma maneira muito especial, para outros, de maneira diferente.
Por mais que nos queiram apregoar o bem-estar da sociedade, nem sempre as coisas são como parecem, porque na hora da verdade, sabemos destrinçar a verdade da mentira.

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Gervásio, um excursionista exemplar


Por: António Centeio


Gervásio quando entra na camioneta da carreira sabe que a viagem vai ser de galhofa. O percurso leva-o ao alto da vida para poder ver, mais os outros, que tudo cá em baixo é mais pequeno.
Sempre com um sorriso na cara, mesmo que recentemente tenha perdido aquilo que mais adorava na vida, o seu filho. Diz a quem o acompanha que as tristezas não nos devem ficar para sempre, porque caminhando em direcção àquilo em que acreditamos, estamos a deixar para traz etapas que a vida nos obrigou a terminar, mesmo que, algumas corroam as nossas profundezas e possamos sentir que de dentro de nós, tiraram a frio, algo que nos era muito querido.
A vida é cheia de contornos, alguns bem difíceis. A nossa grandeza e superar aquilo que nos apoquenta para que a vida continue o seu ritmo e, que quem cá fique, encare a tragédia como um beneficio, ou: um reforço para que tudo ande para a frente.
Tem todo o tempo de mundo livre já que deixou de dar satisfações a quem, quase levou a vida, maior do que aquela que o filho teve, a exigir-lhe tudo e mais alguma coisa.
As coisas mudaram de tal forma que Gervásio todas as semanas vai passear na camioneta da carreira que faz excursões, cujo responsável é um vizinho seu, mas por pouco tempo, porque em breve vai viver ali para os lados da serra. Construiu uma pequena vivenda voltada para o enorme montão de pedras, protegidas de verdura agreste e de algumas árvores selvagens. Quando abrir as janelas o ar puro vindo da serra, vai-lhe entrar pelos pulmões adentro.
Enquanto não deixa a casa em que viveu muitos anos, como aqui criou seus filhos, que se fizerem uns homens graças aos bons princípios e educação que receberam, vai dando conselhos a quem olha pelos seus bens enquanto ausente, o vizinho Gervásio, como gosta de dizer.
Dos programas que a sua agência organiza mensalmente para as semanas do mês seguinte, escolhe as melhores e mais económicas para que o seu amigo e vizinho, por pouco tempo, possa esquecer o passado e viva no presente. Assim, o caminhante não precisa de se deslocar ao centro da cidade, onde se situa a representação, para ver os cartazes com lindas paisagens, de encantar até um cego.
Talvez como agradecimento por quem olha pelo que é seu, sem nada pedir em troca, traz-lhe os folhetos para que faça quatro escolhas. Depois de escolhido e aconselhado por quem sabe da coisa, limita-se a indicar e a comprometer-se quando ao devido, o respectivo pagamento, para que tudo fique assente e guardado o lugar do primeiro banco da camioneta, de preferência, o que fica por detrás do condutor, porque assim leva a viagem na galhofa e pode ver tudo como o motorista.
Quando lhe dá na vinheta, levanta-se para se colocar no corredor, puxando pelas castanholas, fazendo com que estalem para acompanhar o som com coisas flamengas – memórias que herdou de seu falecido pai, que em tempos, andou na guerra civil de Espanha.
Os acompanhantes, escutam e sorriem para depois num desvario comecem todos a mandriar contando anedotas e outras tonteiras que o motorista ás vezes até chora de tanto se rir.
A meio da viagem, em hora já determinada, com a devida antecedência, depois de proposto o local, a camioneta deixa de caminhar, a fim de dar descanso ao motor, permitindo assim aos viajantes que puxem das suas cestas e outros apêndices, para assente em longas toalhas, ou cobertores, ser espalhado tudo aquilo que de casa veio para confortar os estômagos vazios que vêm doridos de tanto riso. Os acepipes são expostos para que todos se sirvam e saboreiem o que cada um fez. É o melhor momento do convívio, porque ninguém repara no que trouxeram mas comem o que é de todos.
No final do repasto, é hora de exibição. Todos têm que mostrar os seus dons e habilidades escondidas. Aos que não tem jeito, são-lhe pregadas partidas. De desfeitas, ninguém como Gervásio para as fazer. É um mestre de boa disposição e quando não a têm, engendra-as, não só para ele como para os outros.
Inventa coisas do arco-da-velha, algumas vindas do lado de lá de Espanha, que todos acreditam, tal é a expressão e os sestros utilizados. O que interessa é reinar a boa disposição e a galhofada, mas de maneira que a vida de cada um não se misture com a diversão.
Reiniciada a viagem e feito o percurso como visitados os pontos que foram a causa da jornada, o regresso previsto é feito dentro do combinado.
Foi no regresso, que viram o Sol a ficar cinzento, ali para os lados da serra de Mira. Primeiro começaram o ver uma coisa que parecia um furacão para pouco depois se transformar em nuvens escuras.
Sem saberem como, já o Céu tinha mudado de cor, ficando com um escuro que amedrontava quem viajava como que tudo parecesse o fim do mundo. O cheiro que entrava pelas aberturas das janelas cheirava a fumo. Um fumo que os incomodava e que lhes fez perder o pio.
A serrania ardia como uma desalmada porque lhe faltava um estreito ou um atalho. No sentido contrário, subiam carros de bombeiros com uivos mais altos que os lobos. Quando se cruzaram, todos se arrepiaram por causa do som das sirenes das viaturas vermelhas, que pareciam teimar em não querer subir a serra, quando do lado de lá, pessoas mascarradas de carvão, gritavam por socorro e indicavam com as pás qual o caminho a seguir.
Chegados à cidade, todos perguntavam o que tinha acontecido ou se tinham visto alguma coisa, porque a cidade estava em alvoroço. «Uma desgraça como nunca vista, senhores! A serra arde e os animais fogem como uns desalmados pelas cercanias da serra e pelos valados. Doidos varridos pareciam os bichos. De tal forma que um de tão cego vir da floresta, focinhou na frente da nossa camioneta para depois morrer todo esfarrapado, tal era a sua cegueira».

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Azares da vida



Por: António Centeio

Os azares batiam-lhe à porta como as folhas a cair das árvores no Outono. Não sabia de onde vinha tanta desgraça como se alguma praga lhe tivesse sido rogada. Quando acordou nem queria acreditar no que a esperava. «Oh, diabo, que aconteceu por estas bandas?».
Na coelheira estavam tesos a meia dúzia de coelhos, que com bagas esquisitas – vendidas na mercearia do Felisberto – eram alimentados.
«Isto foi alguma desgraça que aconteceu ou um mal que veio com a noite, pois os bichos estavam ainda ontem despertos como um toutiço para agora estarem de pernil esticado».
Chamou a vizinha Benvinda para que assistisse com seus próprios olhos ao que esperava dentro de dias, matar um deles, quando sua filha viesse passar o fim de semana com a mãe, depois de estar quase á seis meses no Porto, onde vivia, sem lhe dar noticias.
«Logo esta desgraça agora, vizinha, quando a minha menina vem passar uns dias comigo», respondendo-lhe a quem com ela vivia a paredes-meias «não se preocupe que lhe dispenso alguns dos meus».
Pirilampos vindos do lado da vala acendendo pequenas luzes como quem anda a apanhar gambuzinhos, só podia ser quem tanta desgraça trouxe a quem tratava dos bichos com tanto carinho.
«Raios parta esta vida que às vezes nem vale apena viver! Tanto sacrifico para numa noite tudo se perder. Até parece que me caiu a desventura em casa quando não fiz mal a ninguém?»
Por mais que consolasse, sua vizinha falava para as paredes por tão pouca atenção lhe dar quem a tinha chamado.
«Então não se lembra do que me aconteceu a mim, antes do S. João? Os malfadados dos bichos não me entraram pela rede mosqueteira e não me morderam os bichos que estavam tão cheios? Oh já não se lembra? Deve ter sido a mesma coisa que aconteceu aos seus. De inveja sua pensei ser o mal, porquanto os seus respingavam crescer enquanto os meus definiam. Até pensei que alguma reza amaldiçoada me tivesse rogado, mas vejo que não, porque a desgraça aqui tombou»
Valia-lhe o galináceo que tinha nos fundos, bastando que apanhasse uma ou dois, para quando a nortenha chegasse um bom “frango no forno” lhe fosse dado. No meio do bichesa, de tudo um pouco havia.
Bastava que as maiores de crista vermelha ou de pescoço pelado, a mão lhe deitasse, amanhando-a pela manhãzinha para que a filha soubesse que a carne castanha é melhor do que a branca.
«É das farinhas filha e dos restos das couves que lhes corto aos bocadinhos para as juntar com as cascas da melancia! Não as alimentasse assim e ias ver como a carne das galinhas não prestava para nada? Julgas que aquela mixórdia que o Felisberto vende presta para alguma coisa? O que ele vende mais não são que restos de sêmeas, da mais ordinária que há. A sua ganância pelo dinheiro leva-o a vender gato por lebre.
Ainda a semana passada a vizinha padeira o viu a meter uma coisa esquisita no azeite que nos vende para trocar o grau do azeite e enganar os fiscais».
Mas comprava-lhe o que dizia fazer mal aos bichos. Nem sempre tinha para alimentar a criação com restos de comida, porque desde que o marido morreu e a filha partiu lá para cima, deixou de fazer paneladas de couves como a horta deixou de produzir «por via da falta dos braços do homem».
Não lhe bastasse a maldita das cruzes, que de tempos a tempos a deixava de rastos, cujas dores eram tantas que até pareciam chuva de estrelas cadentes a cair-lhe em cima, quanto mais agora o mal do coelhos, que lhe tinha dado um trabalho de inferno a criar. Estava à beira da sexta feira, véspera do dia em que a filha chegava, para depois de almoçar, ter pegado no avental, enfiando-o pelo pescoço abaixo e metido no bolso a faca, segurando de seguida o alguidar para apanhar as duas melhores galinhas, que lhe vinham fazendo a vida num inferno de tanto saltarem para cima do muro da vizinha. Sem saber como, desciam como pássaros fossem para depenicarem o couval da Benvinda, que a levava a chamar nomes esquisitos aos bichos, ou à sua dona, que em abono da verdade, muitas vezes fazia ter ouvidos de mouca para não responder a quem lhe chamava de desleixada, continuando assim a boa vizinhança.
Caminhava para o galinheiro, quando entorpeçou no raio da pedra que servia, com outras, de calçada ao seu quintal. O alguidar fez-se num fanico e os cacos voaram por tudo quanto era sítio. Valeu-lhe a faca não estar com o diabo, senão tinha-lhe furado o ventre.
Em fanico deveria tornar-se quem lhe rogava pragas que fizeram com que nem acreditasse no que estava vendo em frente com os seus olhos de pitosga. As aves tinham esticado o pernil como uma enxurrada de enxofre ali caísse.
Ainda não se tinha recomposto daquilo em que não acreditava para ouvir os gritos de catástrofe, vindo do lado de lá do muro. O mal tinha-se espalhado na criação da Benvinda e não só.
Espiolhado bem as causas e informadas pela vizinhança de ter sucedido o mesmo sintoma a quem criava bicharada, só havia uma conclusão: o mal estava no fornecido pelo merceeiro.
Descampou a rua em peso na loja do dito, que prometeu fornecer de galináceos a quem ficou sem eles como mudar de marca das sêmeas que algum garoto doidão em acto de malvadez, envenenou com substância desconhecida, levando assim que nenhuma ave da ruela escapasse em epidemia que por ali desaguou em dia de bruxaria.
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Estranhos caminhos que a vida nos dá











Por: António Centeio





Nos seus olhos azuis podia-se ver aquilo que era. Além de bonita, também era inteligente. Duas coisas não muito comum em determinadas pessoas. Não era de ninguém mas nos seus olhos lia-se a eternidade de sempre. A solidão e a angústia foram a certeza dos seus encantos.
Apenas lutava para ter a certeza da sua existência. Dizia muitas vezes “não és a minha outra parte”. Só por isto, ensinou-me que a coisa mais importante da vida é “quando encontramos aquilo que procuramos sem renunciarmos todas as outras”.
Lembrar-me-ei dela durante toda a minha vida. Ela lembrar-se-á de mim. Assim como nos lembraremos do entardecer no vidro da janela, o cair da chuva e das coisas que teremos sempre mas que não podemos possuí-las. “ Esquece-me”. Respondia-lhe - nunca!
Nunca a esquecerei porque filosofávamos muito e porque «as coisas nem sempre são como queremos».
Isa, de seu nome, tinha como companheiro OTIS. Este apenas gostava de mim e via na minha pessoa aquela diversidade que nem sempre aparece no carisma dos seres humanos fazendo com que os mesmos vivam numa solidão eterna, não pensando nos dias de amanhã. Mas a intuição ensina-nos a conhecer a linguagem secreta que nos é útil nos momentos difíceis da nossa vida.
Nas “águas furtadas” do terceiro andar, a Lua Cheia tinha outro encanto fazendo com que a vida fosse generosa para nós e sempre pronta a dar-nos mais.
Estes momentos de experimentar o amor intenso devora quem ama e a gente não precisa de subir a uma montanha para saber se ela é alta.
Seus olhos derramaram lágrimas para magoar o coração de alguém. Dela, aprendi que a paixão não é como o amor. Dizia, que nos livros se aprende que a primeira apenas dura seis meses enquanto a segunda é eterna. Mas o amor causa a dor da separação para que a semente possa nascer de novo.
Hoje, as lágrimas de seus olhos ofuscam a paisagem desoladora de um rio em tempos tão amado e hoje recordado na memória de quem o viu.
A sua água entrou nas entranhas de quem por tantas vezes passou nela porque quando se viaja em direcção a um objectivo é muito importante prestar atenção ao caminho. O caminho é que sempre nos ensina a melhor maneira de chegar e enriquece-nos enquanto o estamos a cruzar.
Tinha a grandeza e a fama de ter uma mãos maravilhosas para que os seus pacientes não a ignorassem, mas a independência que queria nutria por ela a falta de uma liberdade nunca retirada. Esta capacidade de manter a sua personalidade foi a raiz profunda para que o homem nunca pare de sonhar. O sonho é o alimento da alma como a comida é o alimento do corpo. Muitas vezes, na nossa existência vemos os nossos desejos “frustrados” mas é preciso continuar a sonhar, senão a nossa alma morre.
Resta-me a esperança que OTIS se lembrará sempre de mim e que encontre na sua sabedoria e esperteza o mistério em como nos havemos de encontrar no brilho das estrelas e no encanto da lua. Lua esta que sabia reflectir na pequena janela do telhado a beleza do amor. Hoje resta-nos o silêncio para a meditação da solidão.
Timor era a sua meta para me deixar, mas nunca a atingiu porque afinal o sofrimento bem perto estava de sua casa e não havia necessidade de ir para Nascente.
Estranhos caminhos estes que a peregrinação nos dá. Tudo ficou distante no dia em que a voz nos atraiçoou e que as lágrimas foram apenas o elo de ligação para uma amizade que continua suspensa por uma questão de feitio.
Descobri que posso nascer quantas vezes quiser até os meus braços serem suficientemente grandes para abraçar a terra por onde andei e um dia voltarei. Afinal todos os caminhos são mágicos se nos levarem aos nossos sonhos.

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Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Daniel, o amigo dos pássaros



Por: António Centeio

Daniel é um miúdo desinquieto que mais parece uma enguia. Por mais que ralhem pior faz. Tem meia dúzia e poucos anos mas já sabe mais que alguns adultos. Nos dias longos, arma-se de espadeiro, e vai daí, com um bocado de pau a imitar uma cruz, parece um espadachim na baixeza do mar. Meteu na cabeça que as ondas têm medo dele, que em vez de lutar com espécies de gente como ele guerreia com o mar. Não deixa de ser mau rapaz. Tem apenas o feitio dele.
A mãe tem um pequeno bar à beira-mar onde vende um pouco de tudo e mais alguma coisa, porque o marido em devido tempo, marimbou-se para ela e para o filho por causa de uma descoberta que teve com uma matrafona qualquer que lhe soube dar a volta, pouco se importando dos estragos que deixou para trás como de quem ia sofrer com as consequências.
Então não teve outro remédio que pedir licença ao cabo-de-mar que lhe permitisse abrir a barraquita para sustento do seu filho esguio, pedindo em troca a quem manda nas bordas do mar, que tapasse os olhos ao que os homens da capital deliberam, de maneira a que não tivesse de ter um ou dois miúdos crescidos para fazerem de nadador-salvador caso contrário, os trocos ganhos ao fim do dia levavam um corte que mal daria para os ganhos da casa e sustento do filho, para além de ter que pagar os estragos que este entendia fazer quando os veraneantes andavam de férias.
As boladas que o entorpecido mandava de tempos a tempos para cima dos que descansavam, depois de uns meses a trabalhar, acabava sempre nalguma geladeira partida ou pratos, que tinham no seu interior papas para os bebés, voltados de pernas para o ar.
Tudo acabava num valente ralhete de quem era dono do atingido ou em meia dúzia de tabefes, quando não dava origem a algumas correrias pela areia, de maneira que o adulto desse pela grossa a quem fez os estragos.
Como quem não quer a coisa, ou após reconhecido o descuido de algum banhista, a espaços de tempo, lá surripiava um telemóvel, que a coisa até têm uns jogitos, e sempre, lhe dava a graça de falar com desconhecidos. Se o ouvinte lhe perguntasse quem era ou como estava em posse de tal objecto a resposta algarviada era sempre um esmerado conselho «Tem alguma coisa a ver com isso?».
Se farto de falar, ou de lhe cortarem o pio, o mesmo embarcava logo, sem destino marcado, nas águas do oceano.
Fora disto, Daniel é um pacato cachopo que nos dias mais escuros fica sempre nostálgico, fazendo grandes caminhadas junto ao rebentar das ondas.
Tantas, que às vezes atravessa o areal de uma ponta à outra. Em vez de olhar no horizontal olha para a areia, dando pontapés, como que, de debaixo desta, viesse algum telemóvel desaparecido ou amêijoa.
Com o boné metido na cabeça, de pala para trás, sempre que ouve o barulho de alguma gaivota, branca ou cinzenta, abranda o passo para apanhar a mais desprevenida. Tentativas levadas pelo Vento mas que fazem com que nunca desmereça. Um dia satisfez a vontade. Quando repetia as passadas e os hábitos, houve uma que o esperava, nem queria acreditar.
A meia esguelha, o pássaro olhava-o de frente, levando que perguntasse a si próprio, se era verdade o que estava vendo. O raio do bicho, nem uma nem duas. Apenas tinha o corpo meio inclinado como um barco quando assente na calha. Apanhou-a antes que levantasse asa.
Foi quando viu que a pobre ave tinha uma asa partida. Levou-a logo para o «Bar do Cachucho» para mostrar à mãe e lhe pedir, que a dita passasse a fazer parte do património. Sempre chamava mais clientes e curiosos. «As crianças vão querer vê-la, mãe! Sempre compram mais uns geladitos e os trocos aumentam aí na gaveta do cascalho».
«Nem penses meu marafado duma figa! És tonto ou quê? Os clientes até iam pensar que a barraca é algum galinheiro. Põe-te a andar daqui para fora com a porcaria da gaivota. Não a quero ver aqui, nem a ti».
Durante dois dias, a pobre alma percorreu a praia e arredores em busca do desalmado filho que não lhe dava sossego nenhum, pregando-lhe agora uma partida, já que nem lhe disse para onde foi como das razões da ausência.
Não bastava já o «desmiolado do fulano lisboeta ter aumentado os impostos, que arranjou a maneira dos clientes, em vez de comprarem alguma coisa, só se queixarem do aumento e da crise» quanto mais agora lhe desaparecer o miúdo.
Quando se apresentou na esquadra contando o sucedido, os policias em vez de a animarem deram todos numa risota e galhofada que a pobre mulher já não sabia se «estava tonta ou se a estavam a fazer de maluca».
Todos conheciam o raio do rapaz, que de vez em quando teimava em fazer partidas a quem descansava, obrigando os agentes a fazer com que os visitantes desistissem da queixa, senão era uma trabalheira preencher o auto, visto que o bedelho era menor e daqui, os incómodos que daria como os transtornos que causaria aos adultos. Tudo lá se resolvia amigavelmente, sem ninguém ser prejudicado, para acabar tudo em família, depois de aplicados alguns açoites no moço.
Mas quando a «mulher da tasca» como lhe chamam, os ameaçou que ia imediatamente fazer queixa aos superiores, lá se propuseram fazer uma busca ao fugitivo. Levaram mais três dias a encontrá-lo. Estava encaixado dentro de uma gruta, a caminho do início do Barlavento.
Dormia como uma pedra, tendo a seu lado a gaivota, que estava «tesa como um carapau» assim disse o mais graduado, tendo a mãe pedido desculpa de tais transtornos, mas o «corno do cachopo não ganha juízo de maneira alguma».

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D. Josefina, uma dona de casa toda arrumadinha


Por: António Centeio

Do que me pagam todos os meses dá-me para viver dignamente. Nalguns, sobra noutros falta. Não diz quanto recebe de reforma mas todos sabem, assim é público, uns trocos irrisórios como escarnido é o seu frágil corpo.
D. Josefina, de seu nome, porque de apelidos oriundos de um passado nobre já lhe basta a tristeza. Foi em tempos, que já não voltam, uma mulher séria e trabalhadora. Com olhos de cor do mar e cabelo sedoso, que mais parece barrado de prata, as suas rugas não enganam como atestam que todo o passado foi vivido numa amargura constante.
Recorda a quem a quer ouvir que a força que tem mais não é do que aprendeu nas palavras de Aquilino. Deram-lhe a conhecer que por toda a parte o povo é carneiro de tosquia. Pouco se importa porque nada já tem para se tosquiar mas mesmo assim continua a ser uma mulher ordeiríssima como Barnabé à altura defendido pelo Dr. Lobão por o quererem acusar de incendiário da Serra dos Milhafres.
Uma reformazita miserável que nem lhe dá para comprar a quantidade diária de leite e pão porque os medicamentos levam-lhe o que ela diz dar para viver dignamente. Pobre dignidade e pobre miséria que por aí anda escondida.
Tem vergonha que os outros saibam que vive numa extremosa pobreza pois o orgulho e a vaidade da sua beleza, vinda de outros tempos, não lhe permitem que descure para terceiros o que a vida lhe tem negado.
Não lhe bastava a desgraça que amainou na barraca em que vive, para quem lhe pergunte onde mora, a fim de lhe levar alguma coisita, responda que numa casa sua, de asseio, para os lados dos ‘Moinhos de Vento’.
Agruras de vergonha e de mentiras para que todos julguem que a sua vida é como as pessoas normais, quando na verdade, vive na extrema miséria, levando a sua dignidade a ter que mentir e fazendo crer a quem a conhece que ninguém sabe daquilo que todos sabem: da sua miséria.
Os pobres também tem as suas regras e as suas defesas para além da vergonha de mostrar aos outros o seu próprio mundo como o seu sorriso desdentado. O pior é quando o mundo real finge que não conhece quem dele faz parte.
Nas noites escuras e assustadoras, veste-se de um luto carregado com um xaile mais preto do que o preto, escondendo a cara no meio de um lenço triangulado de vergonha para que não se core por uma qualquer alma viva que são o seu tormento. Mal põe o pé de fora do portal, olha para aqui e bosbulha para acolá. Nada vindo de além, puxa a porta e atravessa ruas e ruelas, travessas e travessinhas. Pé ante pé não carrega nos sapatos apantufados, não vá o Diabo estar nalguma esquina. De muito longe apenas avista o negrume vindo da serrania. Pouco lhe importa.
Conhecedora dos locais onde estão os melhores contentores de lixo, daqueles que recolhem o que de outros sobrou, apanha com o varapau, que a acompanha sempre, as latas e latões para depois as ensacar na recomida saca que em tempos protegeu aquilo que do Chile veio para o amanho da terra.
Chegada ao casario junta o que apanhou ao que já tem vindo a acumular. Mais dia, menos dia da quinzena seguinte, pela calada da noite, aparecer-lhe-á o velho Toinho com a sua carripana, dando-lhe de troco uns míseros cêntimos como pagamento do pouco que levar já que a vida cada vez está pior. Um comerciante que compra tudo e mais alguma coisa, desde que seja: ferro-velho ou peles secas. Engana-se nos pagamentos e finge ser enganado pelos que se julgam manhoso e astutos.
Os desamparados da sorte, ou da sociedade, sabem que podem vender tudo ao Toinho porque tem sempre umas moeditas perdidas no bolso para dar como contrapartida por dez o que vale cem. Mesmo assim, continua a ser um fraco negociante que não há meio de deixar a carroça e a besta que de tantos já ter no pêlo, mais dia menos dia deixa de calcorrear os velhos caminhos fazendo com que o seu proprietário deixe a actividade por falta de rendimentos e transporte.
Vocemecê ainda goza com a miséria dando-me estas moedas preta quando sabe o que me custa e envergonha andar por aí aos caídos!
O comprador cansado da cantilena da velha rabugenta aconselha-a a dedicar-se ao esbulho do alumínio que é mais rentável. Que coisa é essa e onde encontrar seu velho chafurdeiro?
Passado algum tempo, próximo dos prédios que fazem esquina com as ruas, muito alumínio desapareceu para acabar de cessar no dia em que o presidente da edilidade decidiu que haveria de apanhar quem roubava os sinais.
Não queria acreditar no que viu. Valeu a quem os mudava de sítio, ser de estima para quem mandava, caso contrário D. Josefina estaria agora internada nalguma casa de demência, daquelas a que chamam dos doidos.
Porque os apelidos também tem um preço, mesmo que muitas vezes valham mais quem os carrega, o edil fez com que por quem tinha estima, se albergasse, por prazo indeterminado, num dos lares que existem na cidade, onde o conforto consola e a mesa abunda para quem foi recomendado por tão ilustre governante; daqueles sítios onde não há tosquia e de maneira alguma pode haver protestos, quer por quem é servido ou por quem serve. Pena que não seja assim para todos porque os desprotegidos, ou sem carta de recomendação, vivem com pés de barro no meio de uma casa de bronze como a estátua de Nabucodonosor.Ainda o Sol está do lado de lá de Espanha e já está sentada numa velha cadeira, carcomida pelo tempo, olhando para um horizonte vazio. Talvez esperando pelo cair da folha ou pela sombra de uma qualquer noite escura que a embrulhe num lençol branco levando-a para a terra das mindericas como de Minderico continua a ser o seu apelido.

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D. Albertina e o seu desplante


Por: António Centeio

Abel e Afonso são amigos inseparáveis. Moram na mesma rua desde que se lembram de ser gente. Andaram na escola juntos como ao lado um do outro passaram quase quatros nas matas de Moçambique, na década de sessenta.
Em épocas adequadas costumavam ir com as canas de pesca, mais os respectivos apetrechos, para os lados do Dique dos Vinte fazer pescaria para em silêncio falarem de tudo e mais alguma coisa, mesmo que só lhes faltasse falar das suas próprias famílias. Como a coisa não dava para a deslocação, deixaram de pescar para levarem parte dos dias, fazendo longas caminhadas, que isto dos ossos estarem parados tem muito que se lhe diga.
Como lhes disse o médico de família «a ossada foi feita para ser utilizada e se quiserem durar mais alguns anos pratiquem ginastica e longas caminhadas. Se lhes apetecer dar cambalhotas dêem-nas que só faz bem». Das três opções escolheram as passeatas. Sempre correm a cidade e vasculham tudo que é sítio para que nunca estejam parados.
Às vezes sentam-se nos bancos do jardim para ver a rotina de quem todos os dias repete a mesma coisa. Sabem a que hora passa este e para onde vai aquela. Se algum novato ou novata aparece nos percursos da rua, armam-se logo em detectives para seguir os passos a fim de que possam saber de onde vêm e para onde vão. Logo anotado na agenda, a causa deixa de ser importante para passar a anomalia se a dita pessoa deixar de passar pela zona. Das duas uma: foi de férias ou aconteceu-lhe alguma.
São daqueles amigos que se preocupam muito com a vida dos outros, porque lá bem no fundo, nem tempo tem para olhar pelas suas ou dos seus problemas, que também os tem.
O que gostam mesmo de fazer é, em dias escolhidos da semana, na hora exacta do meio da manhã, estarem nas arcadas do Tribunal para depois seguirem os passos da D. Albertina que costumeiramente caminha em direcção da Pastelaria do Bonifácio.
Bem penteada, com o seu cabelo, preso em rabo-de-cavalo, enlaçado numa geringonça qualquer, bem vistosa e elegante, vê tudo e todos sem ninguém lhe ver a cor dos olhos, como o Abrunhosa, porque as lentes dos seus óculos de sol, de tão escuros ser não permite que se vejam.
Descem a rua, chegando antes dela ao local, por via dum atalho que encurta o percurso.
Quando chega ao estabelecimento, já Abel e Afonso fingem que lá estão há muito tempo. Sentados na mesa habitual, aparentam que lêem as notícias estampadas no papel, mesmo que sejam do mês anterior.
Pouco lhes interessa as notícias do pasquim, o que querem ouvir é a cantadeira de quem vai chegar e da forma como pede solicitamente o habitual da manhã – da tarde não sabem eles – já que na parte final do dia a rota dos ditos é outra.
Gostam muito de caminhar até ao Modelo para verem quem chega, o que compram e quem parte. De tempos a tempos encontram alguém conhecido e vai daqui, começa uma cavaqueira que só termina quando a hora da janta de aproxima, descontado o tempo do regresso, porque nenhum deles pode chegar atrasado ao encontro familiar em volta da mesa.
Aconteça o que acontecer, na hora das notícias, toda a família tem que estar junta para em conjunto saberem o que aconteceu nas nossas bandas ou no mundo. Claro, que aqui, cada um vai para sua casa e para junto dos seus.
A espera que fazem a quem passa por debaixo das galerias frontais ao Tribunal, mais não se deve ao facto e à forma como D. Albertina pede o que deseja ao conhecido confeiteiro. Todos os dias se repete a cena para os actos serem diferentes
O que chama a atenção de todos, mas essencialmente dos caminhantes, é a forma espalhafatosa como pede o habitual do dia. Todos ouvem, alguns sorriem e outros criticam as atitudes da madame.
- Sr. Bonifácio, por favor! - Exclama quem acaba de chegar, que nunca se senta em mesa alguma, talvez para que o corpo não se dobre ou não mostre as partes superiores das elegantes pernas, porque a saia ou o vestido deve ter minguado em noites de lua cheia.
- Diga minha senhora, que deseja para hoje? - Dando a impressão que o vendedor não sabe a cantilena do costume.
- Uma Bola de Berlim com creme e um café sem açúcar porque tenho que manter a linha!
- Concerteza minha senhora, assim será feita a vossa vontade! – Para de seguida, velho Bonifácio que já mal pode com os sapatos por causa do passar dos anos sorrir interiormente e olhar disfarçadamente para quem finge ler o jornal do dia.
- Aqui está a sua bolinha com muito creme, que tive o cuidado de guardar para si como a sua bica (“beba isto com açúcar” daqui o café se chamar bica) sem açúcar para não engordar. Bom apetite!
Hora de risota para quem veio por atalhos com o fim de assistir às manias da D. Albertina dando o acontecido ensejo a paródia para o resto da final da manhã e servindo de imitação, levando a que os vizinhos sejam figura pelo que repetem no percurso inverso em voz de folgança.
- Sr. Bonifácio, uma Bola de Berlim com creme e um café sem açúcar!
Nas proximidades do Real, os ex – combatentes já são mais conhecidos pelas suas risotas do que o Papa. Qualquer dia ainda passam a sócios do Bonifácio, de tanta clientela atraírem ao estabelecimento. Todos querem ver com os seus próprios olhos o desplante de tão fina senhora.

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Modernices....


Por: António Centeio

A Dona Carolina e a sua bisneta adoram andar nas grandes superfícies, quer passeando ou comprando o necessário como ainda vendo preços para saberem onde se vende os produtos mais baratos.
A primeira com idade um pouco avançada, já que nasceu na primeira vintena do século passado que até parece nunca ter existido para a segunda porquanto nos diálogos «a bota não bate com a perdigota». Daqui, talvez as razões nos desencontros de trocas de ideias.
Tempo livre é que não falta a ambas mesmo que a idade já pese um pouco para a Dona Carolina.
Vasculham pormenorizadamente tudo à minúcia não vá os «donos da casa» enganar quem vem das redondezas, porque aqui, onde residem, nem sempre o progresso chega tão depressa como na cidade. Até há quem julgue que os do «interior» são uma cambada de aselhas – nem sempre é bem assim.
A bisneta, uma moçoila que já sabe demais para a idade que tem, é uma ávida visitante da Internet, coisa que para a idosa é «algo de outro mundo». Quando anda nas «buscas» e conta com a companhia de quem lhe deu a mãe, o tempo é passado de espanto e gargalhadas.
Quer pelas novidades que a utilizadora mostra como do que a segunda diz advinda das coisas do «outro mundo» que a estar ali no monitor mais não pode ser do que «o mundo anda ás avessas ou eu sou doutro planeta».
Desnecessário se torna explicar a quem já não enxerga bem, mas que ouve lindamente, o que a tecnologia oferece nos dias que correm.
Na parte da manhã percorrem duas áreas comerciais que se situam quase no mesmo espaço para de tarde virem até à parte alta da cidade, local que adoram, não só pelo movimento mas como por tudo que rodeia como das pessoas frequentadoras. Andam as duas pelo meio das prateleiras onde exposto está toda a espécie de produtos como as novidades mais recentes. Algumas até noticiadas na TV.
Quando acontece Dona Carolina ver na televisão a marca de um produto e no dia seguinte encontrá-lo bem frente dos seus olhos, a sua voz ressoa por tudo que é sitio levando a que a mais nova chame-a à atenção para o espalhafato que acaba de fazer. Não porque não goste ou se importe mas porque chama a atenção de quem lá anda que mais não são do que «umas cuscas» segundo a idosa.
Adoram andar de «malinha na mão» a ver o que as outras pessoas compram, para depois passarem pelas «caixas» olhando para quem leva os «carrinhos cheios». Sabem, as duas, pelo espaço ocupado, se as compras são para a «semana» ou para o «mês» como da posição social de quem vai pagar o que comprou.
Não é defeito nenhum, apenas «curiosidade» porque na freguesia estas coisas não acontecem. Logo, nada como «todos os dias na cidade onde até dá gosto viver».
Um dia destes, Dona Carolina precisou de comprar alguns ovos, dadas as suas galinhas terem decidido, por razões desconhecidas, não lhe dar aquilo que precisava.
Que remédio senão comprar no sítio onde passa a maior parte de seu tempo livre acompanhada de quem um dia deixará de poder continuar a fazer o que faz já que a vida se encarregará de mudar o respectivo rumo.
Nada, então, como aproveitar aquilo que se pode. Agarrou numa embalagem de ovos cuja marca conhecia por via da telefonia anunciar como «os melhores ovos do país». Olhou para o dito pacote e vai daí: puxou os óculos que andavam pendurados na ponta do nariz para ler bem as informações que na embalagem constava em letras grandes; não estivesse a ver as letras com as lentes de pernas para o ar. «…ovos produzidos à base de milho, trigo, soja e girassol» – talvez o que o marketing queira dizer é que as galinhas que produzem os tais ovos sejam criadas à base do que lá está escrito.
Não pôde deixar de exclamar em voz bem alta para a descoberta: «mas agora as galinhas deixaram de dar ovos ou já são produzidos em quantidade industrial sem passar pelo rabo das galinhas?»
Na verdade a sua idade avançada, como por tudo o que já passou na vida, permiti-lhe aceitar que nos dias que correm já tudo seja possível, mas agora «esta produção ou publicidade» é que não é lá muito convincente. Tudo tem os seus limites como certas coisas até confundem quem já começa a desconfiar que os «deuses devem andar loucos».
Ainda hoje se está para saber como o primeiro ovo apareceu quanto mais agora já não ser preciso galos que façam com que as galinhas ponham ovos; a não ser que sejam «ovos clonados» como lhe disse uma madame toda mandada para a frente que também andava naquelas bandas.
Na verdade e, aqui para nós, esta coisa de «ovos produzidos….», mais não é do que uma técnica publicitária muito usada pelos entendidos para que consigam vender aquilo que os seus «clientes» produzem e lhes pagam a peso de ouro – a publicidade.
Tanto anunciam que acabamos todos por ir atrás do engodo, quando muitas vezes até sabemos que «a bota não bate com a perdigota. Para complicar a coisa mais, a fiscalização deixa muito a desejar ou só aparece quando não deve aparecer. Como resultado às vezes até nos conseguem vender «gato imita a lebre».
A bisneta, de maneira que não chamasse a atenção de outras pessoas, encosta o seu ombro ao da avó e ternamente diz-lhe ao ouvido – bisavó, são coisas das modernices.

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Partidas do destino








Por: António Centeio

Ainda pequenino, quando seus pais o levavam a passear até ao Paredão gostava de ver o mundo que o rodeava como tudo aquilo que o fazia funcionar. Às vezes perdia-se no tempo para que pudesse mirar o que mais lhe intrigava ou chamava a atenção Na tenra idade, quando tinha duvidas sobre o desconhecido, puxava as calças do pai para que este lhe desse atenção e explicasse por palavras fáceis de compreender aquilo que não sabia. Talvez por estas e outras razões bem cedo começou a mostrar um certa inteligência e um gosto pelo saber como «não pensar noutra coisa enquanto não descobrisse a causa da primeira».
Foi na longa avenida nazarena que pela primeira vez viu uma cigana perseguindo o pai para que lhe deixasse «ler a sina». Diálogo difícil porque o pai não acreditava nestas coisas de «sinas e muito menos na lengalenga das ciganas» que via neste método uma forma de ganhar a vida à custa da curiosidade ou ignorância dos outros, mas a mãe achou graça à desenvoltura da pequena nómada pedindo-lhe então que lesse as linhas das mãos do petiz.
O resultado foi que o casal durante semanas andou às avessas pelo que foi lido. Não levaram a coisa a sério mas Pedro levou. O resto da vida foi passado a remoer o que ouviu em criança. Nunca se esqueceu do que a saltimbanca lhe disse. «Nunca andes de avião porque se o fizeres morrerás». A partir do dia em que tais palavras foram ditas, quem pequeno foi e homem se tornou, fez os possíveis e impossíveis para nunca andar de avião.
De formação académica, dificilmente deixava alguém indiferente. Culto na convivência com os amigos estes espicaçavam-no para não acreditar no oráculo, o que aliás até lhe «ficava mal» visto ser um doutor famoso na região em cuja capacidade e talento os doentes confiavam plenamente.
Acreditava um pouco nas «partidas do destino» como nunca se esqueceu do «olhar esquisito da cigana» para além de «nunca devemos renunciar naquilo em que acreditamos». Por mais que tentassem convencê-lo a viajar de avião, a resposta era sempre negativa. Não bastasse, em termos de humor diziam-lhe os mais chegados «devemos olhar para traz e sorrir dos pesadelos passados».
Quando ia aos congressos da especialidade levados a efeito nos mais variados países usava todos os meios de transporte, menos o aéreo. Foi preciso um colega seu convidá-lo para ser padrinho de um dos seus filhos, cujo baptizado se realizou no Barlavento, para no fim de quase cinco décadas anos Pedro andar pela primeira vez de avião (Lisboa-Faro) .
«Quando se chega aos cinquenta anos, já se conhecerem todos os sentimentos fortes da vida e começa-se a ter outro distanciamento em relação da mesma» dizia-lhe o companheiro de viagem.
A viagem decorreu da melhor forma com o tempo passado na cavaqueira de detalhes profissionais. A situação do país também não deixou de vir à baila como discutiram os colóquios que se aproximavam porquanto tinha terminado a época de férias, altura em que os professores aliviam a agenda. Na mira, estava o mais importante, onde um consagrado neuro-cirurgião ia apresentar publicamente os resultados de um estudo.
O avião fez-se à pista e aterrou com normalidade, levando a que o colega e futuro compadre lhe dissesse que a sina afinal mais não tinha sido que «conversa fiada». Pedro e o amigo foram os primeiros a sair. Por razões desconhecidas ao descer o primeiro degrau da escada Pedro desequilibrou-se, batendo com a cabeça num degrau e vindo de seguida a rebolar pelos restantes, de tal forma, que teve morte imediata. Foi a sua primeira e última viagem e a revelação realizou-se.



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Capa e resumo do romance "Nascida Na Terra Do Vento"


"Nascida Na Terra do Vento" retracta o drama e o difícil caminho que teve de percorrer a "Viscondessa da Ribeira de Vidais".
Da fortuna que herdou, gastou-a na luxúria e na vida nocturna para se esquecer do mundo que a rodeava como de quem sempre a serviu com toda a dedicação e respeito.
Talvez por desprezar e humilhar os mais desfavorecidos o destino trocou-lhe as voltas para passar a conhecer o "outro lado da vida": a pobreza, o sofrimento e a humilhação.
Não bastasse, teve que lutar e sofrer imenso para poder criar e educar o seu único filho, fruto de uma grande amor.
O romance encontra-se à venda nas livrarias.
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Capa e resumo do Romance "A Herança de Ana Margarida"



"A Herança de Ana Margarida" é a história real de um casal a quem o destino pregou as maiores partidas.
No dia em que viu uma folha despregar-se de uma árvore, próxima da sepultura onde seu pai estava a ser enterrado, fazendo uma série de círculos para só parar em cima do caixão, Ana Margarida soube logo que o seu futuro nunca mais seria o mesmo.
A maior de todas, foi quando lhe roubaram a filha, de poucos meses, num "Centro Comercial". Depois a vida secreta de Miguel, que quase lhe destruía toda a fortuna por causa das mulheres.
Foi com o dinheiro de Ana Margarida que um dia conheceu Lassa. Nada sabia dela. Apenas sabia que tinha na sua frente uma mulher que lhe corria nas veias uma mistura de sangue: árabe, africano, cigano, indiano, europeu, que fazia com que fosse uma espécie cocktail. Mulher criança, rebelde de espírito, doce de alma e imprevisível como um animal selvagem.
Seria esta enigmática mulher, um tanto misteriosa e até com uma certa dose de loucazinha, que encontraria um dia, alguém, a quem as lágrimas iriam para sempre fazer-lhe companhia com um sabor tão amargo, por não poder ser mãe.
Edição Esgotada
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Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Gabriel, um trabalhador acusado de assaltante





Por: António Centeio

É, e sempre foi um trabalhador exemplar – nunca gostou que lhe chamassem empregado. Ainda o patrão, não chegou à Fábrica dos Pirolitos e já aguarda a abertura dos portões para poder entrar.
É sempre o primeiro a comparecer na enorme extensão que nas horas de movimento acolhem as camionetas que descarregam e voltam a carregar o vasilhame daquilo que beberam e que outros irão consumir.
Sempre gostou de ser o primeiro a entrar para ser o último a sair mesmo que algumas vezes o patrão lhe tenha que pedir para se retirar porque quer fechar o que abriu.
- Desculpe senhor Alfredo mas a minha máquina tem que ficar como um brinquinho.
Todos o estimam e admiram pela sua entrega e dedicação à fabriqueta, não isentando que não haja este ou aquele que nas suas costas diga mal de quem não prejudica ninguém.
Talvez seja aquele trabalhador que todos os patrões gostariam de ter. Cá fora, da fábrica, todos o conhecem como o apreciam por se preocupar com tudo e todos.
- Então vizinha, a sua Mariazinha está melhor? Estas malditas gripes! Não desanime que melhores dias virão.
Se sabe dalguma desgraça, vai logo perguntar se é preciso alguma coisa.
- Não se esqueça se o seu marido precisar de sangue, quando for operado, estou pronto a dar do meu».
Quando a sua vizinha do terceiro sentiu as dores de parto, foi ele que a levou para o hospital de madrugada – o marido estava num curso qualquer de formação. Desapareciam as estrelas do Céu e já regressava na sua velha carripana, do tempo da guerra a caminho da Fábrica Peninsular de Pirolitos.
Bela dia, estava a trabalhar quando um agente de autoridade compareceu na dita, notificando-o para se apresentar na esquadra.
- Eu, ir à esquadra? Mas não fiz nada!
O polícia que o conhecia, disse-lhe para não se enervar que tudo se resolveria a contento. Com a breca, isto é que não estava previsto. «Notificado para ir à polícia?» Não pode ser verdade!
Para quem anda dentro das esteiras devia ser coisa complicada ou então algum engano.
- C’um raio!...Não te preocupes filho duma zíngara, não há-de ser nada de grave, disse o patrão para lhe acrescentar – cá estarei para te ajudar a desfazer esse enredo. Não te conhecesse há um carradão de anos; agora como te conheço, descansa que até vou contigo para sossegares.
A chefe da esquadra, por acaso uma bela moçoila, que até sempre viveu no bairro do agora notificado, conhecia como ninguém o Gabriel, daqui esta burocracia, mais não ser que um mau entendido, vinda de outras bandas.
- Sente-se ali naquele cadeira, vizinho Gabriel, para de seguida puxar por um enorme calhamaço:
- Diz aqui, que a sua viatura participou num assalto a uma ourivesaria lá para os lados do Algarve! Claro que isto mais não é do que uma enorme confusão, mas das grandes, atirou-lhe como informação a graduada.
O pobre Gabriel, quando ouviu o conteúdo do averbamento até mudou de cor ao ouvir do que era acusado.
- O meu carro? Mas não pode ser verdade, senhora chefe!
- Ó vizinho deixe-se lá dessas coisas e trate-me como sempre tratou. Qual chefe qual carapuça. Vizinha e acabou.
Apresentado o relatório, cedo se verificou que algum amigo do alheio, falsificou a matrícula do carro dos larápios. O azar calhou ao Gabriel.
Como um relâmpago, resolveu-se logo a questão.
- Gabriel, que o seu patrão entregue fotocópias do boletim de ponto e que faça uma declaração em como no tal dia esteve a trabalhar.
Chamado que foi o patrão, mais disse:
- Ainda provo mais: trago a gravação da máquina que filma a entrada e saída dos carros na minha própria fábrica; lá, tem que estar de certeza absoluta, o do Gabriel.
No fim do dia estava desfeito o equívoco e desvendado a causa da notificação, acrescida na resposta, de um apêndice em que a entendida fazia ver por A mais B que tudo não passava de uma esperteza usual de quem anda no gamanço.
- Irra! Que ninguém pode dizer que está bem, desabafou Gabriel quando viu o auto encerrado. Há dias que um homem não pode sair de casa.
Isto é que se riu o empregador, abraçando o empregado, enquanto lhe dizia:
- Vai para casa descansar que hoje já tiveste a tua parte e, de que maneira!...


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Não chora pelo presente nem pelo futuro mas pelo passado


Por: António Centeio


Patrícia, de seu nome, veio da terra das mil e uma flores. De cara como uma concha, olha para tudo que a rodeia. Quando se senta nos bancos que de frente estão para o rio, que tanto gosta de ver, seus olhos de gente grande espantam-se com o que vêem.
Do lado de lá, duas facetas antagónicas sobressaem. De um lado, o verde campo, o cantar dos galos, o alvoroço das galinhas e o amanho da terra. Mãos experientes tratam o que anteriormente foi posto nas suas entranhas para que mais tarde alimente quem plantou; do outro, a majestade da serra e a grandeza do silêncio que dela faz parte.
Existe no seu olhar, qualquer coisa de aventureira e de empreendedora. Quando for grande quer ter um bocado de terra para que nela, tudo um pouco possa plantar, a fim de poder fazer a colheita do que precisar.
Nos fins de tarde em que o Sol teima em ficar vermelho e consegue divisar através das folhas dos salgueiros, que fazem sombra sobre a água, olha para quem do lado oposto, está.
O verde das árvores e do prado deixam-na encantada. A casa de colmo com telha-vã, que no meio do verde se situa, recolhe o que apanhado foi para ao mesmo tempo fazer sombra a quem debaixo se recolhe.
Tem em cima da tropeça, uma grande alguidar de barro vidrado com a cor do meio em que está colocado. Dentro do mesmo, encontra-se várias peças de roupa, alguma de quem no dia anterior cavou o sustento. De corpo encurvado, com as pernas abertas para equilibrar o corpo, ensaboa-a para depois a esfregar, passando depois à torcedela.
Bem longe, ou bem perto, não sabe enxergar; os cornos da lua vão dando sinais que algo caminha para o fim. São horas de acabar o que faz falta e caminhar para a margem onde se situa a casa que chama de habitação. Bem perto desta, dois paus, que foram ramos de algum salgueiro, seguram um comprido e velho arame, carcomido do orvalho, que serve de estendal.
Peças de roupa são estendidas. Daqui a pouco e logo terminado, os tecidos molhados, que pelas cores contrastadas com o verde e o sol, parecem giestas em flor. Regressa então – sempre de cara amochada para a terra, que de tão pisada estar, já conhece os passos de quem a calcorreia – para a casa do fundo.
Pouco falta para que da amostra daquilo que deveria ser uma cantimplora, algum fumo começa a elevar-se para se juntar ao cinzento perdido que no ar ameaça chegar. Deve ser a hora da janta, pensa Patrícia, para se levantar e seguir para o adro da igreja.
Só daqui consegue ver tudo que a sua vista alcança. À sua direita, depois de bater com uma mão no pelourinho, encosta as pernas ao pequeno muro que a separa da baixeza, mesmo tendo a curta distância, do seu lado direito, a velha palmeira; um pouco mais longe uma chaminé, feita em tijolo burro de uma qualquer fabriqueta, que no passado deve ter destilado muito fruto de figueira.
Bem longe, vê que a bola do Céu vai desaparecendo aos poucos, mas com uma cor esquisita, dando-lhe a impressão que algo vai acontecer ou como que: o mundo ou a terra, já não seja o que foi. Não corre uma brisa nem sombra de nuvens no azul, que muito distante se quer estrelar. Ainda está quente a pedra do chão.
Por causa do calor da tarde anterior, até a erva está seca pela falta do orvalho da madrugada. De repente o Vento sopra, fazendo com que o que devia ser uma brisa, comece a se transformar num vento forte e assustador.
Vindo por detrás da serra, um negrão se aproxima, a passarada está num alvoroço. Até parece que as folhas se desapegam dos ramos que são a sua segurança nos dias quentes.
Ao voltar-se para a cruz que um pouco à sua frente está, repara que mudou de cor. Será impressão sua? Não é! O que vê é o início do aproximar da época fria, que se aproxima antes do tempo, que em tempo foi determinado.
Desce a correr o que subiu vagarosamente para de despedir da margem do rio que a susteve enquanto via coisas do lado de lá.
Chegada a casa, caiem os primeiros pingos grossos de uma chuva que durante meses molhará a calçada das Lapas como fará subir o nível do rio. Também a altura em que tudo que esteja cercado por orlas de árvores, ficará triste ou abandonado; tempo em que a solidão torna tudo cinzento para quem não tem onde ir.
Patrícia, sente as lágrimas que lhe correm pela face como as gotas que caiem em cima das telhas da sua casa, vindas das nuvens que há pouco vieram do lado escondido da serra. Chora, não pelo presente ou pelo futuro mas pelo passado; do tempo em que via a Ribeira da Peneda, vinda algures das entranhas da penhasco com o mesmo nome ou da Soajo. Também se lembra das quedas de água, das fragas graníticas, dos prados onde via garranos selvagens a pastar e o encantamento de alguns bosques.
Como Patrícia tem saudades de ver os campos de espigueiro? De trepar para se maravilhar das almas genuínas nas pontes de pedra; de ouvir histórias de homens que «o foral determinava que os fidalgos ali não pudessem demorar mais que o tempo de um pão saído do forno esfriar».
Nunca se esqueceu das palavras conselheiras do tio Álvaro «Um dia chegará a hora de partires. Antes dessa madrugada, quando andares pelas ruas, quando te cruzares com as pessoas e olhares para as suas casas, que a tua memória tudo guarde porque nunca mais tornarás a pisar as tuas raízes». Assim se cumpriu.
Não está arrependida de viver onde vive. As Lapas e o lado-de-lá do rio que nasce para os lados da Zibreira fazem com que sonhe com o dia em que terá um bocado de terra. Nessa altura então plantará aquilo que gosta de ver nos dias que se senta nas bordas do rio que por pouco não banha o seu poiso. Afinal é uma mulher do norte, de rija têmpera como o granito.
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O mistério da mala de cartão



Por: António Centeio


Todos os meses fazem a sua viagem habitual até Vila Velha de Ródão. O velho automóvel já está habituado às subidas da serra. Nunca se queixa do esforço que lhe exigem como do peso que leva, talvez por a “A-23” fazer deslizar as suas rodas sem qualquer solavanco como nos tempos que saiu do “stand”.
Os ocupantes já não passam sem a beleza estonteante da serra como da paisagem que cativa quem a saiba apreciar. Depois, os cheiros que vem do interior da terra e das árvores fazem com que a viagem demore mais tempo do que é habitual. Paragem obrigatória é na primeira “Área de Serviço” para no sossego mais uma vez ser contemplado aquilo que «só do alto se pode ver». O arvoredo que confere a tranquilidade; a zona serrana que permite um profundo envolvimento com o meio, possibilitando desfrutar paisagens abertas, algumas majestosas em contraposição com espaços estreitos para visualizar ao mesmo tempo a união entre o azul do céu, por vezes também a neblina branca.
Disseram-lhes em tempo, que nesta pacata vila se costuma vender «os melhores queijos do país» feitos manualmente por mãos hábeis levando a que os seus produtores não precisem de andar por tudo que seja sítio a vendê-los. A fama do que sabem fazer permite-lhes apenas aguardar a chegada de quem de tão longe vem.
Argumenta, quem os faz, com uma pouco de razão, que a publicidade dos seus clientes é suficiente para «não chegar para as encomendas». Daqui aconselhar a quem não conheça o negócio que «nunca se aventure a fazer qualquer tipo de viagem sem contactar» quem tão bom queijo faz e vende, caso contrário, poderá chegar à localidade situada na encosta da serra e não trazer os seus queijos.
Quando acontece, depois de apresentadas as desculpas de quem tão bem sabe fazer os “salgadinhos e picantes” nada se fica a perder. A quem não conhece a “Ródão” um dos filhos faz de guia turístico mostrando tudo que seja digno de se ver nas redondezas como a barragem que água recebe vinda do “Tejo” explicando ao mesmo tempo que a “ dos Montes Ibéricos” calma é em toda a sua expansão para fazer com a sua largura uma das mais bonitas albufeiras, permitindo a quem saiba, deleitar-se com a beleza da pacata vila que fica nas costas de quem olha para a barragem. Simplesmente uma soberba paisagem. É assim que os “Queijos da Vila de Ródão” como de quem os faz se tornaram famosos levando a que diariamente dezenas de forasteiros visitem a localidade. É assim que se negoceia. Se não há matéria-prima para vender oferece-se a quem se deslocou alguns passeios como. Nada se perde, tudo se vende.
Foi numa destas viagem que o casal e respectivos acompanhantes ao aproximarem-se da “D’Ródão” viram à distância, estendida na berma da estrada uma velha e comprida mala de viagem, daquelas de cartão. Deduziram que a mesma tivesse caído de algum carro, daí, terem parado e apanhando-a para a levarem para o “porta-bagagens” do velho “Fiat” com o objectivo de ser averiguado quem seria o dono ou….verem o seu conteúdo já que algo indicava que vazia não estava.
«Quem sabe se não terá dados para se escrever um romance» disse um dos que se apearam, talvez por ter lido dias antes “Para lá da Porta Secreta” – livro de um escritor e contador de histórias, chamado “Centenius”. «Que fazer com o raio da mala, de tão velha se encontrar até parece ser do tempo da guerra?» perguntavam uns aos outros. Olhando para as redondezas o que viam era: fumo branco a sair da chaminé da fábrica, agora “vivalma” nem sombra.
Foi quando alguém de lembrou «Vamos levá-la. Em casa vamos abri-la e logo se verá o que tem ou de quem é». Assim foi. Feita e armazenada a encomenda do mês, no porta-bagagens que levou o queijeiro a espantar-se com tal relíquia, como a dizer alguns piropos menos impróprios para a situação do achado, voltaram para a cidade de onde tinham partido horas antes.
Mal estacionaram a viatura na garagem, a fim de se descarregar as compras, como o achado, depois de fechado o portão não fosse algum curioso pasmar-se com o que visse ou desse com a «língua nos dentes» a mala foi colocada em cima de uma mesa. «Até parece que achamos um tesouro» disse a dona da casa para se rirem numa forte gargalhada.
No momento em que meteram uma faca para rebentar as fechaduras da mala de cartão, de tão ferrugentas se encontrarem, ouviu-se logo um estalido que indicava a abertura. O silêncio que pairava permitia ouvir barulhos esquisitos que mais pareciam pessoas espreitando pelas fendas do portão como os miseráveis pescadores narrados no livro “A Pérola”. O incumbido de abrir o tesouro fez render a expectativa; o silêncio fez barulho; olhos vindos da escuridão esperavam pela descoberta obrigando a que o viajante mais novo gritasse «Deixe-se de lerias e abra é essa porra!». Ao mesmo tempo ouviram, vindo do cimo, um forte estrondo – era a inquilina do andar superior a partir no chão um tomate congelado.
Todos mudaram de cor, exclamando em coro «a mala está assombrada». Recompostos do susto a mala foi aberta. Apenas continha: duas velhas e sarnentas fotografias de aviões da “Segunda Grande Guerra”; três ou quatro bocados de papelão, do tamanho de uma caixa de fósforos, que indicavam: ser o escriba um forreta ou um qualquer “manga-de-alpaca” já que neles constava os gastos feitos em “compras para casa no mês de Julho” do longínquo ano de mil novecentos e cinquenta e dois.

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Adalberto, um amigo porreirão



Por: António Centeio

Adalberto é um patusco e amigo da galhofa. Garganeiro, por defeito, não deixa de ser boa pessoa. Amigo de seu amigo está sempre pronto para a brincadeira. Leva os dias vagueando, no bom sentido, pelas ruas e ruelas da cidade, falando com este ou com aquele.
Pergunta a uns como vai a agricultura, a outros como vai a família e aqueloutros como vai a situação, porque segundo os seus conhecimentos, a coisa vai preta por causa da crise que o mundo atravessa, ou que atravessamos por via das asneiras dos outros. A haver, será sempre dos outros e nunca de nós.
Excepção, nos dias úteis, é o dia seguinte à segunda-feira. Dia de romaria e cavaqueira. Levanta-se bem cedo para assistir ao iniciar do dia e a fim de poder ver a montagem dos vendedores ambulantes no espaço a que alguns chamam de «Mercado Semanal». Nas redondezas do espaço ouve dizer: «um terreno valioso como este, de tão bem estar situado e com uma enorme ocupação semanal vendedores que nem factura passam mesmo sendo obrigatório) ser utilizado para outros fins ou encher a carteira a algum especulador? Nem pensar!».
Adalberto percorre de seguida com a sua calma de alentejano todo o espaço. Ouve aqui e acolá, para além ajuizar com velhos amigos o que antes ouviu. Assim pode ouvir o botar palavra de terceiros como fazer o seu próprio juízo, que nos dias que correm é preciso muito, se tomada em atenção for a idade da pessoa como dos que lhes juntam.
Por volta da metade do meio-dia, conforme os ponteiros das horas, vai arrancando a caminho de onde alguém o espera para lhe dar o merecido, obtido que foi das receitas dos rendimentos adquiridos em tempos passados por conta de outrém
Um sabichão disse-lhe: «pelo andamento que a coisa leva, qualquer dia nem para a sopa já chega». Quando pensa nas palavras do entendido, torna-se num desalmado e ralha com tudo e todos que o rodeiam, dando a impressão que são os culpados, mesmo que a sua velha Carminda, companheira que é há um ror de anos se compadeça sempre das malcriadices que vem da boca de quem tanto sabe.
Quando nas noites de tertúlia livre em que os vizinhos do bairro convivem na roda da mesa da sueca falando daquilo que todos falam, a noite passa a ser agoirenta para ficar também sem estrelas porque o «futuro está ameaçado por quem manda poupar mas não rentabiliza o que na sua posse está» ou não rentabilizou em devido tempo aquilo que deveria ser o sustento e de quem trabalhou tornando assim, a posteridade dos mais novos como um mergulho em águas baixas do rio.
Destes debates, o resultado, segundo os pareceres do Adalberto, foi ficar sem efeito a excursão, e as futuras, que estava marcada para o mês do ano com menos dias, aconselhando a quem o ouvia, que «estas passeatas deixam de ter efeito imediato para serem substituídas pelas Termas do Cartaxo».
Mais do que nunca, temos que começar a sermos forretas, já que no presente, até os bancos já estão a dar um “chouriço a quem lhes der um porco”.
A conclusão, como lógica do amigo patusco e galhofeiro, é que o futuro está a ficar preto demais para quem trabalhou e foi obrigado a dar à entidade responsável o «guardar uma parte daquilo que não queria para que da poupança um mealheiro tivesse nos dias de fim de vida». Aos que argumentam o contrário, que se cuidem, porque os saloios costumavam dizer: «Quando começares a ver as barbas do vizinho a arder mete as tuas de molho».

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Em busca do tesouro




Por: António Centeio


Xana era uma mulher vistosa até ao dia em que num acidente de automóvel ficou com mazelas, deixando-lhe deformações físicas. Nunca mais foi a mesma. Sua beleza exterior deixou de ter aquele encanto que tanto admirava e se orgulhava. Criou em si própria complexos, que quando olhavam para ela ficava nervosa. O médico acompanhante, e jovem como ela, dizia-lhe para consolo da sua alma “são apenas complexos”. Não estava longe da verdade. Continua sendo a mulher linda e encantadora que conheci, e por pouco, quase me apaixonava por ela.
O tempo é como uma “ borracha”, tudo apaga. Hoje é uma pessoa comum e já não liga quando a olham. Sempre foi uma mulher empreendedora. Mesmo sendo impossível deter o rio da vida e sem um centavo no bolso, mas com uma fé infinita, Xana, continua a ser aquela mulher que sempre admirei, tanto em corpo como em alma. Abriu uma clínica médica onde existem as mais variadas especialidades. De tal forma que tem o seu futuro garantido. Anterior ao acidente, costumava dizer-me que existe uma linguagem universal que está além das palavras. Se nós aprendermos a decifrá-las com esta linguagem conseguiremos decifrar o mundo. Tudo é uma coisa só, dizia ela.
Sempre disse que nunca se casaria. Achava o casamento um contrato burocrático com um pouco de hipocrisia à mistura. Mas o seu companheiro é algo que Xana muito preserva. Como a vontade é coisa que não lhe falta, busca algo que deseja e acredita. Agora dedicam-se os dois à filosofia com a companhia dos amigos mais chegados, nos quais me incluiu. São noites que perdemos mas justificadas pelo tempo utilizado.
Usamos para discussão o livro de Sofia. Um livro que demora a acabar mas que nos dá a hipótese de uma análise profunda.
Às vezes temos a impressão que há uma misteriosa energia que nos une ao mesmo tema. Alturas há, que estranhamos os nossos próprios instintos. Até Dudu a mascote de Xana, que nos faz companhia dá sinais para estarmos preparados para as surpresas da vida. Paulo, filosofa para que cada homem busque o seu tesouro e o encontre. Os sinais farão o resto, porque todos os dias são iguais, e quando todos os dias ficam iguais e, as pessoas deixam de perceber as coisas boas que aparecem nas suas vidas, não sabem perceber o sinal quando o Sol cruza o Céu.
Numa noite destas, Xana e Salém disse-nos que em determinado momento da nossa existência perdemos o controlo das nossas vidas e ela passa a ser governada pelo nosso destino. Numa altura da vida tudo é claro, tudo é possível, não temos medo de sonhar e desejarmos aquilo que gostaríamos de realizar. Olhem para mim: “1.72 de altura, uma vida de sofrimento e dor, sem filhos mas vivendo com um homem que me ama e amigos puros como vocês, onde alguns ainda sentem uma paixão por mim, não me devo sentir feliz?”
Então não é que descobrimos que a vida é constituída por símbolos, mensagens, sinais. São estes que nos regem a vida e nunca nos apercebemos porque não os vemos. Algumas vezes apenas os sentimos, como Xana, quando saiu de casa. Sabia que algo lhe ia acontecer no dia que ia buscar o seu diploma profissional a Lisboa. Desconfiou da emoção do papel que lhe daria o resultado do esforço exausto durante quase sete anos, mas não acreditou. Quando próximo de Aveiras viu vir um veículo pesado contra o seu carro então é que se lembrou daquilo que não sabia o que era mas que agora sabe.

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Lindo dia de Sol




Por: António Centeio




Quando acordou já era dia e um lindo sol coloria tudo ao seu redor. Para Sandra, o problema era com atravessar a floresta. O silêncio da floresta intrigava-a como os perigos que existiam no seu interior. Mas sabia que uma pessoa sábia tenta resolver os problemas antes que eles surjam. Descobriu que a noite é apenas uma parte do dia. Foi então que iniciou o percurso que tinha que fazer. Acreditava que algo a acompanhava nos seus passos. Nunca se esquecia de todas as armas que o homem foi capaz de inventar, a mais terrível – e a mais poderosa – era a palavra. Quem era e o que fazia sabia, muito bem. Mas há coisas inevitáveis que temos que aceitá-las como são ou então descobrir o segredo em como contorná-las para que não se avolumem mais. Tinha uma enorme Fé. Ensinaram-lhe desde pequenina que precisamos de confiança e, a confiança chama-se Fé. A fé é um mergulho numa noite escura. Acabou por atravessar a pequena floresta que a separava do chamado mundo civilizado.
Desde pequenina a minha «aluna» demonstrou sempre que, história ou filosofia seria o destino da sua licenciatura (como adorava as estrelas e o seu encanto). Acabou por escolher a última. Dizia sempre que nos mistérios do azul recebia as mensagens daquilo que acabou por seguir. Sandra era um encanto. Rompia pelos pensamentos uma áurea de inteligência para no brilho dos olhos resplandecer algo de misterioso. Toda ela era uma argúcia da natureza (só eu, a sabia compreender). Bem cedo descobri que nesta aluna que a sua capacidade em acreditar nos sinais era algo fora do comum. Previa para ela um grande futuro – nunca me enganei. Sinto-me feliz pelo tempo que despendi com Sandra.
O nosso encontro acabou por ser sublime porque o encontro de duas almas gémeas é maravilhoso. Sandra, sabia – mais do que ninguém, compreender os sinais. Nos encontros que costumávamos ter no silêncio da cabana com os nossos mensageiros acabavam sempre na aproximação de dois corpos espirituais. A essência da beleza e da Alma do Mundo não nos deixava ir mais além. Era o segredo de duas pessoas que buscavam a sabedoria no meio dos sinais e das estrelas.
Muitas vezes com a sua cabeça apoiada nas minhas pernas lamentava que a sua maior mágoa interior era saber que neste mundo materialista as pessoas nem sempre entendem a nossa linguagem.
Como gostava de Sandra!
Nestes momentos éramos duas pessoas numa só. O outro mundo, só compreendia palavras como ambição, riqueza e sucesso. Mal sabia que o futuro lhe reservava uma grande surpresa. Nas tardes chuvosas e de trovoadas assustadoras eu costumava ouvir o seu pequenino coração chorar. Chorava, porque nas profundezas do seu ser era sensível. Sentia-se insignificante para acabar com o sofrimento dos mais carenciados. A dor dos outros entrava nas suas entranhas. Como compreendia o seu grande coração.
Sentia-se uma privilegiada por estar comigo e me ter encontrado. Adorava-me e considerava-me um mestre. As suas primeiras palavras foram que “o amor é uma ponte que permite passar do mundo visível para o invisível”. Disse-me que estas palavras mais não eram do que uma homenagem a um grande escritor brasileiro que com a sua pena e sabedoria lhe tinha tocado no fundo do “ coração”.
Respondi-lhe que é preciso termos confiança na capacidade que cada pessoa tem para se ensinar a si mesma.
Sandra encontrou o seu caminho. De tanto amar Yorhge – como sabia e podia – só podia receber confiança e segurança. A vida é feita de sonhos e ilusões. Passado pouco tempo casaram-se. Yorhge era um homem experiente e um pouco mais velho do que ela. Mas soube recompensar Sandra com paixão e amor.
A vida prega partidas. Yorhje era um homem ambicioso. Correu riscos e seguiu certos caminhos que lhe dariam no futuro tanta amargura.
O sonho diluía-se. Sentia que o amor caminhava para o abismo. A ganância de querer sempre mais e mais acabou com aquilo que sonhara. Ainda bem que não tivera filhos.
O seu futuro estava ameaçado.
Nos meus ombros, as suas lágrimas corriam, sentindo eu, que a amargura estava a entrar nas profundezas da sua alma. A minha alma sentia a dor da minha aluna. Estava a sofrer em mim aquilo que Sandra sentia. Éramos como duas almas gémeas, a dor de um, era a de outro.
“Ajude-me a suportar aquilo que me consome” clamava! Como chorávamos os dois.
Eu semeei os meus sonhos no chão que agora pisas; pisa suavemente, porque estás a pisar os meus sonhos, disse-lhe.
Viajamos os dois para onde pudéssemos cheirar a maresia no mar e o gosto do sal na boca. Foi então que os seus olhos brilhantes sentiram um momento intenso. Atraída por outros olhos viu que as palavras de Francesco Alberoni correspondiam à verdade. Vacilou um momento mas o homem que estava na minha retaguarda era o amor da sua vida.
Vinda de Samora Correia encontrei-a em Lisboa nas proximidades de um grande centro comercial. Contou-me que tinha três filhos e viajava pelo mundo. “O mundo é como as estrelas, sempre em mutação” dizia-me ela. Afinal tinha aprendido alguma coisa comigo.
Acreditava na presença daquilo que sempre acreditou. A todo o momento pensava em mim. Recordava com nostalgia as noites que passávamos na sua casa.
Naquelas noites frias junto da lareira onde me pedia docemente “senta-te no sofá, porque só nele, com a companhia do calor das brasas, podes sentir o som das melodias que as cordas do meu violino tanto sensibilizam o teu coração. Para ti mestre, que tanto adoro, dedico-te as memórias do tempo”.
Como ela sabia executar “Lara’s Theme”. Tinha o “ dom” de me sensibilizar. Sabia o sentir do meu coração e aproveitava todas as oportunidades da vida para que estas demorassem muito tempo a voltar. Por tudo que lhe ensinei e pelo que fiz por ela, com os olhos fixos em mim, as suas lágrimas corriam pela sua face, cuja pele já demonstrava que o passar dos anos deixam as suas marcas. Mas a sua beleza feminina interior continuava sendo a mesma.
Mestre, como me chamava Sandra, dou-lhe como presente, ser o mestre de Petrus – seu filho predilecto, pela sua gratidão e pelo facto de existir como ter vindo ao meu encontro e ter esperado tanto tempo por ele.
Leve-me consigo – disse ela. Ensine-me a caminhar pelo seu mundo. Viajámos os dois no tempo, no espaço. Sandra viu campos floridos e cidades que flutuavam em nuvens de luz. No campo de trigo, ela compreendeu que os símbolos sagrados estão num dos Pólos da Terra. Precisamos de encontrar o nosso caminho mas sem nunca termos medo de o atravessar.
Lembrar-me-ei de ti a vida inteira, e tu lembrar-te-ás de mim, como das coisas que teremos sempre porque não podemos possui-las.
É preciso ajudar a construir, é preciso ensinar as pessoas a ensinarem-se a si mesmas. É pena que não seja da tua idade. Teríamos sido um grande casal. Não me esqueças nunca!


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Zacarias


Por: António Centeio

Homem de seus quarenta e poucos anos, sempre vestido de preto, expressão triste, faz-se acompanhar de um bengali. Passa os dias sentado num banco do jardim que confronta com a avenida, talvez a mais antiga da cidade. Entre o corpo e o braço um enorme calhamaço o acompanha sempre para que nos tempos livres puxe dos óculos, cujas lentes de tão grossas serem faz admirar quem para elas olha ou vê o taciturno cidadão na leitura.
Tardes e tardes debaixo da mesma árvore, esquecendo-se que está num sítio público, tal é a ânsia em ler aquilo que o escritor ou outro qualquer entendido escreveu. Dos poucos que tem acesso ao timbre da sua voz, sabem que não é um homem qualquer mas sim alguém com uma enorme cultura, porquanto as respostas que costuma dar todas elas são filosóficas.
Torna-se uma figura esquisita pela escuridão que o acompanha como na forma estranha de se vestir. Meses e meses com o mesmo tipo de roupa, que em abono da verdade, de suja não tem nada. Sempre limpa e bem vincada. Alguém deve tomar conta da mesma. Usa um perfume, cujo aroma indica que não deve ser qualquer mixórdia.
Todas as noites vagueia pelas ruas da cidade. O seu andar torna-se esquisito, por causa da sua forma de andar como pelas enormes passadas que dá, tornando difícil a quem tem o privilégio de o acompanhar, aguentar a sua pedalada.
Homem de poucas falas, mais ouvinte que pregador, as respostas são todas quase dadas em poesia ou frases tão invulgares, mas cheias de sabedoria que torna difícil a quem o quiser convencer de que aquilo que disse não é correcto. Contra argumenta com conjecturas que nos deixa sem fala.
Recita com suavidade a razão da lógica a quem se lhe oponha na contraposição dos factos. Sabe justificar que desde os primórdios sempre «houve e haverá o domínio da minoria sobre a maioria»; que o mestre «não escreveu mas outros transcreveram aquilo que ouviram»; que o homem «aceita o vulgo mas critica o conhecedor». Suaviza com parábolas as «dores daqueles que vivem de lamentos e crêem na fé quando na verdade lhes se ajusta a educação para socializarem-se na hipocrisia». A prova está: quando olham para ele, vendo no seu corpo aquilo que este recolhe e esconde, para o julgarem aquilo que não é mas que querem que seja. A sociedade é uma palhaçada. Vive de aparências quando deveria viver de realidade. Se Zacarias mandasse, obrigaria toda as pessoas a estudar filosofia.
As suas críticas tornam-se suaves para quem as ouve. Sabe comentar as razões dos responsáveis da edilidade sem nunca pronunciar o nome de quem quer que seja. Deixa a quem o ouve a duvida e o pensamento aberto para se entreter como num jogo de xadrez se por acaso se refere a fulano ou beltrano. Certo é que as suas teses não encontram discórdias de tão bem serem legitimadas. A ser juiz, seria tolerante, porque antes de condenar ou julgar vai ao cerne da causa e só depois de compreender a atitude de quem praticou o acto é que faz o julgamento, noticiando, então, a quem seu par ou ouvinte está a ser.
Só regressa a casa depois de ter percorrido as principais artérias da urbe. Nunca se deita antes das três da matina. Conhece os barulhos vindos dos lugares mais esquisitos como no silêncio da noite consegue ouvir rumores das conversas íntimas – que quem as diz, se esquece que no silêncio do escuro até o vibrar de uma corda de violino tem outro som. Conhece de ginjeira os vadios e os locais onde se trafica como dos que se escondem por debaixo dos degraus de escadas, dando o seu charrito.
Todos os conhecem mas ninguém o incomoda. Talvez por ser um homenzarrão que assusta todo aquele que se julgue musculoso. Zacarias é um homem pacífico e educado para além de ter uma cultura acima da média.
Se algum mais íntimo lhe pergunta a razão porque anda sempre vestido de preto, se não lhe faleceu, que se saiba, alguém próximo, responde com frases ditas de uma forma que até parece que está a ler as palavras que estão escarrapachadas no livro.
«Meu caro e ilustre amigo, à sua pergunta respondo-lhe citando o meu velho mestre – não diz o porquê do “mestre” ou quem o é – Steinbeck «É extraordinário a forma por que uma pequena cidade toma conta de si própria e de todas as suas unidades. Se casa homem e mulher, jovem ou criança, agir e se conduzir segundo um padrão conhecido e não ultrapassar as barreiras, e não quiser ser diferente dos outros, não fizer experiências novas e não adoecer e não puser em perigo a tranquilidade e a paz de espírito ou o fluir incessante e ininterrupto da cidade, essa unidade pode desaparecer e nunca mais se fala dela. Mas basta um homem abandonar os conceitos normais ou os padrões conhecidos e seguros, para os nervos dos cidadãos vibrarem de nervosismo e a comunicação percorrer todas as fibras nervosas da cidade. Nessa altura, casa unidade está em contacto com o todo» – Respondi-lhe de vosso agrado?»Se todos sabem, porque o vêem o assim vestido e poucos ouvem os seus discursos predilectos gravados na sua memória como os seus argumentos que raramente encontram oposição válida, porquê então lhe perguntar a razão do que é público? Quanto muito, Zacarias não é melhor nem pior do que todos nós.É apenas diferente.

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Um dia invernoso




Por: António Centeio

O dia está chuvoso e frio. A chuva incomoda-me. O frio quebra-me os ossos. Ando encolhido sem saber a razão. Olho para o Céu e vejo tudo escuro. O Vento teima em não dar forma certa de cair a chuva. Não sei o que fazer. Apenas sei que me apetece ir para a rua aproveitando o espaço livre pela falta de quem anda todos os dias na rua quando o Sol brilha.
Resido num andar situado no meio de uma longa avenida que me permite ver extensamente parte do que a rodeia ou dela faz parte. Às vezes até me deixa ver aquilo que não devo ver, porquanto na escuridão da noite, algumas janelas iluminadas no seu interior, permitem ver o que não espero e muito menos pretendo. É para mim, a melhor avenida da cidade, cujas noites de Verão me fazem calcorrear os longos passeios da mesma, quer para cima quer para baixo, quando no silêncio da noitada faço as minhas caminhadas.
Mas neste dia invernoso algo se apodera de mim e tenho que ir para a rua. Algo como um pressentimento que só a natureza nos sabe fazer sentir. Penso duas vezes o que devo fazer para ao mesmo tempo confessar a mim próprio, que no momento da decisão, detesto ter incertezas ou dúvidas, mesmo sabendo muitas vezes que estas duas coisas, para além de distintas, são na verdade, a solução do problema que me apoquenta.
Corro os cortinados, desligo a luz e visto o meu impermeável que me irá proteger de algum imprevisto. Levo também o meu chapéu-de-chuva e faço-me ao caminho. Começo a descer a Avenida, também conhecida como “Avenida doPatacão”. Das sacadas, pinga gotas de água grossa. Olho para esta ou aquela montra que no escuro embelezam o local com as mais variadas cores.
Como o dia está invernoso os carros circulam menos para o silêncio acompanhar-me com a possibilidade de elevar o meu pensamento para o desconhecido enquanto ouço a chuva a cair na calçada. Olho para uma ou outra montra mas o conteúdo comercial não prende a minha atenção por causa da época consumista que a sociedade atravessa.
Continuo a descer a artéria. Sem dar pelo tempo passado e pela distância percorrida começo a ouvir o rebentar das ondas. Estou próximo do mar. Entro na avenida lateral a que também chamam de “ Avenida da Praia”, talvez por esta dar acesso ao longo areal que no “período alto” atrai milhares de pessoas. Na minha frente vejo o mar, cuja água revoltosa me faz sentir como o mais pequeno grão de areia que não encontra lugar para se resguardar da fúria do Vento.
O furor do mar teima em galgar o paredão. Pouco falta para chegar ao asfalto. A chuva cai copiosamente por tudo que é sítio. As palmeiras situadas a meio da via fazem um ruído de arrepiar. Dobram-se mas não se quebram. Parece o fim do mundo. As depressões da estrada, com a água que vêm das nuvens, criam pequenos charcos de lama, tirando a visibilidade do asfalto. Não bastasse, até a claridade do dia se tornou numa escuridão. A chuva grossa teima em cair aos turbilhões do Céu.
Reparo então numa pequena figura que se encontra sentada em cima da relva que envolve as palmeiras espalhadas ao longo da alameda. Está dobrada com a cabeça entre as pernas. Aproximo-me desta pobre alma, olhando para o seu tronco. Quando me dobro para a chamar e ver a sua cara, um automóvel passa por cima de um lençol de água. Quase me encharca todo. Fico sem visibilidade alguma, tanta foi a quantidade de água que levei na cara e ainda por cima mal cheirosa.
Limpo a cara com o braço para de seguida abanar o corpo de quem desconheço. Levanta a cara e vejo um rosto feminino que de tão formoso ser encanta a minha alma. Quando a olho bem de frente assusto-me por causa dos seus olhos esbugalhados para de seguida me entristecer pela situação e local em que se encontra.
Como dois perversos, conversamos um pouco enquanto a chuva começa a encharcar-me por causa da posição e local. Por causa do Vento, pouco percebo do que me diz. Convido-a a sair de onde está. Aceita o meu convite e puxo-a pelo braço para baixo de uma varanda que se encontra no sentido oposto ao que estamos. Pergunto-lhe quem é e «porque está neste local num dia como este?». Não sabe justificar a razão. Apenas me pede que a leve para junto do filho. Explica-me onde se encontra. Logo informado do local, a sorte está do nosso lado. Um táxi passa neste momento. Faço-lhe sinal e dentro do mesmo seguimos imediatamente para onde a infeliz indica.
Um carro está enfeixado entre dois enormes pedregulhos que protegem o cais portuário. No seu interior, uma criança está presa no banco. Não apresenta sinais de ferimentos. O taxista aconselha a que se chame os bombeiros e autoridade visto que a jovem tem dificuldade em explicar-se, pedindo-nos apenas que «salvem o meu filho». A criança segue para o hospital e a mãe para o posto policial.
Poucas horas depois sei que a «criança está bem» segundo informação do hospital, como sua mãe está acusada de «causadora de um crime» já que pretendeu suicidar-se, tentando levar para o abismo, como companhia, o seu único filho.

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A terra ressequida





Por: António Centeio

O
Sol fica escuro porque uma nuvem de fumo teima em lhe fazer sombra. Mesmo que o dia ainda esteja a meio, as pessoas não sabem se o mesmo é depois do inicio se do fim.
Nem a própria Terra já sabe a quantas anda. Os passarinhos amedrontam-se pelo silêncio das folhas das árvores. 0 Tempo parou, ou mudou. Ninguém sabe.
As parras das videiras murcham e os cachos estão mirrados. Aqui e ali, as poucas oliveiras transformam-se de verde para cinzento. A terra, de seca tão estar, começa a gretar, como gretadas continuam as mãos de quem a amanha. O poço que transbordava água deixa um desagradável cheiro. Tão mal cheiroso, que até os pássaros que costumavam poisar nas suas bordas foge como se ali estivesse o diabo.
A velha barraca, feita de canas e tapada com telha-vã, segura por quatro fueiros, que servia para a tosquia dos carneiros já não se segura em pé. Toda ela se vai desfazendo. Basta um pouco de Vento e está num fanico.
Perdido no meio do seco, um escanzelado cão, raquítico e remeloso, cercado de carraças, olha para o horizonte como procurando um azimute. Em cima, transporta sem saber, ou finge não saber, uma amostra de arvela. Traz o bico aberto como implorando ao vizinho de baixo, o que os dois procuram. Calcorreados alguns metros, caiem os dois, sem saber o porquê. Bem perto paira o sinal da escuridão. Um coelho e um pombo estão em fanicos. A terra mãe recusou-lhes o sustento da vida. Poucos dias passarão para que apenas reste o esqueleto. Já não há uma malga de pão.
Os dois viajantes, acabados de chegar, não têm tempo de se aperceber que acabaram de entrar na trilogia final da vida. Ali tudo acaba, tudo deixa de ter vida. Caminhando para a terra mal cheirosa, rasteja uma sardanisca quem nem com o rabo pode. Aos poucos vão-se juntando onde tudo começou.
Um pouco mais longe, uma vala, em tempos, chamada de real, está amargurada, porque deixou de alimentar quem nela vivia ou dela dependia. Onde havia água cristalina, passou a haver um verde seco e pegajoso. Mal cheiroso tornou-se o que recentemente bem cheirava.
Os salgueiros que junto dela faziam sombra e marachas começam a estar raquíticos de tão secos estarem. A sua casca cai como o gelo quando se derrete com o calor.
A curta distância, dando a impressão que o escuro deixava ver mais longe, nas encostas da serra, os canaviais, perdidos no espaço, mas visíveis de quem precisa das suas canas para arranjar ou espetar as velhas sardinhas sardentas e queimadas pelo tempo, arqueiam-se com o bafo quente e morto que paira no ar para ao mesmo tempo, estarem desfalecidos. Das sinuosidades, sem força, pendem para um lado que nem eles próprios sabem, tal é, o que está escondido ou faz esconder o Sol.
O Vento parou para deixar de varrer com a fresquidão. Toda a verdura murchou para fazer companhia àquela que morreu de tão desnaturada estar.
Acolá, terras cheias de milho. No meio do milheiral e dos estalidos das folhas, por tão secas estarem, ouvem-se gritos alucinantes, vindo não se sabe de onde.
Lá, bem no meio das maçarocas, dois pequenos homens falam sobre o que está a acontecer «Nem a terra já chora. Que vai ser de nós e dos nossos, se tudo assim continuar?»
Enquanto um fala, outro olha para o Céu. «Como é possível o Sol ficar escuro por causa das nuvens vinda não sei donde?»
A conversa pára, olhando os dois – por debaixo da pala do boné que de tão gasta estar, sebenta se encontra – para algures, que nem sequer sabem para onde estão a olhar. No vazio das dúvidas assustam-se com o barulho do silêncio.
«Vamos é embora daqui, que alguma coisa vai acontecer!» Aconteceu mesmo. Do outro lado da extrema, uma nuvem baforada desceu demais para apoquentar tudo e todos. Como se de um raio se tratasse, num fósforo, a manada de carneiros derruiu para o chão, que nem uns desalmados. «C’um raio, que lhes aconteceu, meu Deus? Tão bem estavam e num raio d’um figo? ….”
Uma praga maldita por ali passou. De tal maneira endiabrada, que daqui, talvez a razão da quietude daquilo que não se ouvia. Como uma tempestade no deserto, vinda de não se sabe de onde para tudo na frente levar.
Com a aflição da seca e de tanto procurarem o que no afluente devia correr, nunca se lembraram que o gado a alguns dias não bebia água. «Até aquela maldita palha vinda do lado de lá de Espanha, parece que seca a boca aos bichos».
A engrenagem da maldita máquina que fazia o transporte do líquido da «outra parte» tinha estoirado por ter estado a trabalhar em seco. «Seco ficamos agora nós como secos já andam os nossos filhos».
«Raios partam esta vida que nem dá para vivermos com o pouco que a terra nos dá. Que vai ser de nós com esta seca e qual o futuro dos nossos cachopos? Maldita a hora em que me entreguei aos cuidados da amanha. Tivesse perdido o tino».
Bem pregava o queixoso. «Que disseste malvado, que de tão distraído estar a olhar para as nuvens, surdo fiquei!» Que lhe responder da sua pobre sina?
«Não disse nada companheiro. Apenas disse «raio de sorte a nossa!» para acrescentar «malfadada a hora que a minha mãe me pariu no meio da charneca. Se não o tivesse feito, talvez nunca soubesse o cheiro da terra. Agora sem a mesma não sei viver. Os tempos mudaram. Dantes era tratada por nós, agora é ela que nos trata».

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Férias na Nazaré


Por: António Centeio


Era sempre a mesma coisa. No primeiro dia do sétimo mês de cada ano, ainda o Sol não tinha nascido, já o Aníbal mais o Alfredo aparelhavam os cavalos às carroças para de seguida descerem o curto espaço que mediava entre o palheiro e a entrada da casa principal. Os patrões iam de férias mais os dois filhos.
Tinham que carregar a trouxa e a alimentação para um mês, numa só carroça. Para além do condutor iam também duas empregadas domésticas. Tudo bem arrumadinho porque o espaço era pouco e a viagem longa. A outra, a mais bonita, era puxada pelo Russo um cavalo empolgante que até parecia sentir-se vaidoso por transportar os seus donos.
Quando a noite desaparecia e no longe se via a bola de fogo, que até parecia que o Céu estava ardendo, já a algum tempo que os seus dois fieis empregados os aguardavam. Partiam bem cedinho para que o calor não os incomodasse mas também para que a viagem decorresse durante a fresquidão da manhã.
Eram viagens longas e atribuladas, algumas tenebrosas, não pelas assombrações de malfeitores, mas pelo caminho da terra ressequida e pelas tortuosas curvas do percurso. Um caminho longo e difícil de fazer. Valia-lhes a confiança do animal que puxava a carroça da frente. O Russo inspirava confiança. Galopava as ladeiras que lhes aparecia pela frente para pouco depois nas descidas os condutores terem que puxar as rédeas
Quando o Russo avistava chão plano, não era preciso dar-lhe rédea solta. Levantava o seu pescoço para ver bem o caminho e numa sacudidela fazia tilintar os guizos. Era o seu momento empolgante. Os viajantes sorriam com esta euforia.
Era o momento em que o patrão tinha que segurar o chapéu, a patroa os filhos, os empregados os bonés e as empregadas deixavam o seu cabelo desfraldar como uma bandeira em dias de vento.
Dada ordem de marcha, tudo era composto nos devidos lugares para o ultimo a subir, ser o condutor da carroça da frente, já que era o empregado mais velho da casa e de confiança. A próxima e penúltima paragem seria nas proximidades de Alcobaça por escassos minutos. Não que quisessem mas porque os cavalos tinham ainda que fazer a viagem de regresso.
Chegados ao destino, no Picadeiro esperava-os a senhoria. Uma bela nazarena que gostava de receber com todas as mordomias quem acabava de chegar. Os empregados descarregavam a trouxa e demais coisas enquanto uma das empregadas levava as crianças para dentro da casa. A outra seguia imediatamente para a lota do peixe para comprar peixe que tinha sido pescado há poucas horas.
Logo tudo arrumado, seguiam-se as ordens de quem mandava determinar os deveres a quem servia. Uma das suas primeiras atribuições era preparar o almoço. Sardinha assada, assim mandava a tradição. Depois, esperar pela chegada dos banheiros que acompanhariam durante as férias toda a família. Cabia-lhes acompanhar ao mar, como vigiar, quem fosse tomar banho para depois de terminado os envolver em toalhões e acompanhá-los até à barraca, sendo dada especial atenção às crianças.
Todos os dias, depois do jantar, os esposos iam engalanados passear no Picadeiro e conversar um pouco com outros casais. Era o momento que as nazarenas mais gostavam porque as senhoras espalhavam no ar os mais variados odores perfumados e os seus belos vestidos.
A protectora das crianças seguia a alguma distância de quem lhe dava ordens. A outra ficava em casa esperando pela chegada de quem tinha saído. No dia seguinte seria o inverso. Os condutores das carroças regressavam de onde tinham partido para só voltarem no último dia do mês.

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As noites de Inverno


Por: António Centeio

As noites de Inverno fazem-me nostalgia. Lembro-me que na minha juventude era uma pessoa adaptável, bem capaz de me dobrar como um salgueiro ao vento quando fosse necessário. Hoje, o presente apenas reflecte as atribulações de um passado para descobrir que os anos voaram e os dias continuam a serem intermináveis. Este encontro leva-me a viver obcecado com o que já passou para ao mesmo tempo continuar a perder um pouco, sem saber como, daquilo que possa estar à minha frente. O homem é talvez o único ser cuja essência é não ter essência nenhuma.
Mais do que nunca, apenas a inspiração me dá forças para amar a vida. Faz com que os dias se sucedam mas que não se repitam. Precisamos de saber distinguir o que é passageiro do que é definitivo. Tenho que saber escolher. Nisto, reside a minha força e o poder das decisões que tenho que tomar no dia a dia. Para quem gosta da vida como eu, é normal sentir medo nos momentos certos, e nada para decidir como as noites frias do Inverno. É esta estação que me faz agasalhar para depois meditar e obter forças a fim de fazer algumas coisas que fiquem cá porque serão estas que recordarão a minha passagem. Foi num dia desta estação que me recordei de tempos que já não voltam mas que são lembrados frequentemente.
Conhecendo-nos um ao outro como nos conhecíamos era para mim como o irmão que nunca tive e que tanto gostava de ter. Desde a escola primária que os nossos dias eram passados juntos, ora nas aulas ora na casa de cada um, para acabarmos os dias na brincadeira.
No Santo António, logo que saímos da escola, íamos para sua casa. Aparelhávamos o velho burro à carroça para seguirmos viagem para o sobreiral procurar rosmaninho. Cortávamos o mesmo com uma velha faca para de seguida ser colocado num pequeno monte para quando atingisse a altura que considerássemos suficiente fosse acomodado em cima da carroça. Quando chegávamos com a carga era logo descarregado no meio do quintal. Novamente colocado num pequeno monte era logo todo molhado para que estivesse fresco para a noite da folia. Um quintal de terra que todos os dias era varrido pela mãe.
Uma santa mulher e uma óptima dona de casa que não queria que nos faltasse nada. Mal ouvia mexer no portão ia logo para a cozinha fazer o lanche, composto de: torradas, doces caseiros, marmelada e manteiga. Terminada a trasfega, obrigava-nos a ir para a mesa da cozinha. Só de lá saímos quando entendesse que tínhamos a barriga cheia. Minutos preciosos para nós porque pensávamos que o tempo não chegava para todos os planos que já haviam sido traçados com a devida antecedência.
Íamos buscar uma pequena escada de madeira para colocarmos compridos arames que serviriam de suporte aos enfeites e às lâmpadas para que a noite fosse divertida. Todos os nossos companheiros de turma à noite tinham que marcar presença para saltar à fogueira. Uma noite em que se viam os mais afoitos e os mais medrosos. Até à meia-noite podíamos brincar e saltar, sempre vigiados pelos donos da casa, não houvesse algum que pisasse o risco. Nunca esquecerei o cheiro que deitava o rosmaninho. Ainda hoje quando recordo estes momentos, fico com a sensação que o tempo voltou para trás. Durante alguns dias não se falava noutra coisa. A noite de Santo António na casa do Mário João dava origens a pequenas discussões na escola, por causa daqueles que não puderam participar na festa. Os estalidos das bombas de carnaval eram descritos de uma forma tão elucidativa que todos nos invejavam. O suficiente para no ano seguinte os pedidos de novos elementos aumentar. Dos que eram aceites, tinham que pagar uma pequena quantia em dinheiro. Depois sem ninguém saber, servia para comprar pirolitos a quem tinha apanhado a erva cheirosa.
Ainda mal sabíamos escrever, já demonstrava o seu enorme talento para o desenho, ao ponto de o professor lhe pedir que fizesse uso da sua sabedoria para nas paredes da aula os seus bonecos – como gostava de lhes chamar, estivessem expostos para alegria de todos.
Toda a gente nasce com algum talento especial. Bem cedo descobriu que o seu era a cenografia. Desde pequeno que os seus olhos reflectiam um brilhante futuro. Sabia que a sua inteligência lhe abriria uma grande carreira como nunca deixaria que a sabedoria pudesse ficar ofuscada pelo brilho da vaidade.
A terra que nos viu nascer era pequena demais para lhe poder retribuir aquilo que merecia – porque as coisas não são como nós queremos mas como elas querem. Terminado o ciclo dos estudos liceais rumou à capital. Só nesta estava as condições que tanto ambicionava. Estivemos algumas dezenas de anos sem saber um do outro.
Quando nos encontrámos, recordámos aquilo que o tempo levou para ficarmos a saber que o futuro continua a ser um mistério. Relembrou-me as palavras de José Saramago «a fama é como o vento, vai e vem». A vida é uma ilusão – dizia-me. Caminhamos para o fim da nossa incumbência terrena e um dia a Alma do Mundo ou as suas sombras levar-nos-ão para tudo acabar. Resta-nos que perdure na história aquilo que fizemos.
Só as pessoas com sentimentos e uma grande alma se apercebem com antecedência daquilo que os espera.
Aos possuidores de riqueza espiritual, esta, faz vê-los os caminhos dos escolhidos, privilegiando aqueles que optaram pela sabedoria para acabarem a sua missão num eterno descanso. Sinto no passar do tempo aquilo que só o Inverno me sabe conceder, a nostalgia.

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A criança






Por: António Centeio



Porque a tarde outonal e a temperatura estava amena, fui à esplanada do Jardim para saborear um pouco daquilo que só este espaço de lazer sabe oferecer. Sentado numa mesa, olhava para as folhas que o leve Vento despregava suavemente das árvores. Algumas pessoas, também lá se encontravam. Umas, liam os jornais do dia, enquanto outras, conversavam dos mais variados assuntos, mas nenhuma contemplava a beleza e os contrastes da natureza.
Acompanhando o cair de uma folha do ramo de uma árvore, torcida pelo passar dos anos e de tão queimada estar do calor, os meus olhos seguiram todo o seu percurso. Quando se acomodou na terra fria, vi no meio de duas árvores uma pequena sombra de algo que parecia ser uma pessoa.
Continuando a olhar, esperei algum tempo para ver se não estava a ter alguma ilusão óptica ou se o perfil se deslocava. Nada aconteceu. Então, levantei-me e saí da mesa, para ir ver o que era ou quem era porque a rectaguarda do grosso tronco da árvore não me permitia destrinçar a verdade da ilusão sombria de um julgado perfil humano.
Voltado para a avenida, sozinho e encostado à árvore acastanhada estava uma fraca figura humana com pouco mais de doze anos, que passava despercebida aos menos atentos.
Perturbador, era o seu estado físico de tão magro estar.
Vestido com roupas todas desalinhadas e amarrotadas – talvez por dormir com elas em todos os sítios menos numa cama; com um cachecol de lã axadrezado no pescoço a aconchegá-lo, de cor castanha como a árvore que o amparava; sapatos a puxarem para o desleixado e a mostrarem que os seus melhores dias já há muito tinham acabado; os seus cabelos lisos, fininhos e alourados, não eram nem curtos nem compridos, simplesmente estavam oleosos e sujos; uma cara linda mas com uma cor torrada de tanto queimada estar pelo Sol para além de ressequida pelo Vento; orelhas transparentes pela claridade que nelas trespassava e um nariz achatado.
Com uns olhos azuis da cor do mar, uma pequena lágrima vinda do seu olho direito, evidenciava uma profunda dor e amargura – talvez por a vida não lhe sorrir; olheiras profundas, demonstravam que dormir e comer eram coisas há muito que seu franzino corpo necessitava.
No momento exacto que olhei para esta pequena figura de gente, senti a minha voz interior, dizendo “és um privilegiado da vida; vives num mundo diferente e nem sequer abrevias os passos apressados que dás durante o dia para pensares e veres como é o mundo destas crianças e tudo que o rodeia” É verdade! Reconheço que muitas vezes a correria da vida e o desejo de chegar mais depressa, impossibilita-me – aos outros também – de olhar para o que se passa mesmo ao meu lado. Esta voz interior mexeu bem dentro de mim. Levou-me a pensar que às vezes para encontrarmos o caminho certo temos que andar por caminhos errados.
- Quem és tu e porque estás sozinho aqui?
Olhando-me «olhos nos olhos» respondeu-me:
- Que tem o senhor a haver com isso?
Das suas palavras, compreendi logo na aspereza das mesmas, que a vida não lhe sorria.
- Queres sentar-te comigo, ali esplanada, que ofereço-te um copo de leite e umas torradinhas, porque pareces estar com fome?
Continuando a olhar-me, bem lá no «seu fundo» algo lhe disse que eu merecia a confiança que estava tentando conquistar, respondendo-me:
- Sim, aceito, porque tenho tanta fome, senhor. Já quase há quatro dias que nada mastigo.
Devorou tudo com satisfação o que lhe prometi e mais alguma coisa. Depois de ter conversado um pouco com ele, agora mais confiante, começou a «abrir-se» contando-me um pouco da sua atribulada e curta vida. A ingratidão da vida, o ambiente em que fora criado e a revolta interior, eram coisas que se reflectiam na nossa conversa.
Seu pai um músico saltimbanco (vindo e fugindo da miséria espanhola, veio para o nosso país, porque alguém lhe disse que “ em Portugal, ganha-se bem a vida pedindo esmola) explorava-o com o pouco que sabia tocar, já que tinha o dom de aprender com o ouvido. Um luxo demais para uma pequena criança, que bem sentia na pele, o preço de saber aquilo que nunca deveria saber.
Obrigava-o a tocar melodias tristes nos locais de grande movimento (tinha vindo de uma movimentada artéria das Caldas da Rainha) com uma «concertina» toda esfarrapada, para que as pessoas, dele tivessem pena e lhes dessem esmola, que por sua vez, tinha que restituir diariamente ao pai todo o valor obtido.
Quando não lhe davam o valor que o pai achava justo, a agressão e as ofensas eram coisas comuns na vida e ambiente familiar do pequeno, se ambiente familiar se pode chamar, a quem dormia dentro de um automóvel sem vidros, com bancos esfarrapados e apenas abafado por um pano roto e encardido de tanto ser usado. Para agravar mais a situação, o seu estômago já não recebia qualquer tipo de alimentação há alguns dias, porque não «trabalhou» para ter mais receitas, que o pai gostava de receber e precisava para gastar no álcool e tabaco, enquanto o seu rebento tocava na frente daqueles que sentados nas esplanadas das zonas de lazer, saboreavam os melhores acepipes, olhando-o com desprezo por estar descalço, sujo, roto e, ainda por cima, tocando músicas nostálgicas, quando na verdade queriam era: divertirem-se, pouco lhes interessando a miséria que na sua frente aguentava a passagem das tempestades.
Ainda hoje eu sinto na minha boca o gosto amargo das minhas lágrimas, quando o «pequeno saltimbanco» depois de satisfeita a sua avidez, com uns olhos ternos, mas tão cavados, olha para as profundezas da minha alma – até me arrepiei, tal era a sua convicção – dizendo “senhor, é tão triste estar a tocar e na minha frente ver as pessoas comendo e bebendo coisas que eu não sei o gosto que tem e pensar se algum dia terei o prazer que estavam a ter” para acrescentar docemente “ sabe quando pesa a concertina?” – claro que não sabia nem sei – “ às vezes, quando tocava, encolhia-me com dores na minha barriga com tanta fome”.
Porque as tardes no Outono são mais curtas e porque o nosso diálogo já ia longo, perguntei-lhe a razão de estar sozinho na cidade, para me responder “ fugi de meu pai e das arrebatadas que me dava todos os dias por não lhe dar o dinheiro que queria”. No momento, fiquei sem argumentos tendo em atenção a idade dele.
- Para onde vais agora? Sem dinheiro, sem documentos, sem conheceres os locais e tão pequeno que és?
Erguendo o seu curto tronco e olhando para o Céu, que tinha a cor dos seus olhos, disse-me:
- Nem eu sei! Não é por aqui que se vai para Fátima?
Não foi a pé para Fátima, como pensava ir. Levei-o no meu automóvel e deixei-o numa casa de crianças carenciadas e abandonadas.
Hoje sei, que está bem. Ali está e ali quer ficar; ali quer aprender a ser um homem justo, para que um dia “possa estar sentado numa esplanada vendo o seu filho a comer um gelado e não ver na sua frente um «pequeno saltimbanco”. Assim, se despediu de mim.
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A velhice


Por: António Centeio


Opinavam no Jardim três idosos e sábios argumentistas. Um que a “velhice é uma forma simpática da vida nos dizer que estamos a caminhar para o fim”; o outro “quando morre um velho arde uma biblioteca” o outro “o homem só é velho quando as lamentações começam a tomar o lugar dos sonhos”.
Toda esta sabedoria vinda de quem vinha emocionou-me e fez com que frases como estas me permitissem perceber e saber a estranha lógica das coisas e dos acontecimentos para depois as transformar em crónicas. Talvez sejam estas situações e estes dizeres que fazem de mim um permanente utilizador deste espaço de lazer.
É no Jardim que me inspiro para escrever esta coluna de bem (ou mal) dizer, como nele: ouço, escuto e vejo aquilo que só os idosos sabem contemplar para depois poder transmitir. Só tenho pena de não poder apanhar no ar as palavras ditas que se perdem no Vento.
È neste Jardim que às vezes a minha alma se entristece ou se transfigura, para de seguida, sentir a tão desejada inspiração. Nunca compreendi tal razão, mas penso que é, por causa do espaço e de tudo que o rodeia; dos aromas das flores que lá estão; do cheiro da terra que brota para o ar; do chilrear dos passarinhos que nas suas manhas de sobrevivência nos dizem que vemos o que é estranho mas não reparamos no que é normal; de ouvir as rãs e os grilos a falarem entre si mas que nunca compreendemos.
Agora mais do que nunca, talvez por as folhas começarem a cair ou por a bola de fogo estar tão longe, sinto-me aconchegado junto de quem tanto sabe pelos anos passados e pela experiência adquirida, fazendo com que possa ver as coisas como nunca as tinha visto ou ouvido.
Nada então, como sentir a terra, tão de si pisada; ouvir as vozes de quem tanto sabe – por tantos anos já sentir no corpo – mesmo que alguns sejam como aquelas árvores que quando são fortes não partem, só abanam.
Não que eu seja idoso – longe de tal – mas no vaguear desta zona verde e nas margens do rio, seduz-me a presença e a companhia de quem tudo sabe mas pouco diz. O suficiente para às vezes quando estou sentado nos bancos do Jardim pensar que no horizonte o Céu toca na zona alta da cidade. Pura ilusão!
É nesta procura de inspiração que a nostalgia me invade para me sufocar numa aflição que às vezes não me deixa dizer o que sinto. Razão, talvez, desta crónica ser mais filosófica que as passadas ou futuras.
Nesta bela terra mágica e encantada do Jardim calcanhada que está por passarem mil pés, sinto-me como uma folha no Vento e como o Vento, o tudo retornará ao que foi, mesmo que as mutações me impeçam de tal. Afinal a idade dos sonhos nunca acaba. Não fossemos nós incertos na natureza mesmo quando a escrita tem razões que o próprio escriba desconhece.
Aqui, também sei às vezes, por intermédio dos idosos, do que aconteceu ou do que vai acontecer, ouvindo o que dizem ou do que lêem nas estrelas, porque ler nas estrelas, só os sábios e conhecedores sabem. Razão tinha o idoso que disse “quando morre um velho arde uma biblioteca”.

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A infância de Martinho


Por: António Centeio

Como todas as noites dormi como um anjo. Não tenho preocupações que me tirem o sono. Acordei com o barulho do despertador. Iniciei os preparos de higiene com a companhia do meu gato que tanto incomodou. Dava a sensação de que queria dizer-me qualquer coisa já que as suas atitudes não eram habituais. Seguidamente tomei o pequeno-almoço – sem este, o dia não me corre bem.
Quando saí de casa olhei para o Céu. Estava carregado de nuvens escuras. Indicavam que mais hora menos hora iria chover abundantemente. Quando o Céu está assim o meu coração fica triste e a minha alma sente uma melancolia enorme que não é usual nos outros dias. Fico sisudo e com pouca vontade de falar mas a minha inspiração fica mais estimulada fazendo com que as palavras corram como a água cristalina de um rio.
Algum tempo depois iniciei a viagem prevista. Além da distância não ser grande nem difícil ser o itinerário a companhia da chuva não me largou até ao local da chegada. Passados poucos quilómetros a companhia de relâmpagos e trovões fizeram com que não seguisse viagem nestas condições, ao ponto de, ter que parar a viatura e recolher-me na primeira área de serviço que apareceu no percurso. Tanta chuva que não via a estrada. Até parecia que do alcatrão vinha um fumo tão denso que me barrava a vista. Tive de esperar até que o tempo acalmasse já que nas «notícias» tinham informado algumas melhorias com pequenos intervalos.
Dentro do bar encostei-me aos longos vidros existentes olhando para o exterior. Foi quando vi uma criança completamente encharcada de água, andando para diante e para trás na frente do parque de estacionamento dos automóveis. Alguns condutores esperavam por uma abertura para poderem chegar até ao local onde já me encontrava. Para a criança, era-lhe indiferente o sitio onde estava como pouco se importava com que em cima dele caía.
Martinho, de seu nome, mais não era do que uma amostra de gente. Vestido com umas calças e uma camisa toda encharcada de água, cabelo comprido, correndo pela cara, mãos nos bolsos e olhando para as pedras da calçada.
No seu íntimo, deveria saber que estava a ser vistos pelas pessoas mas não demonstrava qualquer complexo. Deveria ser-lhe indiferente o que estivessem a dizer ou a pensar.
Quando o tempo ficou mais ameno e pude sair de onde estava, iniciei o curto percurso. Perguntei-lhe se estava à espera de alguém ou se queria uma boleia. Respondeu-me que queria «uma boleia até Coimbra». Fiquei satisfeito porque também para lá ia. Faria a viagem com companhia e sempre poderia falar um pouco. Não esperava por esta companhia mas era uma criança que mostrava ser carenciada, mas acima de tudo, um ser humano. As crianças abandonadas e carenciadas sempre mexeram nas profundezas da minha alma.
Iniciada a viagem, após uma pequena brandura vinda de cima, aos poucos, foi-me contando a sua história. Bem cedo e desde que se lembra, sua mãe prostituía-se levando para a sua própria cama homens que lhe deixavam na pouca roupa que o seu colchão tinha, um cheiro a ódio daquilo que davam à sua mãe mas que esta negava ao seu descendente. Seu pai, nunca soube quem foi. Sabia que no seu lugar estava como substituto alguém que se elevava nos fumos da perdição. Não fazia mais do que dormir em casa, de chular a mãe e bater-lhe quando menos esperava. Cenas chocantes e palavreado fora do comum eram habituais no ambiente em que vivia. Lembrou-se emocionado do dia em que a mãe, pressionada pelo companheiro, o prendeu durante cinco dias numa das poucas divisões que a casa tinha. Nem uma migalha ou uma gota de água lhe deram. Tudo por causa de ter respondido a uma pergunta do dito cujo. Este queria saber quantos homens tinham entrado em casa no fim-de-semana. Teve a infelicidade de lhe dizer quantos, originando assim que a mãe levasse uma carga de porrada porque as receitas não condiziam com as entradas. Valeu-lhe o seu silêncio por já não ter força para pedir comer. Abriram-lhe a porta porque o julgavam morto. Deitado que estava na sujidade do chão levou meia dúzia de tabefes, que comeu sem reclamar, mas que lhe valeu o resto do comer que havia do dia anterior. Um antro de podridão e um homem sem escrúpulos fazia parte do seu mundo.
Quando entrou para a escola primária, via nas outras crianças o que elas tinham e como eram. Começou a sentir dentro de si um temível ódio para com todos e ao mesmo tempo para com ninguém. Os seus amigos tinham aquilo que teria gostado de ter. Das poucas vezes que pediu, recebeu como resposta alguns estalos na cara e pontapés no seu frágil corpo. Alguém utilizou recursos para que fosse internado numa casa apropriada.
Estava satisfeito. As pessoas sorriam-lhe e abraçavam-no. Mas algumas, gostavam sempre de separar as distâncias e as fronteiras – afinal era uma criança internada. Bem dentro da sua alma sentia uma grande dor. Esta dor e separação doer-lhe-ia para sempre. São feridas que nunca sararão.
Na sua cara de tristeza notava a amargura da vida. Nos seus olhos, lágrimas que jamais deixarão de correr pela sua face. Sentia como ninguém que as pessoas que tomavam conta dele, mesmo sendo boas madrinhas o desprezavam e não o consideravam como as outras crianças. O preço injusto da sociedade e das pessoas que dela fazem parte, em que: para agradarem fazem-se de gentis pessoas quando na verdade só tem dentro de si manias de superioridade.
Chegado ao destino, abraçou-se a mim numa angústia comovedora. Pediu-me que nunca o esquecesse como também os seus irmãos – aqueles que tem e mais aqueles que um dia virão pelo caminho que já trilhou.

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As sombras de Estevão



Por: António Centeio

O espaço, que faz do adro frontal da igreja uma zona deslumbrante, é suficiente para ter no seu interior várias acácias. Alguma, bastantes rugadas pelo passar dos anos e outras ainda com muitos invernos para suportar, assim a natureza o entenda.
Uma delas, talvez pela perfeição que a natureza a dotou, diferencia-se das outras. A sua longa ramagem e a sua abóbada majestosa fazem com que, nos dias quentes, a sua sombra seja procurada por pessoas que neste local despejam para o Vento, palavras e desabafos de amargura contra as partidas que a vida oferece.
Debaixo da acácia, existe um velho banco de madeira já carcomido pelas ventanias invernosas e temperaturas escaldantes, que algumas vezes, sufocam e negam pequenos rasgos de fresquidão a quem sentado está no mesmo.
Pena não poder falar este velho banco, porque se o pudesse fazer, muitas histórias teria para contar de tantos desabafos já ter ouvido. Até as suas deterioradas tábuas se derramassem as lágrimas que por elas já escorreram numa pequena poça de água cristalina se transformaria. Algumas, de tão salgadas e amargas serem, secariam por completo as raízes que debaixo da terra se refrescam.
A terra que segura e ampara os quatro pés do assento também sentiu muitas vezes o cair de sublimes palavras soltas que roubadas foram pelo Vento a quem para ela olhava.
Algumas, de tão belas serem, enlaçaram-se por magia nas entranhas da terra para em segredo assustarem os vermes que delas se aproximavam, porque no seu entender, só as palavras escondidas sabem arrecadar os segredos para quem lê mas não sabe o que está a ler.
Acácias, árvores sombrias e imponentes, que nas noites chuvosas deixam cair pingos grossos, que de tão grossos serem, magoam quem por debaixo delas esteja. Mas, sabem oferecer o conforto a quem delas as ouvir falar e compreender que a sua seiva, da terra vem.
Talvez deste saber, Estevão, de seu apelido, pobre de espirito mas rico de saber, as suas tardes fossem todas passadas no adro da igreja. Para ele, este espaço tinha algo de místico.
O verde envolvente, o branco das paredes, o divino que rodeava toda a área, o simbolismo da cruz e de quem em tempos nela foi pregado como o voar dos passarinhos, deliciavam-no. Só às vezes, quando o barulho do silêncio o apoquentava, para de seguida ouvir o bater das avé-marias, é que se sentia incomodado.
Depressa retomava aos olhares perdidos no horizonte para meditar nos tempos que a vida lhe tinha sorrido, dando-lhe aquilo que ele nunca soube compreender, levando-o ao mesmo tempo, a perguntar a si próprio, se “tinha merecido o que nunca pediu”.
Ele, que tanto gostava de olhar para as estrelas nas noites de solidão, ficou uma presa dessa mesma solidão. De tudo o que tinha, de tudo o que arranjou, de tudo que construiu e de tudo que amealhou, levado foi pelas estrelas.
Apenas lhe resta uma coisa: sentar-se no banco, que por baixo da acácia existe, para passar o tempo na claridade do dia a “lembrar-se daquilo que foi para pensar naquilo que é”.
De olhar contínuo e erguido para o vazio, apenas anseia que a escuridão chegue, porque nas trevas, pode encontrar nas ruas sinuosas da cidade restos de alimentação que mais não são do que “as sobras que os outros deitam fora”. Depois de encontrar este conforto interior, tenta procurar abrigo para dormir numa barraca situada na planície que faz frente com o terreno onde estão colocados quatro muros compridos, altos e largos, pintados de branco, tendo no seu interior alguns cedros, onde a terra é pesada e fria; onde Estevão, gostaria de estar à muito para não sentir o passar das estações.
O seu maior desejo, nas dezenas de anos que já têm e nas centenas de luas que já viu è: “encontrar uma estrela” para o “levar como levou as suas coisas”.

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As Nortadas de Abril



Por: António Centeio

Sempre que posso vou até à Praia da Vieira. Nunca nos meses de maior confusão mas naqueles em que as pessoas são poucas e que todo o espaço é nosso. Sinto-me uma criança quando vagueio nas poucas ruas estreitas e empedradas ou naquelas manhãs prazenteiras em que se cheira a terra molhada. Quando respiro o ar fresco da manhã sinto a minha alma sorrir para a mãe natureza. Na Praia da Vieira, o Céu e a Terra parecem tocar-se e fundir-se numa só essência.
Um dos locais de repouso obrigatório é na esplanada do café do meu amigo Lello que nas horas vagas adora desenhar no papel aquilo que a sua imaginação lhe transmite. Às vezes é tão perfeito naquilo que faz que até consegue desenhar o som de uma lágrima a cair.
Os seus desenhos são ex-libris. É o conteúdo que gosta de oferecer ou mostrar a quem perde horas na mais genuína cavaqueira. Conta-nos parte das aventuras que já teve quando, percorreu parte do mundo, para mais tarde regressar às origens. Diz que todas as viagens têm destinos que não compreendemos. Ainda hoje adora viajar sem destino, pelo simples prazer de viajar, possivelmente uma das razões do seu mistério quanto a viagens como dos Sete Sois, simbologia esotérica que acompanha os viajantes e que estes desconhecem na magia nos números.
Agora que já calcorreou meio mundo explora este espaço. Nas noites quentes é normalmente ocupado por pessoas que aqui gostam de passar as férias. Depois tem como companhia seres como eu ou outros escribas que aqui se inspiram. Ao mesmo tempo apregoa que no seu «espaço algumas obras já foram iniciadas como a presença assídua de letrados são uma constante».
Homem culto e modesto mas com um coração do tamanho do mundo sabe recompensar quem o ouve. Para os menos viajados, tem uma forma de detalhe muito própria, fazendo com que todos fiquem a conhecer o lado de lá de Espanha.
Ensinou-me que a «Praia da Vieira nasceu de uma pequena comunidade de pescadores que se lançavam ao mar embravecido em grandes barcos em forma de meia-lua, para horas depois, com a ajuda de uma junta de bois, arrastarem para terra as redes cheias de peixe». Este tipo de pesca artesanal chama-se “Arte Xávega”. Mas a «acção do mar, do vento e das areias tornaram difícil a fixação humana». Hoje quando o «mar permite, mais ou menos a partir da Primavera e até final do Verão» lá se faz ao mar, um pequeno barco típico, que vai deixar as redes. Mais tarde, com a ajuda dos «mais curiosos que estão na praia» puxam-se as redes, para a areia, cheias de peixe a brilhar.
Sabe também que alguns escritores deixaram na “memória do tempo” pequenos retalhos onde está bem descrito como famílias de outrora tiveram que «ir por aí abaixo em busca de melhores condições», hoje, conhecidos como os “Avieiros”. Num preâmbulo ao acaso citou-me de cabeça um pequeno excerto do romance “Nascida Na Terra do Vento”«…visitaram as aldeias avieiras, que foram em tempos uma comunidade de avieiros, pescadores que vieram de Vieira de Leiria em meados do século passado e aqui (margens do rio Tejo, entre Constância e Vila Franca de Xira) edificaram as típicas casas em madeira, construídas a pensar nas cheias de Inverno…». Uma autêntica enciclopédia este meu amigo.
No seu “dia de descanso”tem de ir ao mar gostem ou não os pardais quando fazem chinfrim nos telhados logo que rompe o Sol. Não sabe viver sem falar para o mar -talvez para soprar aos ventos aquilo que só a sua alma sabe.

Da sua esplanada posso ouvir o barulho ensurdecedor que as ondas raivosas fazem rebentando desalmadamente na areia como se esta fosse culpada. O cheiro do rebentamento das ondas delicia-me. O mar faz-me sentir um minúsculo grão de areia. Assusta-me pensar na minha pequenez perante o mar para ao mesmo tempo o Sol me seduzir quando desaparece no crepúsculo cintilante de azul a ouro.
Outras vezes, quando as noites estão mais tranquilas e as estrelas salpicam o céu negro viajo no silêncio da noite para ver se encontro o local onde estão as pequenas luzes que iluminam aqueles que buscam melhores dias.
Da última vez que lá estive a longa avenida estava cheia de areia dando a impressão que a maldade do homem a tinha tirado da praia. O resplandecente mostrava tristeza. Até o areal estava devastado pela falta da essência que faz a sua beleza. Os ventos das «Nortadas de Abril» com a sua fúria tinham roubado a areia para a colocar no caminho do vaivém das pessoas.

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Camila



Por: António Centeio

Camila nasceu com uma deficiência. A perna esquerda era mais curta do que a outra cerca de cinco centímetros. Levou toda a vida a coxear coisa que pouco a importunou como nunca deixou de ser quem era por mancar. Viveu sempre a sua curta vida num mundo de miséria e lágrimas. Não lhe bastasse, encontrou para pai de seu filho outro azarento, tornando os dois a vida galhofeira dentro das suas fracas possibilidades. Diziam para quem lamentava a sua pouca sorte que «uma coxa e um bêbado levam uma vida feliz. Sabemos antemão que nunca seremos como os outros nem tão pouco teremos o que eles têm» para acrescentarem «somos felizes à nossa maneira. Quanto ao resto que se lixe». A quem não compreendesse o sentido das palavras que lesse a velha história do “Sapateiro e a Rainha”. Moravam numa barraca de madeira ressequida. Nos dias chuvosos, a água que caía «vinda de não-sei-donde» entrava pelas gretas fazendo com que lá dentro tudo fosse uma chafurdice. Até as palavras de raiva contra a pouca sorte se juntavam com a «massa do pão que o diabo amassou». Aqui nasceu o rebento que lhes fez companhia durante uma trintena de anos. Tempo suficiente para o filho também ser um infeliz porque deles dependia. Dizia Camila nos momentos de desolação «tal filho tal pai. Bons dois coirões me saíram na rifa da minha pouca sorte. Não me basta ser manca, quanto mais estes dois incapazes que não sabem viver se não à minha custa».
Por vicissitudes alheias à vontade dos dois, no fim do seu ciclo de vida tiveram que andar a caminhar durante alguns anos – quase todas as semanas – para o tribunal da comarca, ora como acusados ou como testemunhas de quem lhe pagasse o dia. Para eles, era indiferente testemunhar a verdade ou a mentira. O que precisavam era que a «parte interessada nos seus préstimos» os trouxessem de volta ao poiso e passasse para a mão da Camila aquilo com que se «compram os melões». Para a mão dela, porque nestas coisas de «fiel depositário» o marido não merecia a mínima confiança já que por via do seu estado crónico a que se sujeitava constantemente, tinha uma certa tendência para depositar a «jorna do palavreado» na “Taberna do Xico”. Talvez, por andar sempre com a “jorca” é que não olhava nem reparava que a mulher mancava.
Tudo isto durou até ao dia que testemunhou um caso acontecido na aldeia. A determinada altura do julgamento o juiz perguntou a Camila: «na verdade viu o sujeito que está a ser acusado de roubar aquilo que Bonifácio afirma lhe faltar? Na sua inocência e ignorância apenas respondeu ao magistrado: «Eu não estava lá Excelência. Se aqui estou a testemunhar é porque o senhor Bonifácio me pagou o dia para apenas dizer que vi aquele malandro a roubar-lhe laranjas e algumas couves para levar porque não tinha mais nada para dar ao filho» acrescentando na sua genuína ignorância «quanto ao resto nada mais sei a não ser que o meu patrão me diga mais alguma coisa». Porque o ilustre não estava para aceitar brincadeiras e muito menos mentiras, aplicou-lhe o recolhimento: «cinco dias de prisão no Governo Civil» com a seguinte admoestação: «da próxima vez leva o dobro de dias».
Remédio santo, nunca mais Camila e marido fizeram duo testemunhal. Mudaram de profissão para passarem a fazer arraial no “assento de registos” atestando com o dedo que a «assinatura de fulano foi feita na presença de tais ilustres atestadores». Mais não diziam. Do que recebiam ainda sobrava para algumas poupanças, livrando-se ambos de se sujeitarem a «alguns dias às escuras».
Quando chegou a altura do filho cumprir o serviço militar, este assentou praça na “Casa Bandeira”». Neste dia, Camila e marido aperaltaram-se da melhor forma. Até pediram ao vizinho a «gravata dos funerais» para que o «jorcoso» fosse dignamente apresentável para a cerimónia.
Fizeram a viagem na sua carrocita, puxada pelo “jerico”, besta esta, já habituada a longas caminhadas por causa dos desvios de recolhas nocturnas que os donos costumavam fazer nas épocas de crise. Chegados à cidade, prenderam o burro junto do poste que iluminava o mercado municipal e seguiram o resto do percurso a pé pela “Travessa do Bebedouro”.
O passeio era estreito mas facilitava o andar de Camila, porquanto metia a perna defeituosa na borda do lancil e a outra na estrada. Assim o corpo endireitava-se mais, deixando de ser, ou parecer, «uma cepa torta» como gostava de lhe dizer o companheiro
As pessoas que iam no passeio retiravam-se para dar passagem a Camila por causa do seu estado, não deixando de mirar «o andar da pobre coitada”. Na rectaguarda desta seguia o pai do mancebo.
Finalizada a cerimónia, que enterneceu a «melhor mãe e mulher do mundo» como lhe dizia o filho, quando estava sóbrio, regressou pelo mesmo caminho que havia percorrido pouco tempo antes. Chegada junto da carroça o marido com cara de poucos amigos perguntou-lhe asperamente: «porque que é que os homens olham tanto para ti?»Camila, olhando directamente para o parceiro, responde-lhe «Ai, homem d’um corno, não vês que é por ser côxa! Não me digas que só agora viste que sou manca?

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Digna profissão de ferrador



Por: António Centeio

Patacão é uma pacata aldeia situada algures nas margens do Tejo. Povoação esta com cerca de duas mil almas. Nela vive Camilo Santos alcunhado já vai para algumas dezenas de anos por “Camilo Serra-Cornos”. Possuidor e respeitado pela sua profissão que de tão nobre ser, tão poucas existem por terras do interior. Todos que precisam dos seus préstimos o conhecem. Vem dos confins do mundo em busca da perfeição daquilo que aplica quando executa o melhor que sabe fazer: «ferrar bestas» assim apregoa Camilo.
Casado, já vai para sessenta anos com a Milinha, formam um casal de anciãos, fazendo inveja a muitos outros. Não há nenhuma excursão domingueira que a D. Noémia leve a efeito que não conte com a presença dos dois. No autocarro a viagem é de alegria contagiante. Cantam e dançam, valendo o casal por todos os acompanhantes, porque este «dia de descanso é para passear». Nos outros, Camilo trabalha que se farta. Ainda o Sol se esconde do lado de lá da maracha já ele deu de comer ao gado como tomou o «mata-bicho» para ter forças nas actividades ligadas à sua profissão. Esta exige-lhe a máxima atenção e esforço, porquanto de vez em quando «uma besta tresloucada teima em dar coices». Como só ele sabe da arte, tem que se resguardar a si próprio, pois nas «redondezas não existe tamanho entendido». Não ignora que quando «partir para o outro lado» os clientes vão ficar aflitos para encontrar quem lhes faça aquilo que só ele sabe e pode.
Não tem medo do trabalho que «está para durar». Apenas o assusta, como à sua companheira, os dias invernosos por causa do barulho que os salgueiros teimam em fazer quando o Vento os apoquenta. «Cambada de árvores que se dobram até ao chão mas nunca quebram». Até parece que o «diabo anda à solta por estas bandas parecendo que o”siroco” quer levar tudo que encontra pela frente».
Quando vai à Sede da vila, todos o cumprimentam, mesmo sabendo, que alguns lhe acenam por causa da sua profissão e da alcunha. Talvez não tenham noção é que Camilo lhes vai tirando do bolso a sua subsistência, permitindo-lhe levar o resto da vida desafogado e rindo-se para dentro de si com o pensamento daquilo que só ele sabe mas que não diz a ninguém.
Na lista de clientes, que têm como “fixos” contam-se a continuidade semanal de «doutorados e ilustres agricultores. Nos dias que correm ter uma burro ou um cavalo é sinónimo de riqueza». Deste desafogo vive Camilo e aqueles que dele dependem. Alguns clientes vêem de bastante longe. Outros para se destacarem, mandam os motoristas buscar o ferrador que para o efeito faz-se «acompanhar do ferramental para nada falte» a quem tão bem paga».
Recentemente apareceu no Patacão um idoso, vindo do Norte. Bem janota, de saco às costas, trazendo no interior as migalhas para o dia depois de já ter percorrido caminhos serpenteados na busca de quem lhe valha no arranjo do seu animal por «causa da falta de ferrado, que dia após dia só faz coxear».
Logo chegado, entrou na barbearia do senhor Canos, talvez por entender que é o melhor ponto de encontro, perguntou pela estância do curador, de quem já a «algum tempo tem ouvido dizer as melhores alusões». Dos presentes, respondeu o habitual pândego das redondezas: «amigo, não tem nada que errar, logo que chegue à “Rua do Taborda” junto ao largo da igreja, na primeira casa da esquina é ai que mora o “Serra-Cornos”».
O desconhecido pasmado com a alcunha interpelou o falador se na verdade «esse é o nome de tal ilustre?». O gaiteiro com «cara de puxar para o gozo» afirmou-lhe: «É sim senhor. Vá com Deus e descanse porque é assim que o dito é conhecido por estas paragens. Poucos sabem de seu nome verdadeiro. Quando bater à porta, chame-o pela alcunha».
O pobre homem desconhecedor das partidas de tal brincalhão, assim fez. Logo localizada a habitação, bateu no velho postigo, aparecendo-lhe então a Milinha que lhe perguntou: «que deseja vossemecê a estas horas?» disse-lhe então o forasteiro: «é aqui que mora o “Serra-Cornos”?».
Milinha, olhando bem olhos nos olhos o viajante, dando a impressão que não estava a ouvir bem a pergunta, educadamente volta-lhe as costas, para gritar de seguida bem alto para o marido: «Camilo vem já à porta que está aqui um desalmado que os quer serrados!»

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Capa do Romance "Beatriz, Filha Ingrata"



O drama, a luxúria e a tragédia fazem parte do romance "Beatriz, Filha Ingrata". Retracta a vida de uma menina que se torna mulher no seio de uma família normal, enveredando pelo caminho da prostituição, por causa do dinheiro e acabando por engravidar de um desconhecido para entregar depois o filho à mãe. Não bastando, rouba as economias da própria mãe para, de seguida, abandonar os dois seres mais importantes da sua vida, voltando ao mundo que muito bem conhece...
Ninguém, até hoje sabe do seu paradeiro.
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